Manchester is red: o clássico de Pogba

Há quatro dias, ninguém dava tanto por um Manchester Derby que seria histórico de qualquer forma. O ânimo no lado vermelho era baixo, não temos razões diretas para brigar nessa temporada e o pensamento do torcedor já estava em 18/19. Pelos citizens, o título é questão de tempo há alguns meses e todos estavam concentrados na Champions League. Veio a lavada do Liverpool em Anfield, porém, e o cenário começou a mudar consideravelmente.


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Em uma questão de instantes, o tão soberano City estava com uma pressão absurda nas costas para corresponder às expectativas e elevar a empolgação dos fãs. Precisariam levantar uma taça contra o rival e preparar o terreno para a hora H da campanha, na terça-feira, pela volta na UCL. Mourinho já se animava com a possibilidade de estragar a festa em dose dupla, tirando temporariamente o troféu das mãos alheias e indiretamente atrapalhando-os na missão continental.


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A história do derby começou a ser reescrita na quarta-feira, em Merseyside. E terá seu capítulo final na terça, no Etihad


A animosidade nos confrontos entre dois dos maiores treinadores da história vai muito além do campo, ganhando uma dimensão extra nas salas de imprensa ao redor do planeta. Essa história começou com o português, rei dos jogos mentais lançados nas coletivas e projetados para as quatro linhas. Guardiola nunca foi bobo, é claro, e também solta declarações extremamente calculadas para manipular os aspectos que enxerga como game-changers.


Na sexta-feira, o catalão explodiu os tablóides britânicos ao 'revelar' a intenção de Mino Raiola, empresário e antigo desafeto pessoal, em fazer Pogba vestir azul. As mais variadas reações vieram imediatamente, partindo das discussões entre jornalistas reconhecidos e ecoando nos bastidores de Old Trafford. Minutos depois, o francês publicou um tweet mais do que sugestivo. As críticas ao cabelo, da mesma cor dos inimigos locais, concluiu um hype pré-jogo que não existia no começo da semana. E as respostas teriam que vir em campo.



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As escalações sugeriram equipes fortes, cada uma com seu respectivo objetivo. Começamos incomodando bastante o plano deles, pressionando a saída de bola e encaixando bem a marcação em todas as zonas. A intensidade era digna de uma decisão e, acompanhada pela movimentação coletiva e coordenada de ambos os lados, gerou um cenário extremamente interessante nos primeiros 25 minutos. Assim como em 2012, um gol de Kompany - em cima (literalmente) de Smalling - quebrou o gelo e tornou o momentum para os anfitriões.


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Não foi bem o que vimos hoje. Os dois têm seu lugar na história do esporte, mas Mourinho não pode ser desrespeitado


A partir daí, foi colocado em prática o que cada time tem no cartão de visitas e a disparidade ficou visível até o intervalo. Na liderança, um conjunto capaz de agredir oponentes de várias formas: com a posse controlada, os lançamentos precisos de Éderson ou os ataques fulminantes nas costas da defesa. Na segunda colocação, um conjunto incapaz de trocar passes sob pressão, infiltrar sem bola em contragolpes ou lançar jogadas de trás para alguém que não se chame Lukaku.


De Gea tentou, mas falhou miseravelmente e entregou nos pés de Sané. Gundogan e Sterling brincaram com os marcadores e o alemão ampliou. O inglês ainda perdeu duas chances claras e evitou um vexame vermelho na etapa inicial, pelo menos no placar. Em termos táticos, o que se viu foi um throwback para os tempos áureos da competição individual entre os comandantes. Pep usou as vantagens do falso 9 como poucas vezes se viu em terras britânicas, lembrando do show que costumava entregar na Espanha.


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Sané, Sterling e Bernardo Silva formaram um trio capaz de, através da troca de posições, superar cerca de 5 defensores. Isso se tirarmos Smalling da equação, porque seria injusto colocá-lo no mesmo grupo de jogadores funcionais. Sem um parceiro de zaga, Bailly ficou ainda mais perdido e nas laterais o panorama também preocupava. Valencia estava de olho no corredor e não compactava a linha, algo que Young até tentou… mas acabou produzindo coisas como essa.


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Pogba comandou a virada de todas as formas possíveis. Essa foi, sem dúvidas, sua atuaçaõ mais emblemática com a camisa do United


A impressão era de que teríamos uma goleada marcante, mas algo aconteceu no vestiário. Jose deve ter mostrado para Pogba todas as matérias sobre as frases de Guardiola. Ou sobre o cabelo. O fato é que ele voltou ao gramado com a mentalidade pronta para provar algum ponto - e, como consequência, conquistou três. O time teve liberdade para se soltar e testar o sistema de contenção dos donos da casa, que jogavam com tranquilidade e sem nenhuma ameaça.


Labile deixou a responsabilidade da criação para os companheiros, principalmente Sánchez, e se concentrou na aproximação da área. Infiltrando duas vezes seguidas como o elemento surpresa, recebeu bolas fantásticas de Herrera  e Alexis e deixou tudo igual. Para completar um roteiro totalmente louco, ninguém menos que Chris Smalling decretou a virada. As comemorações dizem tudo sobre o significado interno para os atletas.


Mais um 3 a 2 no Etihad, mais um balde de água fria na empolgação rival. O título continuará com eles, mas o futebol é feito de momentos como esse. A explosão de pequenas narrativas que transformam panoramas drasticamente, como pode acontecer no City. As performances em 17/18 foram espetaculares, mas o fim da temporada se avizinha em um anticlímax. Enquanto, voltando para Old Trafford, o elenco terá certeza: nosso tamanho é gigantesco e, nas mais variadas circunstâncias, podemos protagonizar coisas espetaculares.


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Say what?


Paul Pogba estará presente. De corpo, alma e cabelo.