United 0-3 Tottenham: Mourinho prova do próprio veneno e está na sombra dos prodígios

O United não perdia dois dos três primeiros jogos desde 1992, quando a Premier League foi criada. O torneio se provou revolucionário e marcante, assim como Mourinho quando desembarcou em Londres em junho de 2004. Era uma mente genial e, com 41 anos, havia conquistado dois campeonatos nacionais e uma Champions League com o underdog Porto. Fez história no Stamford Bridge, na Internazionale e - de certa forma - no Real Madrid, antes de retornar para o Chelsea em 2013 e mostrar em 14/15 que ainda entendia do negócio, conquistando o inglês.


ESPN.com.br | Lucas acaba com jogo, Tottenham atropela o Manchester United no Old Trafford e afunda Mourinho em crise


Na terceira temporada, porém, pintou um ambiente completamente tóxico nos bastidores e dentro das quatro linhas. Resultado? Setores do estádio se voltando contra ele e saída por 'consenso mútuo’ em dezembro. Agora, vários elementos dessa narrativa estão presentes no lado vermelho de Manchester e a conclusão pode ser semelhante. Mesmo se em Old Trafford o apoio ainda existe - seria uma despedida?


Enquanto isso, do outro lado, vemos um treinador que também chegou na Inglaterra com 41 e vai se provando a cada campanha. Esse sim é o prodígio que precisamos.


Getty Images
Getty Images

Jose já foi brilhante, mas hoje fica pra trás de uma geração que - assim como ele no início da carreira - se mostra avançada


O início foi positivo e nos convenceu a acreditar em um bom resultado. A formação base era algo próximo de um 3-5-2 com a bola e 5-3-2 sem ela, mas a movimentação dos jogadores foi bem mais agressiva que o normal. Herrera começou como zagueiro pela direita, possivelmente para contrapor a ameaça das infiltrações 'surpresa' que caracterizam Dele Alli. Inteligência não é o forte do espanhol e o elemento importante aqui se trata da combatividade pra não se omitir do duelo. O lance aos 41’ é prova disso.


Quando atacávamos, Ander tinha liberdade pra avançar (também como elemento surpresa) e chegava junto com Valencia no campo ofensivo. Smalling e Jones cobriam o espaço atrás e isso sinalizava uma tentativa arriscada, mas capaz de gerar frutos enormes do outro lado. Os visitantes abandonaram o back 5 dessa vez e vieram em um 4-3-1-2, criando possibilidades interessantes pra gente. Sabemos que os laterais dos Spurs costumam jogar praticamente como pontas e hoje eles foram confrontados com um dilema.



O United criou mais chances nos primeiros 35 minutos contra o Tottenham (6) do que em todo o jogo frente ao Brighton (4). O desempenho na etapa inicial foi ótima e os gols logo após o intervalo acabaram condicionando a história da partida. 



Nossos alas constantemente ocupavam zonas 'altas' do gramado e participavam ativamente dos ataques, visando as brechas nas costas de Rose e Trippier - que eram obrigados a escolher entre fazer o jogo habitual ou tomar decisões mais conservadoras. Quando iam na primeira opção, explorávamos com frequência, mas mostrando diferenças em cada lado. Na esquerda, Shaw não contava com uma opção clara de passes diretos e avançava sozinho, tabelando já próximo da área. Fez uma exibição espetacular.


Getty Images
Getty Images

Shaw foi o primeiro a ser cumprimentado pelo treinador após o apito final. Sua contribuição foi excelente


Valencia, na direita, claramente foi instruído a buscar a recepção de Lingard - principalmente - e Lukaku entre os meias e defensores do adversário, já preparando a jogada para a chegada de Pogba e Fred. O brasileiro mostrou um timing perfeito para se envolver nos momentos propícios e pisou bastante na área, oferecendo mais uma preocupação - talvez inesperada - para a defesa do Tottenham.


Tudo isso deu uma dose necessária de imprevisibilidade, fazendo com que os comandados de Pochettino estivessem sempre buscando soluções e sem condições para tomarem controle da partida. O time londrino não é amplamente dotado de qualidade individual e o ponto forte da articulação vem de trás, com defensores precisos com a posse e um sistema bem desenhado. Mourinho sabia disso e tentou cortar o perigo na raiz, com high pressing e ajustes no posicionamento dos atletas.



Curta o Old Trafford Brasil no Facebook



Mas futebol é futebol e as coisas podem mudar em questão de segundos. Nem o plano mais consciente possível está imune de lapsos que alteram a história. Lembram dos parágrafos sobre as nuances da batalha entre os laterais? Vinha tudo dando certo até o intervalo, quando certamente a comissão técnica deles tomou uma atitude. Trippier e Rose avançaram alguns metros de onde ficavam na etapa inicial e atraíram Valencia e Shaw.


Getty Images
Getty Images

Alderweireld fez uma ótima atuação e a decisão de não pagar o valor pedido por ele já se prova errada


Aí entrou em cena o papel fundamental de um dos jogadores mais inteligentes da Europa. Christian Eriksen identificou as brechas que começaram a aparecer nas costas dos alas e surgiu por ali nas jogadas que culminaram em gols relâmpago. Diferença de apenas 133 segundos entre as comemorações de Kane e Lucas Moura - importante também na movimentação que acabei de citar. Ao ter um segundo atacante na última linha, nossas peças de contenção tinham outra incógnita para se preocupar e isso dava um tempo precioso para o dinamarquês.


Para não passar batido, Smalling fez questão de perder um 1v1 crucial e um golaço do brasileiro fechou o caixão. É a primeira vez que o clube sofre 7 ou mais gols nas três rodadas iniciais em 49 anos; sabíamos que quando De Gea não operasse milagres, ficaria difícil classificar a defesa como intransponível, né? Aconteceu. A perspectiva é de uma temporada que vai se degradar aos poucos até o inevitável fim da 'era Mourinho'.


LEIA MAIS: Mourinho e o caos que vive o Manchester United


O português sempre quis o emprego ocupado por ele agora, mas está claro que esse casamento foi tardio.