Chelsea 2-2 United: Mourinho supera Sarri e Martial prova o seu valor

Tivemos na manhã deste sábado um novo capítulo da série mais envolvente do futebol, a Premier League. Figuras chave para a competição em confronto dentro e fora das quatro linhas, grandes clubes produzindo um jogo interessante com instantes de loucura e euforia. Mourinho saiu com mais méritos que Sarri e por pouco não engatou uma segunda e importante vitória, mas no fim das contas deixou o Stamford Bridge mantendo o tabu (quatro partidas, três derrotas e um empate) e protagonizando uma cena peculiar no estádio que um dia já o amou incondicionalmente. Hoje, assim como em Old Trafford, a unanimidade não existe mais.


ESPN.com.br | Chelsea empata com United com gol no último minuto e confusão com Mourinho


Recentemente nosso treinador adotou uma postura um pouco mais proativa em confrontos grandes, mas hoje voltou a optar por aquilo que corresponde com sua filosofia. Diante de uma equipe caracterizada pelo trabalho com a bola, entramos com a disposição em 'reduzir o campo', bloquear os espaços e rezar para algum contragolpe eficaz. Marcamos com certo nível de tranquilidade enquanto os anfitriões tocavam horizontalmente na intermediária, anulando com maestria o termômetro deles.


Getty Images
Getty Images

Em algum lugar por aí, Mourinho estava atrás do membro da comissão técnica do Chelsea que o provocou


Jorginho completou apenas 65 passes, número baixo para quem já chegou a 162 (!) contra o West Ham. O italiano é fundamental para o estilo de jogo proposto por seu comandante, que o trouxe do Napoli especialmente para acelerar e aliviar essa transição de estratégias após a saída de Antonio Conte. Na sombra do camisa 6, Juan Mata atuou como um terceiro homem de meio-campo e registrou 8 recuperações - silenciosamente sendo importante em todas as fases da partida.


Kovacic teve 72 passes, indicando uma direção proposital ao mesmo tempo que uma 'sobra' se considerarmos a contenção bem feita pelo United em outros setores. Já falei sobre como a construção de um plano tático parte da premissa de 'trocas' conscientes entre pontos reforçados e pontos enfraquecidos. Não existe sistema perfeito e buracos de certa maneira sempre existirão, como vimos hoje. Se trata de uma série de elementos que precisam ser bem executados e outros que a comissão técnica tem um controle irrisório, depositando a confiança e torcida em fatores aleatórios e na concentração dos jogadores.



Curta o Old Trafford Brasil no Facebook



Os problemas surgiam quando nossa compactação sem agressividade se transformava em uma guarda baixa propícia a sofrer infiltrações rápidas. David Luiz e Rudiger são mais do que capazes em dominar o primeiro estágio da articulação, então o cenário não trazia preocupações e gradativamente criava a base para os lances incisivos. Colocando o adversário em um modo passivo, os blues tinham controle da situação e bastava escolher quando colocar o pé no acelerador. Esses momentos aconteceram costumeiramente na esquerda, ativando as triangulações perigosas de Hazard, Kovacic e Alonso.


Getty Images
Getty Images

Ao reduzir a influência de Jorginho e Hazard, José conseguiu tirar o ritmo necessário para o Chelsea atacar


Tivemos sorte que o belga não foi tão direto em suas investidas pelos flancos, mas a instrução provavelmente foi de atrair os olhares e liberar o croata para atacar o espaço. Ou o contrário, nas trocas posicionais do meia com o ponta que viam o melhor jogador da temporada ameaçando a lacuna que consequentemente se abria entre Young e Smalling. Além de esse lado naturalmente ser o mais forte dos londrinos, os matchups eram apetitosos em relação à direita (onde também eram, mas em menor grau). Sarri tinha a superioridade posicional com o instinto predador do espanhol e qualitativa com Eden e Mateo.


Mesmo enfrentando um lateral que não é lateral e batendo de frente com um zagueiro inseguro, a influência desse trio foi diminuindo conforme o tempo passava e os azuis não conseguiam impor intensidade. No flanco oposto também tinha defensor inseguro (Lindelof), mas Shaw estava na posição dele e fez uma atuação extremamente sólida sem a bola. Falando sobre os pontas que se portavam mais como alas, na direita Rashford geralmente estava uns metros pra frente - já pensando em eventuais transições - e na esquerda Martial apoiava a marcação com um ímpeto que certamente agradou Mourinho.


ESPN.com.br | Confusão com Mourinho foi para vestiários após apito final, mas técnico colocou panos quentes


O Chelsea, portanto, tinha diversas razões para se concentrar naquelas zonas do gramado. Com a posse, demorou para darmos qualquer sinal de produzir alguma coisa. Sabemos que o elenco não vive uma fase empolgante, mas analisando as condições em que estão inseridos chega a dar dó dos atletas. Em 70% do tempo recebem a bola em posições nada promissoras, sem suporte dos companheiros e cercados por muitos oponentes. Novamente, é necessário frisar que só conseguimos demonstrar o mínimo da qualidade existente no plantel quando a postura foi mais agressiva.


Getty Images
Getty Images

Mata elevou seu jogo no segundo tempo e Martial, recebendo onde deveria, deu mais uma amostra de sua eficiência


No segundo tempo, não sabemos se por vontade dos jogadores ou tática do técnico, mais peças se dedicaram ao jogo ofensivo e o campo dos donos da casa finalmente foi povoado. Como consequência, todos se sentiram mais à vontade e o melhor ponta esquerda do time continuou mostrando que merece a titularidade. Sempre mereceu. É uma tecla batida semanalmente que Martial injustamente perdeu sua vaga em janeiro quando era um dos destaques da equipe, sendo obrigado a assistir um ex-rival chegar com um hype tão imenso quanto a decepção esportiva posterior.


O francês marcou dois bonitos gols em sequência, virou a partida e provavelmente cravou sua posição para os próximos compromissos. Minutos depois, porém, foi substituído por Alexis Sánchez (não diretamente, mas na formação) e, coincidência ou não, o conjunto parou de chegar e sofreu o empate no último minuto. Nada absurdo, mas pendo a dizer que foi 'injusto' levando em conta a negação aplicada frente ao então líder do campeonato e a postura firme no segundo tempo.


Getty Images
Getty Images

O gol derradeiro de Barkley tirou o ânimo do momento, mas o time volta pra Manchester mais confiante após essa performance


Em um panorama comparável com o triunfo sobre o Newcastle, podemos concluir que ficaram duas impressões. A inicial e mais consistente é de que precisamos ajustar alguns aspectos se quisermos brigar por títulos - ignorando toda a falta de planejamento, hoje eu daria o foco para a falta de intensidade em longos períodos. A final, acredito que ao menos na mente dos atletas, é sobre a capacidade presente ali, pronta para ser utilizada em melhores condições e com mais frequência. O resultado acabou sendo frustrante, mas a confiança do time certamente subiu.


*Por motivos de trabalho, não conseguirei postar o texto de United vs. Juventus (terça-feira, às 16h) imediatamente depois do jogo como costumo fazer, mas mais tarde estará no blog.