Cardiff 1-5 United: Solskjaer representa uma transformação de espírito

Parece até que o plantel tem qualidade e não deveria sofrer contra equipes da parte de baixo da tabela. Não lembrávamos como era trocar passes, ditar o ritmo dos acontecimentos, jogar - e assistir - com um sorriso no rosto e atacar com a confiança da instituição mais vencedora do país. Se vínhamos de fases sombrias e cercadas por um negativismo até nas vitórias, podemos nos preparar para um espírito totalmente transformado e capaz de algo essencial: nos deixar ansiosos para a rodada seguinte. Ole Gunnar Solskjaer teve a estreia dos sonhos.


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Nosso novo treinador, que se tornou conhecido pelos gols decisivos em momentos derradeiros, contou com uma ajuda logo nos primeiros minutos de sua estadia por aqui. Rashford acertou uma falta à la Cristiano Ronaldo entre 2006-09 e tirou qualquer carga inicial que poderia existir, mas os sinais positivos já estavam aparecendo com a bola rolando. É cedo para tirar qualquer conclusão e necessário ter em mente que devemos ter outro nome no comando em 19/20, mas sem dúvidas o que for feito nos próximos meses trará um efeito.


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E, nesse momento, o jogo tinha acabado para o Cardiff. Foi uma partidaça do craque do time, que deve ser tratado como tal


E, caso o norueguês consiga implantar sua ideia de futebol e seja sucedido por alguém como Maurício Pochettino, ficarei extremamente animado. Ou faça algo extraordinário e suficiente para selar sua permanência, mas não vou pensar nisso após um triunfo sobre o Cardiff. Enfim, procurei entender como joga o Molde e os princípios de OGS, fã assumido de Pep Guardiola e completamente influenciado por Sir Alex Ferguson, seu mentor. Farei mais textos conforme o trabalho vai se desenvolvendo, mas hoje tentarei traçar um paralelo desse perfil com a performance no País de Gales.


A bola agora é tratada como amiga, não um peso que os atletas procuram se livrar a todo custo. A ênfase em construir lá de trás está voltando, mas qualquer um sabe que não temos os defensores mais preparados para isso, né? De Gea é incontestável no que faz, mas dos world-class na posição fica atrás no jogo com os pés. Sobre a zaga não é preciso falar muito, mas uma observação se faz importante: até Phil Jones estava conduzindo em direção ao campo ofensivo.



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Hoje deu certo, mas provavelmente não será algo sustentável em confrontos de nível superior. Lindelof, por sua vez, foi o representante perfeito dessa nova proatividade em todos os setores. Esteve ligado em qualquer possibilidade de investida dos anfitriões e, com a posse, chegou até a entrar na área após algumas tabelas sem sequência. E por detalhe não deu uma assistência depois de avançar 50 metros entre a estrutura rival. Teve a postura positiva que partiu da comissão técnica e claramente contagiou todo o grupo. A sensação foi de que não podia ser mesma equipe que nos deprimiu nos últimos meses.



Herrera e Matic também não são ideais para esse estilo e acredito que serão substituídos nas janelas que estão por vir. Hoje, porém, foram ótimos nas funções essenciais que ocuparam no sistema de Ole: os meias de suporte, responsáveis por chegadas pontuais (teve gol do espanhol) e imprescindíveis no counterpressing. Ambos foram agressivos quando perdíamos a bola e consequentemente a sobra sempre foi nossa. Isso gerou tranquilidade para as peças-chave do ataque, menos preocupadas com a correria pra trás que faziam a cada 2 minutos e mais concentradas nas ações incisivas.


Sem Lukaku, que em tese nos dá a profundidade, não tivemos apenas um jogador com tal papel. A infiltração mudava conforme o desenho do lance, mas a principal notícia nesse aspecto foi como funcionou a dobradinha Rashford e Martial. Ficou perceptível naquela sequência prolífica que o francês tinha desenvolvido seu jogo e tivemos um grande exemplo disso. Ele invertia com o inglês de modo fluido e capaz de desestabilizar todo o back four dos bluebirdz.



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De quebra, Lingard e Pogba faziam a festa entre as linhas. Com um apoio firme da dupla de 'volantes', os dois excêntricos amigos - treinados por Solskjaer nos reserves, em 2010 - tiveram liberdade para receber entre os oponentes, não diante dos mesmos como acontecia anteriormente. Soma-se isso ao vigor e à inteligência demonstrada por Shaw na lateral-esquerda e tivemos uma articulação bem mais balanceada. Luke também mostrou seu valor na pressão pós-perda, se posicionando com perspicácia e acertando praticamente tudo.



O triângulo que forma com os franceses é vital para o futuro do Manchester United como time e instituição. São três 'produtos' de valor e que em campo possuem qualidade de sobra. Cada um já passou por algum período conturbado com o antigo comandante e sem dúvida alguma vão começar a se sentir mais à vontade. É nosso ponto forte que deve ser trabalhado com carinho, independente de quem está com a prancheta nas mãos.


Carinho necessário também na forma de lidar com o elenco. Andreas Pereira, que vinha ficando de lado, teve seus minutos e participou da construção do quinto e último gol. Sim, você leu certo; quinto. Não alcançávamos essa marca na Premier League desde a despedida de Sir Alex, em maio de 2013. Aquele 5 a 5 com o West Bromwich fez uma síntese de tudo que o clube tinha vivido com o escocês e representava para o torcedor.


Acordávamos em dias de jogo com o ânimo lá no alto e a certeza de que, por 90 minutos - e o Fergie time -, teríamos entretenimento e a busca pela vitória. O pragmatismo já esteve presente em algumas épocas com SAF, mas em um cenário amplo a ideia era focar em nossas qualidades e ter total controle sobre o adversário. Solskjaer chegou falando exatamente disso e conseguiu corresponder às declarações. Os jogadores voltaram a ser as estrelas e estão sob uma gestão que apoia e instrui, não questiona e destrói.


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Uma comissão técnica que dá gosto de apoiar


Mike Phelan, membro do staff de 99 até 13, está de volta como assistente e carrega consigo memórias incríveis e um conhecimento inegável. Ele foi um dos responsáveis por manter a carruagem andando em meio à tanta pressão em um vestiário que se acostumou ao mais alto nível de competitividade e glórias. Ao lado de Michael Carrick e Kieran McKenna, que representam o famoso United Way, estamos em boas mãos. Não penso em top four ou título para essa temporada, mas após um longo tempo estou animado novamente.


E garanto que não sou só eu.


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Sorrimos, por um futuro melhor