Martial sairá do United pelo tratamento esquisito de Mourinho

O inevitável está próximo de acontecer. Depois de algum tempo de novela, sinais positivos e negativos indo e vindo, Martial decidiu deixar o United. A confirmação veio diretamente de seu agente, Philippe Lamboley, em uma declaração extensa para a RMC. O empresário foi além da pura informação, dando detalhes e contexto sobre toda a situação envolvendo seu cliente. Vamos tentar entender o que foi dito nessa quarta-feira.


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"Depois de pensar em todos os cenários e possibilidades, Anthony quer deixar o clube. Existem vários parâmetros, agora é prematuro discutir. Ele vai falar sobre isso depois. O United quer renovar e não quer que ele saia, mas não chegamos a um acordo por vários meses. Eu acho que quando o clube mais poderoso do mundo não chega a um acordo em oito meses de negociações, é porque eles realmente não querem fazê-lo um jogador importante."


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Martial chegou muito questionado no Deadline Day de 2015, mas imediatamente calou os críticos


"E é por isso que essa foi a decisão - bem considerada. Entretanto, é óbvio e importante lembrar que ele está sob contrato, o Manchester United terá a última palavra e vamos respeitar a decisão. Ele vai até o fim de seu compromisso. É importante lembrar que nessa temporada ele marcou 11 gols e deu 10 assistências em cinco meses. Foi eleito três vezes pelos torcedores como o Player of the Month. E aí chegou a janela de janeiro. Não vou comentar as consequências dessa janela."


"Todos tem uma opinião, acho que ele deve seguir em frente com sua carreira. A hora chegou. Anthony tem a escolha (sobre negociações com outras equipes), não posso dizer nada agora, mas a partir do momento em que um jogador como ele está no mercado, vários times se interessam. A única coisa que posso dizer é que vários treinadores apreciam seu perfil e diversos clubes querem mostrar seus projetos para Anthony."


Agentes costumam distorcer as coisas em prol do reconhecimento de seus clientes, mas a realidade é que as palavras de Lamboley fazem sentido. Não precisamos concordar com tudo, é claro - o francês poderia ter assinado um novo vínculo e se comprometido a brigar por sua vaga aqui, certamente. Só que é fácil analisar com essa visão quando estamos longe do ambiente em questão e não conhecemos totalmente a cabeça do indivíduo.


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O francês foi titular no último torneio pela Seleção - a Euro 2016 - e até pouco tempo atrás era certo na convocação, mas ficou de fora da Copa; os últimos meses pesaram


Martial é um ser humano e, mesmo sem ter o peso de craques mundiais, sempre esteve na mira dos holofotes desde sua chegada na Inglaterra. A capa do Mirror no dia seguinte ao da sua contratação já nos dá noção do julgamento feito com sua personalidade, não apenas o desempenho. O jornal o classificou como uma 'perda de dinheiro' antes mesmo de vê-lo atuando. A resposta em campo foi imediata. Na estreia, frente ao Liverpool em Old Trafford, marcou um golaço e selou o triunfo no clássico.


Em sua primeira temporada, ninguém fez mais pelo time do que o então camisa 9. Não era somente um número: Tony realmente era escalado como um centroavante, pegando várias defesas de surpresa ao unir mobilidade, habilidade e frieza nas finalizações. Conseguia dar dinâmica para um conjunto extremamente rígido e travado. Em dezembro, recebeu o prêmio de Golden Boy - o melhor jovem da Europa. Cinco meses depois, estava na disputa do Player of the Year do United, perdendo para o salvador da pátria De Gea.


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Na mesma campanha, foi decisivo na semifinal da FA Cup - que posteriormente conquistamos - ao dar o passe para Fellaini abrir o placar e anotar o gol da classificação nos acréscimos. Marcou 17 vezes, deu oito assistências, na intertemporada foi titular da seleção da França na Euro e dava a certeza de que estava consolidado na equipe. Mourinho chegou, porém, e o panorama mudou drasticamente. Não teve período encostado como Di Maria com Van Gaal ou Mkhitaryan com o próprio português, mas as chances inexplicavelmente caíram.


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Um momento que certamente vocês vão lembrar. Anthony foi o melhor em campo em Wembley e decidiu a partida aos 92 minutos


Martial começou os três primeiros jogos da Premier League e, por não entregar atuações tão inspiradas, foi para o banco e lá ficou. Da quarta até a décima oitava rodada, esteve em campo por 330 minutos dos 1.260 possíveis. Um dos maiores talentos do continente naquele momento havia perdido a esperança de dar sequência ao ritmo conquistado em 15/16. Por ter apresentado duas performances abaixo da média no início da vida com um novo treinador, sua metodologia de trabalho única e uma forma de man-management distinta.


Ainda assim finalizou a temporada com oito gols e oito assistências, número agradável para uma peça usada esporadicamente e que passava por problemas pessoais em seu relacionamento. Seu estado psicológico claramente foi afetado com tudo isso e aquele clima incontestável já não existia mais. Em fevereiro, quando esperávamos vê-lo voando, já se cogitou uma saída. Em 17/18, seus meses iniciais novamente foram decisivos - mas, dessa vez, dava para o mesmo perceber que merecia um valor maior.



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Com ou sem o rendimento de seus companheiros, o agora camisa 11 se mostrou um jogador muito ativo e, crucialmente, produtivo. Somando gols e assists (1.78 a cada 90 minutos), em novembro era o winger sub-23 que mais entregava no campeonato, superando inclusive as sensações Sané e Sterling. A média final foi de 113 minutos a cada gol/assist, melhor que Mané, Hazard e Alli. Até a virada do ano, ninguém questionava sua titularidade e as perspectivas eram animadoras.


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Até 20 de janeiro, em partida contra o Burnley, sua temporada era ótima. Dois dias depois, Sánchez foi anunciado e a situação mudou completamente


Mou viu a necessidade de trazer outro ponta esquerda, entretanto, e as coisas foram por água abaixo. Alexis Sánchez é qualificado e ainda pode corresponder às expectativas, mas isso não aconteceu até o momento e o impacto foi até negativo em alguns aspectos. Quando a vaga de um dos mais produtivos do plantel é tomada e a reposição não faz nem metade do que o antigo titular, fica clara a parcela de razão do atleta e seu empresário.


Anthony fez partidas fracas na reta final da temporada e algumas nem dependiam de contexto - suas ações eram erradas do início ao fim -, mas foram poucas em relação ao número de jogos que foi lançado para salvar a pele de um time terrível. Em todo esse tempo, o francês era alvo direto ou indireto do treinador, em declarações com um tom descabido. O agente ressaltou que o garoto de 22 anos só não saiu antes pela conexão com o torcedor e o escudo do clube.


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A saída não é certa, mas diria que as probabilidades de permanência beiram os 5%. O clima com Mourinho não deve ser dos melhores e, para o bem do próprio jogador, é melhor que esteja em um novo ambiente. Seus atributos são bem vistos por toda a Europa e interessados não vão faltar. Martial escreveu uma história curta e com altos e baixos por aqui, mas ganhou o apreço de inúmeros fãs e a torcida pelo seu sucesso. Não tenho dúvidas que vai acontecer, pena que estaremos acompanhando de longe.