A temporada do United é uma incógnita. Precisam transformá-la em motivação

As novelas - que já estavam chatas e pouco empolgantes - acabaram. A janela de transferências para os clubes ingleses fechou na tarde desta quinta-feira (9) e agora podemos somente perder (ou nos livrar de) jogadores. Em maio a expectativa era boa em alguns aspectos, mas meses frustrantes sucederam e é seguro dizer que todos estão decepcionados. Vamos para uma nova temporada com velhos pontos fracos e outros rivais parecem mais preparados para a disputa do título.


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Por outro lado, temos certas peças de altíssimo nível e com perspectivas de crescimento, seja no âmbito individual ou coletivo. De Gea segue sendo o melhor goleiro do país e deve relembrar o mundo de sua qualidade após o fracasso na Copa. Pode se concentrar ainda com mais firmeza, inclusive, considerando a ida de Courtois para o Real Madrid. Era o único clube que poderia tirá-lo de Old Trafford e as chances disso acontecer diminuíram drasticamente. É o nosso world-class indiscutível.


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O Real Madrid foi atrás de outro e o melhor goleiro da última temporada europeia continuará conosco por muito tempo


A dupla de zaga, dentro de determinadas condições, pode se tornar uma referência de solidez. Para isso, Bailly precisa dar um jeito de estar disponível em pelo menos 80% das partidas e Lindelof necessita da confiança do treinador. Os dois só foram escalados como dupla em uma oportunidade: na semana passada, em amistoso diante do Bayern de Munique. Antes disso, apenas em um trio contra o CSKA, em setembro de 2017. São nossos zagueiros de maior qualidade e potencial e seria contraprodutivo perder a chance de formar essa parceria.


Sabemos da insistência nos trapalhões Smalling e Jones até aqui, mas as recentes declarações de Mourinho e a busca incessante por reforços no setor indicam que os dias dessa dobradinha assustadora estão contados. Mesmo assim, é inquestionável o valor que um nome como Alderweireld adicionaria ao time. A saída de bola é um dos nossos maiores problemas e o belga se especializa justamente nisso. Woodward não confia no julgamento de Jose, porém, e o negócio não foi para frente.


As laterais já fazem parte de um assunto antigo e que, depois de tanto tempo, deveria estar batido. Mas ainda são posições instáveis, que podem acabar se encaixando aos poucos ou limitando consideravelmente o potencial do time. Dalot chegou machucado e basicamente sem experiência profissional, mas talento não falta e é capaz da vaga se tornar sua durante a campanha. Valencia também se lesionou e parece cada vez mais próximo do declínio. E se aquilo pode ficar pior…


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A disputa para ver quem vai ser mais inútil no campo de ataque vai continuar?


Do mesmo modo que Young não inspira confiança, tem 33 anos, é um destro jogando na esquerda e mostra um estilo totalmente previsível. O fato de ter ido longe na Copa abriu espaço para Shaw, que na pre-season entregou atuações medíocres. O ex-Southampton deve começar jogando no campeonato e parece disposto a superar os questionamentos, mas com Mou no comando o desempenho tem que ser imediato (ao menos para ele, membro do grupo de atletas que o técnico costuma dar pouco suporte).


Darmian ainda não saiu e corre o risco de… entrar em campo. Deve ser titular na estreia, inclusive. O italiano consegue passar insegurança em tudo que faz e não descobrimos suas características principais depois de 37 meses. Nos resta torcer para que alguém ainda esteja disposto a contratá-lo. O meio finalmente tem tudo para encaixar e a responsabilidade está nas costas de Fred - já que dependendo de ajustes da comissão técnica não sairíamos do lugar. O brasileiro sabe marcar e articular e só deu sinais positivos na tour pelos Estados Unidos.



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Se ocorrer o que é plausível imaginar, com seu repertório sendo importante na transição da defesa pro ataque, Matic e Pogba terão carga reduzida e isso é uma ótima notícia. O sérvio pode aparentar um gigante no centro do gramado (e confirma isso em várias exibições), mas não aguenta cobrir faixas muito largas por 50 partidas. Precisa criar uma sintonia com o novo reforço e ser descansado esporadicamente, caso contrário o conjunto acaba sofrendo com a perda natural de gás conforme as coisas apertam.



Levando em conta que Herrera perdeu (quase) toda a qualidade ofensiva de sua época no Athletic Bilbao, ele deve ser o backup do meia defensivo. O que sobrou do seu outrora vasto perfil tem a ver com características de 'destruição': energia, marcação firme e concentração. Que seja utilizado dessa maneira burocrática, evitando dores de cabeça com decisões precipitadas na criação. Até porque outro brasileiro que sabe tratar a bola vai finalmente compor o plantel.


Andreas Pereira fez uma pré-temporada espetacular e tratei particularmente dele aqui. Resumindo, simplesmente por ser um jogador técnico e apto a progredir as jogadas de forma 'limpa' terá utilidade. O enxergo distante de um patamar fundamental, mas trás atributos necessários para um setor extremamente dependente de Pogba. Ainda tento entender a fixação de Mou com McTominay e nem preciso falar do quão inexplicável foi correr atrás da renovação de Fellaini, mas é a nossa realidade.



"A verdade é que Fred me impressionou bastante na sua estreia. É o que faltava para o time. Alguém que 'joga bonito', como dizem no Brasil. E o Andreas Pereira também. Eu acho que são dois jogadores com qualidade e que podem me ajudar bastante", disse Alexis Sánchez para a ESPN Brasil.



O ataque, por mais imperfeito que seja em termos de lógica e organização, conta com o talento necessário para registrar bons números. Sánchez pode ter sido frustrante de fevereiro a maio e creio que teríamos conquistado resultados melhores com o ponta esquerda titular até a chegada do chileno, mas aquilo passou. Sabemos que ele já se provou na Premier League e três motivos me fazem crer em um ótimo desempenho daqui para frente.



O descanso que ele teve nessa off-season era necessário. De 2010 até 2017, entre as campanhas domésticas o camisa 7 sempre teve compromissos com a Seleção - dividido entre Copa do Mundo (10, 14), Copa América (15, 16), Copa das Confederações (17), Eliminatórias (12, 13) e amistosos (11). Finalmente ficou livre dessa carga extra e ainda demonstrou estar sempre dedicado em sua preparação particular. Veio ao Rio de Janeiro nas férias e foi visto algumas vezes em corridas noturnas nas praias.


Além disso, dentro das quatro linhas a versão de Alexis que está fresca na memória é a de um ponta/atacante completo: diante de San Jose, Milan, Liverpool e Real Madrid, se destacou sempre que pegou na bola e agora sim está 'em alta'. Lukaku é um dos jogadores que mais evoluíram no cenário continental e não devemos nos preocupar por ali. Já a ponta direita segue indefinida, mesmo após muitos anos nesse cenário e diversos possíveis alvos se transferindo em nossa frente.


James Rodriguez, Bernardo Silva, Malcom, Mahrez, Dembele, Douglas Costa… todos esses tiveram transações recentes e em nenhuma delas o United se envolveu. Mata segue sob contrato e vive a situação de Darmian: corre o risco de ter que jogar. Tem uma qualidade ou outra, mas não produz com consistência desde 2012/13. Lingard deve ser o titular e, apesar de não ser o ideal para a posição, merece créditos e apoio. Está frequentemente se desenvolvendo e vem de campanhas positivas com clube e Seleção.


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Sánchez brilhou nos amistosos e precisa manter o ritmo durante a campanha


Não sabemos o que vai acontecer com Rashford e Martial. O inglês mais frustrou do que empolgou em 17/18, irritando com sua displicência e falta de consciência na tomada de decisão. Corresponde em partidas importantes, porém, e acaba de receber a camisa 10; achei exagerado e não reflete seu valor no momento, mas com um trabalho focado em desenvolver seus pontos fortes podemos ter um belo atacante. Será?


O francês foi titular da equipe enquanto ainda éramos levados a sério na temporada passada e no fim das contas teve 20 gols+assistências. Talento nunca faltou e apreço da maior parte da torcida também não. Mas as coisas ficam complicadas - praticamente insustentáveis - quando atleta e treinador estão em pé de guerra. Espero que jogue e silencie cada contestação (externa e interna) com seu futebol, mas a situação é difícil. Esperar para ver.



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Não por acaso termino o texto com parágrafos que misturam potencial, qualidade, decepção e pontos de interrogação. É a síntese perfeita desse United que busca o convencimento em 18/19. Lacunas continuam abertas e elenco, comissão técnica e direção ainda não falam a mesma língua. Mas o imponderável tem poder no futebol, um fenômeno capaz de transformar imperfeições em sucesso e preocupações em narrativas de superação.


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Poderia ser melhor, mas temos peças capazes de carregarem o time para a disputa da Premier League. A plataforma para eles só precisa ser mais organizada - e positiva


Chegou o momento de Mourinho erguer a cabeça, mas não para levantá-la completamente. Está muito baixa, basta equilibrá-la. O espírito de derrotismo só está atrapalhando e sem confiança não vamos a lugar algum. O panorama está longe da perfeição, mas temos ingredientes que fariam qualquer treinador de elite ao menos desenharem uma ameaça pelo título. Provavelmente não vai acontecer, mas o envolvimento emocional do torcedor com esses fatores internos tem que ir apenas até certo ponto. É hora de torcer.