Bournemouth 1-2 United: uma mistura de sorte com eficiência

Há bastante tempo se comenta sobre a impressão de que o United não treina. Hoje, na primeira etapa, tivemos a exata representação do que eu tento dizer com isso. Na temporada da aposentadoria de Sir Alex Ferguson, o Bournemouth estava na terceira divisão. A diferença na receita anual dos clubes é de praticamente £500 milhões e, desde que Mourinho assumiu, gastamos £275 mi a mais do que os rivais de hoje. Enquanto Eddie Howe fez seu time se desenvolver e agradar o torcedor com gastos mínimos, nosso treinador acredita que não tem muito a fazer com esse elenco.


ESPN.com.br | Manchester United marca nos acréscimos e vence o Bournemouth de virada na Premier League


O prodígio técnico britânico trouxe à Premier League em 15/16 uma filosofia interessante de posse de bola, pressão alta e paciência para construir as jogadas. Já chamava a atenção no país, mas ainda precisaria 'se provar'. Nas duas campanhas posteriores confirmou a expectativa ao montar conjuntos flexíveis dentro de uma ideia padrão. A troca de posição e a preferência por passes pelo chão são aspectos inegociáveis, mas aparecem em contextos e maneiras diferentes. Já teve time de controle, verticalidade, contra-ataque... unindo beleza com eficiência.


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Howe está cada vez mais pronto para um próximo passo na carreira. Aceitaria uma troca de treinadores com o Bournemouth


Não à toa os cherries agora possuem uma equipe mais completa, capaz de jogar bem em várias formações (4-4-2, 4-3-3, 3-4-3) e sexta colocada no campeonato. Eles ainda ficam na nossa frente pelo saldo de gols e nesta manhã pudemos perceber o porquê. Os 30 minutos iniciais foram de total soberania, nos atacando onde sabiam que poderiam levar vantagem. Em um jogo de muita transição, as costas de Matic novamente foram bem exploradas. A movimentação inteligente de Wilson servia como base dos lances, chamava a atenção da zaga e pegava o sérvio desligado.


Seu ritmo mais uma vez foi frustrante nas fases ofensivas e defensivas. O poder de reação está menor a cada semana e sua vaga naturalmente deixará de ser absoluta, continuando assim. Os anfitriões também tiraram proveito da falta de solidez em nossa última linha, investindo com rapidez nas lacunas entre laterais e zagueiros. Ninguém sabia o que fazer diante do posicionamento coordenado e inteligente do adversário, cedendo vastas oportunidades e dependendo de De Gea. Smalling é Smalling e Lindelof não repetiu o nível de suas recentes performances.


Os sulistas marcaram apenas uma vez, porém, e sentiriam falta das chances mais tarde. Tivemos um experimento bacana lá na frente e podemos dizer que rendeu os frutos desejados. Sánchez iniciou como o centroavante, Martial na ponta esquerda e Mata no lado contrário. O chileno tinha liberdade para cair pela direita visto a tendência do espanhol em cortar para o meio, enquanto sem a bola o francês entrava na área. O empate saiu justamente nessa disposição, com Alexis servindo Anthony para seu 5º gol em 5 jogos. O camisa 11 foi eleito o jogador do mês no United e está concorrendo ao mesmo prêmio na Premier League.


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Martial segue sua fase espetacular e Sánchez pode ter novas oportunidades em outras posições


Quanto ao ex-Arsenal, fica a expectativa para mais oportunidades na referência ou na direita. Suas exibições vindo de trás pareciam forçadas e batiam de frente com o coração da equipe, Pogba, sem qualquer sinal de entrosamento. Uma dose de erro é natural para qualquer atleta que tenta bastante, mas nesse caso a proporção com os acertos não fazia jus à titularidade. Em um período de declínio não é tão surpreendente que alguns elementos se percam em seu repertório, enquanto seu concorrente está em plena evolução e repleto de armas nos pés.


Por outro lado, obrigando-o a avançar alguns metros e se aproximar do gol podemos ter perspectivas melhores. Ele na construção depende demais das circunstâncias e claramente não deu certo, então que tentem tirar o que ainda existe em seu perfil. É um atacante que consegue colocar medo nos defensores derradeiros de uma forma que não faz mais atrás. Se for pra testar alguém na posição do Lukaku, prefiro Sánchez a Rashford. O inglês pode ter virado a partida nos acréscimos, mas segue decepcionante no plano geral.



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Outro ponto válido de ressalva é a entrada convincente de Herrera, contribuindo para recuperar a posse e nos manter no campo oposto. O espanhol não deve jogar no lugar de Fred - o brasileiro foi bem hoje -, mas pode ser uma alternativa à fase terrível de Matic. Em condições ideais eu jamais estaria pensando nisso, mas enquanto a carruagem anda precisamos de ajustes. Pior que está não fica e Ander certamente chegaria com confiança - algo que atualmente não existe na cabeça de Nemanja.


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Herrera entrou muito bem e fez uma boa parceria com Pogba na reta final do jogo. O francês novamente foi fundamental


Fica a torcida pelo retorno de Andreas Pereira, no entanto, meu preferido para a posição na maioria das partidas. A última vez que o brasileiro jogou mais que 15 minutos foi em agosto. É a recompensa por ter sido destaque na pré-temporada e mostrar uma versatilidade que cairia bem agora. Se ele faz em poucos segundos o que o meia defensivo preferido de Mourinho fez em 961 minutos nessa temporada, já estaria encostado no sub-23. Enfrentaremos em sequência a Juventus e o Manchester City, ambos fora de casa, antes da Data FIFA. Difícil imaginá-lo em campo nestes confrontos pesados, portanto a situação certamente ficará decepcionante para ele.


Enfim, o primeiro tempo foi ruim e o segundo foi bom - pra variar. O que acharam?