Michael Carrick foi um sucesso silencioso no Manchester United

A temporada da Premier League teve seu fim no último domingo (apreciem o lançamento), mas há algum tempo nenhum torcedor do United dava a mínima importância para a competição. E, na 38ª rodada, algo bem mais relevante se encerrou: a carreira de Michael Carrick como jogador de futebol. O inglês pendura as chuteiras epois de 740 partidas disputadas, 18 títulos (12, se não contarmos a Community Shield) e o apreço de todos aqueles que o acompanharam de perto. Se o seu nome não traz qualquer badalação, o desempenho fala por si.



Mesmo depois das contratações de Nemanja Matic e Paul Pogba, o meio-campo segue sendo um ponto de interrogação e provavelmente dois reforços vão chegar para a posição na próxima janela. É uma zona do gramado que requer entrosamento, qualidade e, acima de tudo, consistência. O recém-aposentado conseguiu desenvolver todos esses atributos após desembarcar em um cenário semelhante ao atual, com problemas no núcleo da equipe.


No verão europeu de 2006, Sir Alex Ferguson vivia um dilema e as perspectivas em Old Trafford não eram das mais animadoras. O encaixe dos Invincibles do Arsenal e a chegada de Jose Mourinho no Chelsea fez com que ficássemos pra trás, sem títulos da liga por três campanhas consecutivas - a maior seca com SAF desde a criação da PL. Para termos noção desse panorama complicado, John O’Shea (zagueiro) e Alan Smith (atacante) formaram a dupla central mais utilizada em 05/06.



"Quando você joga com Michael Carrick, você pensa que tem autoridade, controle, paz. Quando você está em um campo de futebol jogando contra Liverpool ou Manchester City, você precisa de paz. Você as vezes não quer pessoas correndo como loucos. Scholes e Carrick juntos me davam paz. Era como chegar em um bar e ouvir o piano tocando. É relaxante. Ouvir a um bom rock é legal, mas as vezes é bom ouvir a um piano. Carrick é um piano." - Gary Neville



Roy Keane havia rescindido seu contrato em novembro de 2005 após brigas internas e Scholes não jogava há meses por um problema na visão. Havia incerteza sobre o retorno do segundo e, crucialmente, a lacuna escancarada com a saída do primeiro. A escolha do treinador foi substituí-lo com uma peça de características totalmente distintas. Enquanto o irlandês era conhecido por sua tenacidade, agressividade e o poder nos desarmes, Carra era tudo sobre controle: paciência, toque refinado, posicionamento e muitos passes.


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Keane era um dos melhores meias do mundo, mas deixou o clube por desavenças nos bastidores. Problema?


Comprado junto ao Tottenham por £18 milhões, ele se tornou na época a sexta contratação mais cara do clube e levantou várias dúvidas por parte da torcida/mídia. Poucos conseguiram prever que o garoto revelado no West Ham - assim como Frank Lampard e Paul Ince - iria assumir o trono de Roy como um líder, muito pelo perfil de frieza e atitudes reservadas. Entretanto, Michael não precisou levantar a voz durante os jogos para que seu valor fosse percebido. Pelo contrário.


A maneira encontrada pelo camisa 16 para se tornar figura fundamental se baseou puramente em ações com a bola, representando um termômetro do ritmo desejado por Ferguson. Com Cristiano Ronaldo em ascensão e Rooney cheio de energia, nossa filosofia afunilava bastante na imprevisibilidade avassaladora nas pontas. Michael era capaz de acertar lançamentos precisos de áreas mais defensivas para o último terço, mas seu diferencial era o timing na escolha das jogadas - sem forçar a todo custo.



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Na verdade, a maior parte do tempo se concentrava em uma postura de estabilidade e a distribuição consciente da posse. Ter Scholes ao seu lado certamente ajudou, mas vale dizer que Carrick era superior ao seu conterrâneo quando o time não tinha a bola. Seu registro pequeno de desarmes e divididas espalhafatosas fala um pouco sobre a falta de hype, mas fala demais sobre seu senso de posicionamento e a noção do espaço.


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O buraco deixado pelo irlandês foi excepcionalmente ocupado por Carrick, que fez uma dupla de alto rendimento e consistência com Scholes


Um atleta diferente em uma cultura até então ainda rústica do futebol inglês, simbolizada pela rivalidade de Keane e Vieira nas memoráveis batalhas entre United e Arsenal. O fim dessa era marcou o início de outra, justamente com a chegada de Carra no lado vermelho de Manchester. O meia deu um novo gás para a trajetória de Sir Alex e, nos 7 anos sob o comando do escocês, levantou 5 taças da Premier League, uma da Champions e foi vice duas vezes do torneio continental.


Em 2012/13, na campanha do nosso último título do campeonato, ele foi votado como Player of the Season pelos seus companheiros. Considerando o quão vital foi o papel de Robin van Persie, essa escolha para o prêmio representa o tamanho do jogador. Enquanto a seleção da Inglaterra sofreu por uma década para encaixar Gerrard, Lampard e eventualmente Scholes, uma das peças mais apreciadas pela nata do futebol mundial ficou de lado. O azar foi totalmente deles.



Também por não ter se desgastado tanto com o English Team, seu desempenho pelo clube atingiu um nível absurdo perto de 2008 e a consistência o manteve em um patamar elevado até pouco tempo atrás. Problemas cardíacos e o peso da idade (36) limitaram sua participação dentro das quatro linhas, mas Michael continuou uma figura influente nos vestiários. No recente triunfo contra o City, foi ele quem instruiu Pogba a infiltrar na área adversária e o resultado vocês sabem qual foi.


Conduções ou chegadas na meta oponente nunca fizeram parte do seu repertório, mas quando falamos de um profissional inteligente seu impacto vai muito além de três ou quatro atributos. Felizmente seu conhecimento continuará reverberando por Old Trafford, já que Mourinho confirmou a nova adição para sua comissão técnica. Sua carreira foi silenciosamente vitoriosa, mas nada nos impede de fazermos barulho em reverência a um dos melhores - e mais consistentes - jogadores que passaram pelo United. It’s Carrick, you know, it’s hard to believe it’s not Scholes.