Jadon Sancho fará o United travar mais uma batalha com o PSG

Já sabemos como funciona a relação mercado do futebol – Manchester United. Antigamente, especular jogadores em alta em um clube de repercussão global servia para vender jornal. Hoje em dia, a mesma fórmula é potencializada por algoritmos que colocam as famosas matérias caça-clique em evidência. Quando o Mirror reportou que preparávamos uma proposta por Jadon Sancho, portanto, não dei tanta atenção.


ESPN.com.br | Na mira de PSG e United, Sancho pode quebrar marca de R$ 400 milhões e se tornar inglês mais caro da história


Até dei, mas esperando pelo momento em que os jornalistas e veículos mais 'sérios' entrassem na cena, caso isso realmente fizesse sentido. Na última segunda-feira (04), James Ducker, um dos mais confiáveis repórteres da Inglaterra, trouxe no Telegraph a informação que muitos esperavam com ansiedade: a estrela em construção do Borussia Dortmund se tornou o nosso principal alvo para a janela de inverno (junho-agosto). O mesmo vale para o Paris Saint-Germain, adversário nessa quarta pelas oitavas da Champions League.



O poder dos franceses deve ser considerado e Nasser Al-Khelaifi costuma ir até o fim atrás de seus desejos, mas não é difícil imaginar o camisa 7 desembarcando em Old Trafford. Suas raízes estão no City – de certa forma -, mas ele nunca demonstrou um afeto específico para com os azuis e já se provou determinado a levar sua carreira para a frente independente das circunstâncias.


Quando deixou nossos rivais para se aventurar na Bundesliga, em agosto de 2017, tomou uma decisão baseada na coragem. Ignorou a zona de conforto e a possibilidade de jogar sob o comando de Pep Guardiola (que lhe ofereceu £30 mil/semana de salário) para dar o start definitivo em sua história em um ambiente mais competitivo (não falo das ligas, claro, mas sim levando em conta que ele ainda não havia estreado como profissional). Formava com Phil Foden e Brahim Diaz o trio que seria integrado ao time principal, mas sabia que as oportunidades seriam reduzidas e confiava no seu potencial para fazer coisas maiores.


Cavou seu espaço na segunda metade de 17/18 e, logo no início de 18/19, deixou os concorrentes para trás e se firmou como titular absoluto. Se antes era apenas uma promessa que fazia bonito ao disputar com atletas consolidados, havia se transformado em um dos primeiros nomes da escalação assinada por Lucien Favre. Precisamos de ressalvas, porém. 



O campeonato alemão teve uma 'miniépoca' de muito respeito e, recentemente, caiu bastante. O nível das partidas já não é o mesmo e isso reflete na linhagem que sai de lá para os outros países. É habitual ver confrontos marcados por sistemas 'quebrados' ou sem muita conexão com seus respectivos elencos. Marcação alta sem compactação, peças disciplinadas e/ou qualificadas são alguns elementos presentes em massa por lá e que contribuem na composição de um cenário caótico.


Há exceções, obviamente. Em times, partidas ou jogadores – caso de Sancho. Assim como nos espantamos com o desempenho de Kylian Mbappé aos 20 anos de idade (desde os 17, no Mônaco), é bem acima da média o que faz o inglês em gramados germânicos. Em todos os aspectos. Importante, pois cansamos de ver jovens talentos dotados de muita habilidade, mas pouco retorno concreto. Se faz necessária uma filtragem rígida se quisermos saber com quem vale a pena se empolgar.



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Aplicação do repertório, consciência coletiva, produtividade, consistência, mentalidade, confiança, competição em que atua são fatores para levarmos em conta sempre que surgem as 'sensações’. Ninguém é o produto completo na juventude, então as coisas podem mudar completamente em questão de algumas temporadas, mas é bom que a maioria dos quesitos esteja presente. Com Jadon, tenho minhas restrições apenas com o supracitado contexto da Bundesliga.


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Sancho está a um passo de atingir o duplo dígito em gols e assistências na Bundesliga


Fora isso, me passa até certa tranquilidade de que será um dos melhores do mundo em um futuro não tão distante. Bastará mais uma campanha correspondente/superior à atual – em uma Premier League (e Champions), de preferência – para que seja considerado world-class ou próximo disso. São 8 gols e 12 assistências em 24 aparições neste campeonato alemão, alavancando o número para 9 e 14 se considerarmos UCL e DFB-Pokal. Isso se deve a alguns atributos que se complementam e compõem um arsenal versátil e perigoso.


O menino chama atenção por aquilo que faz com a bola, mas tem na movimentação sem ela um diferencial. Está constantemente buscando as costas da defesa e se especializa na infiltração entre lateral e zagueiro. Esse tipo de ação o eleva de 'ponta habilidoso' para 'atacante completo'. O que chamam lá fora de all-rounder. Pode atuar – com propriedade – como força criativa, ameaça de jogada individual no 1v1 ou com uma responsabilidade maior de agredir a área e marcar.



Louis Lancaster, que treinou Sancho no sub-15 do Watford, falou sobre isso: "Jogadores movem a bola, que é o que a maioria faz, ou movem o corpo. Com ele, era completamente inortodoxo. Você geralmente consegue ler os padrões do corpo quando alguém 'abaixa o ombro'. Com Jadson, é totalmente único. Seria a primeira vez que o marcador teria visto esse tipo de movimento. Ele levanta a perna de uma forma, move o quadril de outra, o ombro de outra."


Ele costumava deslocá-lo da ponta para o centro para desenvolver suas habilidades como um todo: "Se ele está no meio, está mais envolvido. Não apenas nos toques na bola, mas o seu cérebro. Mesmo quando não está com a posse, toma decisões: onde, quando e como se mover para os lugares, como fazer melhor em tal situação. Tem mais jogadores ao seu redor. Essa era a ideia, mantê-lo sobrecarregado com decisões."



Não tem na explosão um dos seus pontos destacáveis, mas dificilmente é desarmado. Tem um corpo bem balanceado, forte e sem desequilíbrios que possam prejudicar sua evolução. Tudo se resume ao baixo centro de gravidade, elemento que é difícil de sintetizar, mas dá pra entender se imaginarmos o modo que se locomovem , por exemplo, Messi, Hazard e Aguero (cada um para a sua respectiva finalidade).



É o que permite as mudanças de direção e velocidade repentinas e possibilita Sancho a passar pelos marcadores com facilidade. É cientificamente comprovado que esse estilo de dribles constantes causa mais fadiga do que o de correrias por largas distâncias, portanto a constituição física é crucial. Soma-se isso ao controle de bola de primeira categoria e temos um atleta extremamente capacitado para a tarefa que se propõe a fazer.


Durante 90 minutos em um sábado qualquer ou em uma carreira que promete mais de uma década em alto nível e está só no começo. A nova joia do English Team – a maior desde Rooney – tem argumentos de sobra para seguir essa trajetória que agora vai ter muito hype, mas existente só do lado de fora. É um indivíduo consciente que já teve algumas doses de experiência para quem ainda nem atingiu a maioridade no seu país.


Foi criado em Kennington, subúrbio do sul de Londres - que serviu de berço para uma geração de youth prospects (Reiss Nelson, Ryan Sessegnon, Joe Gomez, Aaron Wan-Bissaka, Callum Hudson-Odoi, etc.), mas também pessoas que elevam as taxas de criminalidade. "Nunca vou esquecer de onde eu vim, porque eu sei como é crescer naquela região - e não é legal. Especialmente quando você tem pessoas ao seu redor fazendo coisas erradas. Espero passar uma mensagem positiva para as crianças de lá."


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Por aqui, terá companhias e o ambiente acolhedor


"Não faça as coisas erradas. Vocês não precisam ser jogadores, podem focar na escola. Educação é a coisa mais importante e muitas crianças não focam nisso. Espero que essa mensagem reverbere. Estou tentando voltar para a minha escola primeiro e, caso as coisas progridam, ir para outras. Quero dar entrevistas onde posso ajudar crianças como eu". Essa sensibilidade só cresceu com as mudanças precoces e desafiadoras: de casa para as instalações do Watford, com 11; para o Manchester City, com 14; para Dortmund, com 17.


Vivência de um adulto, consciência de um veterano e a ousadia de um adolescente – o que ele é. Sancho tem tudo para atingir os níveis mais altos do futebol e o retorno para a Inglaterra, onde jogaria na melhor liga do planeta e se adaptaria com mais facilidade, faz bastante sentido. A parceria fora de campo com Rashford e Lingard pode pesar em uma eventual decisão. Dentro dele, com Marcus e Martial formaria um trio ofensivo capaz de alavancar bastante o time no campeonato. São £100 milhões? Quando o produto é diferenciado, é melhor pagar pra ver do que chorar pela oportunidade perdida. 


O United travou uma batalha com o Paris Saint-Germain pela vaga nas quartas de final da Uefa Champions League e avançou de forma heróica e inacreditável, mas o confronto não para por aí.