David Beckham, um trauma e a superação em 99

David Beckham é uma marca global. São poucas as pessoas que não o conhecem e, certamente, sua força no branding o faz ser visto mais como celebridade do que um ex-jogador espetacular. Em 2016, postei no blog um texto tratando exatamente desse assunto; seu crescimento fora das quatro linhas chama a atenção, mas dentro delas sempre mereceu muitos créditos. Hoje, não vou focar em sua carreira como um todo, mas sim um ano específico. O gancho é, coincidentemente, um de seus projetos mundiais que não estão relacionados com o futebol.


Na última quinta-feira, foi oficialmente lançada a marca House 99. Me refiro à colaboração da estrela britânica com a L’Oréal, tendo como nicho o de cuidados de beleza para homens. São 21 produtos desenvolvidos por DB e a empresa francesa, que dedicou seu departamento de luxo para a realização da parceria. O papo aqui não é estética, porém, então vamos para o que importa. O nome do negócio gira em torno do conceito de comunidade - "House" - e, iconicamente, ao significado de um ano mágico - 1999.


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Brooklyn foi uma das diversas conquistas de David em 1999


A vida pessoal continua entrando em cena nessa questão, considerando que naquele período o inglês se casou com Victoria e viu o nascimento de seu primeiro filho, Brooklyn. O que causou efeito em massa, entretanto, foi seu rendimento esportivo. E o cenário que antecedeu a virada de ano era um dos piores possíveis. Na verdade, só até agosto de 98, mês que iniciou as oportunidades de superação. Em 97/98, o United vinha da perda de Eric Cantona e a sensação era de que uma queda aconteceria.


O próprio Becks assumiu a camisa 7 e embarcou em uma trajetória com alguns momentos difíceis, mas extremamente satisfatória no final. Naquela campanha, os comandados de Sir Alex Ferguson chegaram a abrir 12 pontos na liderança da Premier League e acabaram ultrapassados pelo Arsenal. Fomos eliminados pelo Ipswich Town na Copa da Liga, pelo Barnsley na FA Cup e pelo Monaco na Champions League. O único troféu levantado foi o da Charity Shield, ou seja, ficou uma atmosfera total de insignificância.



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Se o clima já era desanimador no plano doméstico, o maior pesadelo de David estava por vir em um palco bem maior. Trinta de junho de 1998, estádio Geoffroy-Guichard, Saint-Étienne, Argentina x Inglaterra pelas oitavas da Copa do Mundo. O placar anotava um empate em 2 a 2 e, no início do segundo tempo, o meia de 23 anos foi expulso por revidar uma chegada de Diego Simeone com um chute por baixo. A seleção não conseguiu manter a superioridade que vinha demonstrando e acabou derrotada nos pênaltis, finalizando precocemente o sonho de um país.


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A expulsão - e consequente repercussão - poderia ter se tornado um trauma na carreira de Beckham, mas a reviravolta foi bem maior


A repercussão na terra da rainha foi previsivelmente pesada, mas completamente exagerada e injusta. Beckham sempre foi um atleta esforçado, dedicado e apaixonado pela camisa que defendia - seja a vermelha em Manchester ou a branca em qualquer lugar do planeta. Por um deslize que durou menos de 10 segundos, viu o peso de uma nação cair sobre suas costas e foi crucificado por meses. A capa do Mirror no dia seguinte ao jogo estampava a seguinte frase: "10 leões heróicos, 1 menino estúpido". O mesmo tablóide distribuiu um alvo de dardos com o rosto do jogador no centro.


Isso sem me estender nas ameaças de morte enviadas diretamente à sua residência, bonecos enforcados e assédio familiar cometido por jornalistas. O cenário poderia se remeter ao inferno, mas pouco depois se transformaria em um céu dos mais belos. A campanha posterior começou com a estrela brilhando no opening day contra o Leicester, marcando o gol de empate no último minuto. Garantiu só um ponto? No momento foi o que pareceu. Na rodada derradeira, no entanto, esse ponto foi o que separou o campeão do vice.


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Em Old Trafford, Beckham nunca teve dívida com a torcida e serviu de inspiração para muitos


Em Old Trafford, o United virou sobre o Tottenham - com gol dele, óbvio - e assegurou a quinta Premier League de Fergie em sete temporadas. O Arsenal, que havia nos superado em 97/98, ficou na segunda colocação após ter sofrido um baque igualmente forte um mês antes. Pela semifinal da FA Cup, o Villa Park recebeu uma das partidas mais espetaculares da história do futebol inglês. Jogos da Copa paravam o país e, com os dois principais times na época, não seria diferente. Também teve gol de David e expulsão importante (Roy Keane, aos 15 da etapa final).


Jogando por 60 minutos - 30 do tempo regulamentar e 30 da prorrogação - com um a menos, a equipe contou com pênalti defendido por Schmeichel e um gol de placa assinado por Giggs. O vídeo abaixo explica o que foi aquela noite. Essa que não foi superada em emoção na decisão, diante do Newcastle, tida apenas como uma confirmação do sucesso depois de um clássico tão pegado e exigente nas semis.



David Beckham: ''Todo o lado vermelho do estádio entrou em erupção. Giggsy estava correndo descoordenadamente na frente deles, balançando sua camisa no ar. Muitos torcedores começaram a invadir o campo. Eu consegui ficar perto de Ryan, também, e ainda lembro do cheiro dos fãs próximos a nós. Um rapaz, em particular, deveria ter fumado cigarro durante o jogo inteiro e acabou me abraçando. Eu não consegui tirar o cheiro da fumaça do uniforme e do meu nariz pelo resto do dia''.




A dobradinha estava conquistada em 22 de maio, mas quatro dias depois veio a cereja no bolo. Em forma, significado e superação. O United estava na decisão da UEFA Champions League após três décadas, recheadas de taças para outros vermelhos britânicos (Liverpool, Aston Villa e Nottingham Forest). O adversário era o Bayern de Munique, também vivendo uma seca continental - 23 anos - e disposto a levar o terceiro troféu (além da Bundesliga e a Copa da Liga) para o Olympiastadion. Tínhamos outros planos. Basler abriu o placar para os alemães logo no começo e a vitória parecia certa até os instantes finais.


Ferguson não contava com o líder Keane, suspenso após levar o vermelho nas semis contra a Juventus. A figura que colocou a responsabilidade nas costas - dessa vez de um jeito bom, né? - foi Becks, se movimentando por todo o gramado e ditando o ritmo para seus companheiros. Sheringham e Solskjaer foram introduzidos no segundo tempo e proporcionaram duas das cenas mais icônicas do futebol europeu. Nos acréscimos, cada um desviou um escanteio cobrado pelo inglês (um deles após a defesa afastar mal) e deram o triunfo para aqueles que foram de Manchester ao Camp Nou.


A tríplice coroa era nossa. Era do gerenciamento de elenco de Sir Alex. Era do comando de Keane, as jogadas de Giggs e os gols de Yorke e Cole. No fundo, porém, era do ressurgimento sensacional de um garoto que 11 meses antes era visto como vilão por milhões de pessoas. A história acertou suas contas com o mesmo depois, o transformando em um ícone respeitado por todos e admirado por muitos. Mas aquele ano foi o mais importante, tornando o peso triste da expulsão em Saint-Étienne em uma carga de brilho, poder de decisão e alegria no campo esportivo e pessoal.


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A temporada começou com peso nas costas e o ódio de uma nação, mas acabou com realizações pessoais e troféus na mão


Para completar, no fim do ano ele foi eleito para o segundo lugar no Ballon d’Or e no prêmio de Melhor do Mundo da FIFA. Uma reviravolta e tanto; e tudo isso com muito estilo. A marca Beckham é espetacular em todos os aspectos. Relacionamos seu nome com o número 7, mas as raízes para seu sucesso está no 99. Em 99.