United 2-2 Burnley: um deslize que faz o time evoluir

Há cerca de 60 anos, o United chorava as lágrimas de um dos acontecimentos mais tristes do esporte. Depois de derrotar o Estrela Vermelha nas quartas de final da European Cup, o avião que transportava o elenco não estava conseguindo decolar de Munique, onde haviam feito um pit-stop. Uma tempestade de neve praticamente impossibilitava a continuidade da viagem, mas o piloto James Thain resolveu arriscar no ato que culminou em 23 falecimentos.


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Entre eles, oito jogadores daquele time que já deixava sua marca no continente e era cotado para fazer história dentro de campo. Roger Byrne, Eddie Colman, Mark Jones, David Pegg, Tommy Taylor, Billy Whelan, George Bent e o icônico Duncan Edwards tiveram suas vidas interrompidas e o conjunto teria que ser reconstruído. Apenas "história de superação" não faz jus aos acontecimentos posteriores.


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We'll never die


Matt Busby, que estava no avião, teve no também sobrevivente Bobby Charlton um pilar para a versão 2.0 de sua fulminante equipe. Não à toa ambos hoje em dia são chamados de "Sir". Dez anos após aquele capítulo sombrio, os Busby Babes eram coroados com nada menos que a taça da atual Liga dos Campeões - . Nada pode brecar uma agremiação como a nossa, que veio a escrever sua história do presente com a mesma nobreza que trata seus ídolos do passado.

E nesse exato instante vivemos uma união entre eras vitoriosas e a vontade de entrar novamente em uma. Ole Gunnar Solskjaer, herói do segundo título da UCL (98/99), comanda nossa ascensão ao lado de Mike Phelan, membro do staff Sir Alex Ferguson na campanha do terceiro triunfo (07/08) no torneio europeu. É uma escadinha de diferentes personalidades e nacionalidades que se interligam - e conectam - por uma linha desenhada inicialmente por Busby.

As homenagens feitas aos seus pupilos nessa noite fria em Old Trafford esquentaram a expectativa de mais uma bela atuação (spoiler: não veio) de um time que, assim como o seu, teve que se reconstruir. "Whenever they're playing in your town, be sure to get to that football ground... take a lesson, come and see, football taught by Matt Busby" é um canto famoso da torcida que, em uma tradução direta, basicamente lhe diz: quando o United está jogando em sua cidade, vá ao estádio e veja o futebol ensinado por Matt Busby.



Por alguns anos, essas frases não fizeram tanto sentido e representavam nada além de uma nostalgia. Agora, se encaixam perfeitamente com o ânimo renovado nas arquibancadas ou nos sofás mundo à fora. Só que hoje, justamente hoje… tivemos uma recaída forte. As mudanças na escalação sem dúvidas tiveram grande influência em uma atuação fraca diante do Burnley. A notícia boa é que aos poucos OGS deve perceber algumas coisas relativamente visíveis.


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Não canso de dizer por aqui: Mata e Young/Valencia na direita geram um cenário completamente ineficaz. Hoje a dupla foi com o inglês e o resultado não diferiu do previsível. Enquanto o espanhol demorava meia hora para decidir o que fazer com a bola, seu companheiro só sabia fazer uma coisa, claro. Cruzar, cruzar e cruzar. E errar. O ex-winger ainda pode contribuir de vez em quando em confrontos que pedem disciplina defensiva, fora isso é inútil.

Aquele lado ficou incapaz de oferecer algum perigo e, para piorar, as triangulações na esquerda estavam defasadas. Martial teve uma pequena contusão no treino e nem relacionado foi, fazendo com que Rashford assumisse sua posição e Lukaku entrasse na referência. Marcus está vivendo a melhor fase da carreira, mas passou a se sentir confortável e confiante no comando do ataque. Tendo que participar da articulação e com menos oportunidades de sair nas costas da defesa, cai bastante.



Sem a famosa french connection para iniciar as jogadas e sem se entender com os movimentos lentos de Romelu, Pogba não conseguiu impor seu ritmo como vinha fazendo (quando Jesse entrou e Rashford voltou a ser o '9', se soltou). Ao seu lado não estava Herrera, dono de exibições impecáveis nas últimas semanas; enquanto Ander vê sua reputação crescer, Andreas vê a sua cair. O brasileiro foi titular na liga pela primeira vez desde o opening day, em 19 de agosto frente ao Leicester. E provavelmente volta pro final da fila por bastante tempo, se é que permanecerá nela.

Pereira não conseguiu entrar na partida, forçou lançamentos desnecessários, inexistiu na marcação e fechou com chave de ouro: um erro na saída de bola culminando em gol dos clarets. Foi substituído por Lingard que, por sua vez, não pode sair do XI inicial. É uma peça que eleva o nível das outras, se movimenta com sabedoria nas entrelinhas ao mesmo tempo em que mantém a ameaça da infiltração. Se encaixa em corpo, alma e mente nesse novo United. Que hoje não teve muito de novo. Sean Dyche merece créditos pela organização e dedicação de seus comandados, mas era uma rodada para continuarmos no caminho da vitória.



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Decisões erradas na escalação e durante os 90 minutos deram pausa em nossa sequência impressionante. A blitz final foi legal de acompanhar por toda a relação com o Fergie Time e termos mostrado poder de reação na primeira vez que foi necessário após a troca de técnico. Por detalhe não estamos falando de uma virada marcante. Acontece. Nenhum treinador conseguiu estrear com 8 triunfos consecutivos na Premier League e estranho seria se isso ocorresse. Não deu, que os deslizes sejam corrigidos enquanto há tempo e esse empate represente uma oportunidade de crescimento.


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Estamos em boas mãos, que garantiram o benefício da dúvida para deslizes como esse


E se Solskjaer passar a olhar para a base com ainda mais carinho quando precisar rodar o plantel? Chong não faria pior que Mata e Greenwood, mesmo longe da maturidade, é um talento absurdo que pode ser gradativamente introduzido ao first team. Enfim, seguimos de olho nesse trabalho que já teve a ressurreição de espírito, goleadas, os planos bem sucedidos em jogos grandes e recebeu um novo elemento: reanimar a equipe após um inesperado tropeço. Como citado nos primeiros parágrafos, nada pode parar um United disposto a ser soberano. Não vai ser um 2 a 2 contra o Burnley.