Mourinho, Henry e a evolução de Romelu Lukaku

A Copa do Mundo continua dominando o cenário esportivo e poucos desdobramentos em relação ao mercado de transferências aconteceram. Enquanto isso, estamos tendo várias oportunidades para nos lembrarmos de como temos ótimos jogadores no elenco. Algumas contratações pontuais são necessárias - assim como a saída de peças supérfluas -, mas o United pode e deve atingir um desempenho de alto nível.


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A discussão que surgiu nos últimos dias é complexa e não será respondida em alguns textos, considerando a imprevisibilidade do futebol e os diversos fatores internos inacessíveis para quem vê de fora. De qualquer forma, ficou a questão: nossos atletas estão brilhando na Rússia por causa ou apesar de Mourinho? Cada caso é um caso, portanto devemos analisar com frieza e compreendendo cada particularidade. Hoje, vamos focar no principal e ampliar a visão, tirando de um ou outro personagem específico.



É consenso universal que, dos residentes de Manchester, Lukaku é o grande destaque do torneio. A evolução constante do belga foi comentada por todos aqui durante a temporada e os elogios do momento não nos surpreendem. O que mais chamava a atenção era a forma utilizada por ele para superar pontos negativos, os transformando positivamente em questão de poucas semanas. Em sua chegada, muitos apontavam defeitos no domínio, passe e jogo coletivo.


E acabamos por apreciar seu desenvolvimento justamente nesses quesitos, terminando a campanha como o Player of the Year entre os jogadores de linha (alguém discorda?). Em um conjunto que mudava de sistema, estratégia e escalação a cada rodada, Romelu se mostrou ativo de todas as formas possíveis. Oferecia ameaça direta às defesas adversárias e, quando acionado no tempo certo, ninguém segurava. Por outro lado, teve que reduzir razoavelmente esse tipo de movimentação para contribuir na conexão do ataque.



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Praticamente não tivemos um ponta direita e, na esquerda, a 'troca' de Martial por Sánchez se provou uma decadência. Algo até natural para muito atacante (Lacazette, Morata) seria passar por uma queda de rendimento considerável e esperar mudanças estruturais para se reerguer. O camisa 9 elevou sua responsabilidade e progrediu em aspectos cruciais. Seu início de trajetória em Old Trafford foi extremamente prolífico, mas as transições ofensivas decepcionavam um pouco - em técnica e tomada de decisões.



A partir do segundo turno, passamos a acompanhar uma versão bem mais completa do jogador. Fazia as escolhas corretas em lances rápidos e atuava com frieza diante de marcadores posicionados. Só jogou menos que De Gea e Matic, tendo a total confiança do treinador. Não tenho dúvidas do papel de Mourinho em sua temporada mais próspera da carreira. Precisamos lembrar de certas situações antigas em que a receita se repetia.


Como, por exemplo, o português contratando Drogba em 2004 e o moldando em um dos melhores do mundo na posição. Ibrahimovic sendo artilheiro isolado da Serie A na primeira campanha de Jose na Internazionale, em 2008/09. Higuaín (22 gols) e Benzema (21) em brilho duplo (triplo, se contarmos os 46 de Cristiano Ronaldo) em uma jornada histórica de La Liga em 2011/12. E Diego Costa carregando o Chelsea para o título inglês em 14/15, superando defesas de todas as maneiras imagináveis.


Ou seja: ao mesmo tempo em que Mou desapontou na construção da equipe, teve sua parcela de importância - direta e indireta - na evolução do seu centroavante. Outra figura super relevante dispensa apresentações, ainda mais para brasileiros. Em 2016, Thierry Henry chegou na Seleção da Bélgica como parte do staff de Roberto Martínez. Sua função não é específica para o ataque, mas ele naturalmente se volta ao setor que mais conhece.


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Companheiros de posição, de trabalho e amigos. O impacto dessa relação não pode ser subestimado


O francês é uma das mentes mais conscientes do meio e seu know-how é frequentemente aplicado com Lukaku. "Desde que nós trabalhamos juntos, penso que desenvolvi meu jogo duas vezes mais do que eu imaginava que poderia. E eu devo muito a ele nos últimos dois anos", disse o vice-artilheiro da Copa. A relação é tão próxima que o agora auxiliar técnico se encontra com o atacante depois de jogos da Premier League, munido com vídeos para análise da movimentação e postura na frente do gol.


"Thierry deve ser o único homem no mundo que assiste mais futebol do que eu. Nós debatemos tudo. As vezes estamos por aí tendo discussões sobre a segunda divisão da Alemanha". O pupilo realmente idolatra seu mentor e essa dobradinha, que poderia ser histórica nos gramados, vem se provando na conexão de fora para dentro das quatro linhas. Romelu participou de 20 gols nas últimas 13 partidas pelo seu país e esses números não contam jogadas como a movimentação e o corta-luz para Chadli no último minuto das oitavas de final.


Apesar de um trabalho sensacional de Miranda, ele não tomou conhecimento do Brasil e teve mais uma ótima exibição em um patamar gigantesco. Henry costuma traçar desafios para o belga cumprir em treinamentos e jogos e aqui entra o terceiro cérebro nessa equação: o do próprio profissional. Em importância é o primeiro, na verdade. Lukaku sempre demonstrou uma vida esportiva baseada em pilares bem solidificados: auto-conhecimento, confiança e liderança.


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Quando ele fala, todos escutam


Sobre o primeiro fator, é só ver a forma com que ele analisa o desempenho e coloca em prática as melhorias que julga como necessárias. É isso que o faz um diamante a ser lapidado diariamente, trazendo crescimento gradativo em atuações e números desde seu empréstimo do Chelsea para o West Bromwich em 2012. O segundo se reflete em como visualiza o sucesso e trabalha para alcançá-lo. E o terceiro está em entrevistas como essa ou nas reuniões com seus companheiros de time.


Consciência e força mental são elementos que nunca vão faltar para um ser humano com essa história de vida. Felizmente, seus atributos e o repertório com a bola nos pés estão crescendo no mesmo ritmo da sua reputação. O United tem uma peça especial nas mãos.