Investir em Bale valeria a pena para o United?

A janela de transferências do United vinha nos trazendo um clima positivo - a maioria das especulações mais confiáveis agradam - e, surpreendentemente, bem realista. Nada de negociações tão bombásticas e chamativas em termos de visibilidade, mesmo tendo ótimos jogadores como alvo - Alex Sandro, Alderweireld e Fred, por exemplo. Willian, Sidibé, Cancelo, Milinkovic-Savic, Mandzukic e Arnautovic foram outros nomes que, supostamente, apareceram no radar.


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Veio a final da Champions League e o cenário se elevou consideravelmente, dependendo da perspectiva que olhamos. O Liverpool segurava um empate e até dava esperanças para o torcedor, quando Gareth Bale foi ao campo e cravou sua marca no jogo e na história da competição. Não precisamos falar sobre o quão espetacular foi aquele gol de desempate, mas sim contextualizar algumas matérias que surgiram posteriormente. Os jornais ingleses foram os primeiros a tirar vários rumores das gavetas.


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O momento que colocou Bale no topo dos gols mais belos e marcantes da história da Champions League


O Independent veio com a maior quantidade de (presumíveis) informações: o clube continua liderando com folga a lista de 'preferências' do galês, em caso de saída; ele teria confessado para seus companheiros de equipe que deseja se juntar a nós; o United sente que a contratação teria valor muito alto, tanto na compra quanto no salário; o Tottenham tem uma cláusula que o permite igualar qualquer proposta pelo atleta e, contratualmente, adquirir seus direitos de forma automática.


Segundo o Mirror, a proposta certamente será enviada nessa off-season. O Guardian diz que Mourinho e seu staff médico não se preocupam com o histórico de lesões do camisa 11, cujos representantes vão se encontrar com Florentino Pérez, presidente dos merengues. Não sabemos até que ponto acreditar em cada reportagem, mas o interesse claramente existe. Jose, inclusive, na última tour nos Estados Unidos falou diretamente para Bale que "não pode comprá-lo porque ele não fala".


Se a questão passasse apenas pela qualidade esportiva, não haveriam discussões. Falamos de uma estrela em qualquer campeonato que disputa, unindo brilho com produtividade e tirando momentos diferenciados da cartola - como vimos em Kiev. Ou em Manchester. O problema realmente está em seu corpo. Até por tê-lo desenvolvido de maneira extrema em algumas partes, seu porte físico sofre com 'quebras' constantes.


Reprodução/Transfermarkt
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O Guardian nega, mas duvido que esse histórico de contusões não preocupe Mourinho


Desde 2015/16, quando efetivamente se tornava em uma espécie de máquina dentro das quatro linhas, perdeu 277 dias por contusão. Ou seja, 58 partidas e sequências que seriam fundamentais para consolidá-lo como peça-chave dos espanhóis. Na última temporada, começou apenas em 20 das 38 rodadas de La Liga e em três dos 13 compromissos da Liga dos Campeões. Um record preocupante, sem dúvida alguma, também se considerarmos que ele estaria se transferindo para um país mais intenso fisicamente.


Por outro lado, é o mesmo lugar que lhe faria sentir como possível 'dono' do certame. Sendo bem sincero, não acredito que esse seria o caso sob o comando de Mourinho e dentro de um time bem abaixo do seu atual, mas sabemos o potencial de Gareth na Premier League. A campanha de 12/13 ficou marcada pelo show particular de Robin van Persie e as aposentadorias de Sir Alex Ferguson e Paul Scholes, em nosso último título nacional. Em Londres, porém, o galês impressionava semanalmente pelo Tottenham.



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Bale praticamente carregava seus companheiros, atingindo um nível de imprevisibilidade/medo no adversário que poucos conseguem. Ele pegava na bola e qualquer um sentia que poderia acontecer algo importante e/ou diferente. Foi assim em vários confrontos que decidiu individualmente, seja com arrancadas como aquela em Old Trafford ou pancadas de fora da área contra o West Ham e o Sunderland. Terminou com 21 gols e quatro assistências, ficando em terceiro na artilharia e ganhando o prêmio de melhor jogador da competição.


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Em 12/13, ele foi votado como Player of the Year e Young Player of the Year da Premier League


Os comandados de Andre Villas-Boas acabaram na 5ª colocação, com vaga apenas para a Europa League, o que deixou o feito do jogador ainda mais significativo. E provou que seu patamar já era outro, culminando na ida à Madrid por £85 milhões. No Santiago Bernabéu, o retorno foi ótimo em termos de números e títulos. O Real ainda sonhava com La Décima quando abriu a carteira para comprá-lo e, cinco anos depois, já começou a preparação para a décima quarta na UCL.


O ponto de conexão entre o triunfo que abriu e o que fechou - por enquanto - essa fase vencedora? A contribuição decisiva de Gareth. Em 13/14, ele participou diretamente de 10 gols no torneio e tirou a igualdade do placar na prorrogação da final frente ao Atletico. No sábado, sabemos o que aconteceu. Entre esses eventos históricos em sua carreira, os únicos questionamentos surgiam quando ele não estava no gramado. Períodos de recuperação levantavam dúvidas sobre seu retorno em alto nível, o que sempre acontecia.


Foi ter um resultado distinto justamente em 17/18, levando em conta que desde janeiro/fevereiro - quando teve a última sequência como um ponta titular - foi um reserva. Muitas vezes até preterido por Asensio e Vázquez, categoricamente nos gigantes embates contra Paris Saint-Germain, Juventus e Bayern de Munique. Mas o que fica visível também é o fato do conjunto não render tão bem assim, sofrendo contra adversários de todas as 'prateleiras'.


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Gareth é constantemente preterido por Vazquez, o que naturalmente não deve deixá-lo feliz


O sofrimento - e sensação de não merecimento (de alguns) - para levantar a taça da Champions, além da ridícula quarta colocação em La Liga, prova isso. Ele foi deixado de lado, mas não significa que seu clube melhorou com isso. Não podemos esquecer que Zidane o escalou mais como centroavante (em 12 oportunidades) do que em sua função preferida de ponta direita (sete). Sua campanha de menor impacto teve, portanto, justificativas bem plaúsiveis. De qualquer forma, foram 21 gols e quatro assistências, marca batida somente por Lukaku em nosso plantel.


Completando 29 anos em julho, seria mais uma peça que logo estará no 'lado errado dos 30', assim como Sánchez. As lesões levantam um asterisco enorme e o fracasso de uma negociação tão grande pode ser forte, mas creio que vale a aposta. Como eu disse no texto sobre Alderweireld, a situação financeira do United faz com que flops não sejam exatamente flops. Isso nos permite uma postura mais 'solta' no mercado, o que traz vantagens e desvantagens do ponto de vista do planejamento esportivo.


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Assim como o clube, Bale está no portfólio da adidas e o fator do marketing certamente anima (quase) todas as partes envolvidas. Menos o Real Madrid, talvez. Me colocando no lugar deles, não vejo uma razão para a venda. Cristiano Ronaldo é um monstro, mas claramente vive em declínio de desempenho; Benzema é muito bom, mas marcou cinco (!) gols no Campeonato Espanhol; Asensio tem e terá seu valor, mas o PSG tem Neymar e Mbappé e o Barcelona contará com Messi, Griezmann, Dembelé, Suárez e Coutinho.


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Assim como foi com Pogba, o 'fator adidas' pode pesar em uma eventual negociação por Bale


Os concorrentes buscam peso para seus setores ofensivos e não faria sentido se livrar de um jogador desse quilate, mas tudo pode acontecer. Com uma lacuna enorme na posição favorita do craque, caso esteja disponível eu vejo vários pontos positivos na contratação. O que vocês acham?