O impossível não existe para o Manchester United

Sinceramente, não parecia possível. Na história da Champions League, ninguém conseguiu reverter um revés de 2 a 0 dentro de casa no jogo de ida. Com a equipe completa já seria difícil, e se eu te falar que estávamos sem 11 jogadores – 5 deles fundamentais, o trio de meio-campo e os dois pontas? Diante de um adversário que nos deu uma aula de futebol em Old Trafford e contava com sua torcida para fazer o básico e passar sem dificuldade, em tese. Mas os feitos emblemáticos nunca 'parecem possíveis'.


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Torcendo para o Manchester United, temos uma pequena noção disso. E o que é a probabilidade para um indivíduo que nos deu um título continental no último instante em 99? E em seus 17 primeiros jogos no cargo tem 14 vitórias, 2 empates e 1 derrota? Tudo isso emendando 9 triunfos consecutivos longe dos nossos domínios, um recorde que já havia se concretizado com 8. Conquistando 7 pontos de 9 na semana em que meio time alugou o departamento médico.


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É real, aconteceu: essa escalação fez história


Diminuindo a distância do top four da Premier League de 11 pra 0, assumindo a quarta colocação e abrindo vantagem para quem vem atrás... Bom, eu poderia escrever parágrafos e parágrafos sobre as transformações e realizações de Solskjaer nesses últimos meses. Nada chega perto do tamanho da conquista desta quarta-feira.


No replay do chute do Dalot, alguns podem ter reparado no toque no braço, mas nos preparávamos para o tudo ou nada do escanteio. Quando o VAR foi acionado, um misto de ansiedade, angústia e euforia precoce. Com Damir Skomina apontando pra marca da cal, o raciocínio já havia ido embora. Do 'não parecia possível' para estarmos a um chute das oitavas. Quem bateria? Sem Pogba, a responsabilidade cairia nos pés de Lukaku, mas certo garoto resolveu cravar seu nome na história do clube que torce, sente e defende – desde os 7 anos.


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Rashford teve uma atuação errônea, falhando por falta de concentração; não era o dia dele até os 49 do segundo tempo, acreditem. Mas teve a coragem de pedir a bola, ignorar os 93 anteriores e fazer daquele minuto, 94’, o maior de sua carreira. Colocou naquela finalização o coração de milhões, suas raízes no sul de Manchester e a confiança de superar Gianluigi Buffon e nos dar a classificação. É por essa autoestima inabalável que Marcus alcançará o topo. Personalidade de sobra, como sempre deveria ser nessa instituição.


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Hoje não, Kylian


Às vezes, porém, de deslize em deslize a realidade vai se alterando e sem perceber estamos no fundo do poço. Não faz muito tempo que essa era a sensação no lado vermelho da metrópole. Os rivais estavam em alta e nós, outrora acostumados com a soberania, destinados ao fracasso de esporadicamente comemorar alguma coisa. Isso a gente aguentou fazer até certa época, porque depois de tanta mediocridade os pontos altos já não eram tão altos assim.


O ânimo tinha ficado bem pra trás, mas não é novidade que esse elemento voltou para as nossas rotinas com a troca no comando em dezembro. Com respeito por seus antecessores, OGS fez em 2 meses e meio mais do que todos juntos – desde Sir Alex, claro. Que viajou com a delegação para Paris, visitou o vestiário na festa pós-jogo e simboliza nosso retorno às glórias (de certa forma. O caminho não é curto, mas sem dúvidas estamos nele).


Ferguson nos tornou gigantes; alguns fatores nos tornaram temporariamente pequenos; Ole resgatou nosso gigantismo. Com ele cada funcionário ganhou doses e doses de alegria e confiança. De Kath Phillips - recepcionista desde 1968 que foi agraciada com um chocolate norueguês na chegada do técnico - até Romelu Lukaku, que ontem lançou a questão: "O que mais ele precisa fazer pra ganhar o cargo?"


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A temporada é frustrante, mas Lukaku voltou a brilhar justamente quando mais necessitamos


O coro interno que se formou para apoiar a efetivação é, na minha memória, sem precedentes. O plantel que canta o nome do seu treinador enquanto celebra as conquistas lideradas pelo mesmo diz tudo sobre o momento que estamos vivendo. Tem a gestão, o espírito, experiência, inteligência tática, recuperação de casos perdidos, potencialização de craques até então restringidos...


E uma nova data marcada na história do clube. Existe apenas uma possibilidade na mesa de Ed Woodward e na mente dos Glazers: oficializar o óbvio e garantir que essa 'fase' não seja só uma fase. Estamos no alto desde a semana do Natal, mas teremos os baixos também. Precisamos de um diretor de futebol que ajude a traçar um futuro planejado e menos dependente do aleatório. E reforços.



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De qualquer forma, temos o homem certo no comando. E alguns 'homens certos' executando os planos na hora H. Performances fantásticas em partidas importantes já viraram rotina pra Luke Shaw. Lindelof se consolidou como o cara da defesa e Smalling, quem diria, vem tão bem que colocou ninguém menos que Mbappé no seu bolso. O inglês merece todos os elogios possíveis ultimamente.


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Os garotos da base que mantém mais uma tradição (bem) em dia


Lukaku estava convicto e fez 2 gols em três partidas seguidas, quando precisamos da contribuição de peças que eram menos utilizadas. Fred fez sua melhor exibição por aqui em um momento minimamente oportuno. McTominay, que veste essa camisa desde os 5 anos, foi crucial com disciplina na marcação e entendimento da batalha. Andreas parecia que estava dopado pelo tanto que fez. Mais uma vez, a entrada de Dalot mudou os rumos de um confronto perigoso.


Pogba marcou presença no Parc de Princes, desempenhou seu conhecido papel de líder e comemorou sem restrições nas tribunas, ao lado de Evra. Bonito também foi ver os vídeos eufóricos dos lesionados, em sintonia total com os ocorridos no campo. É notável que terminamos o jogo com uma média de idade de 23 anos, com Chong (19) e Greenwood (17) vivenciando do gramado um acontecimento histórico e que já os dará confiança para toda a carreira.


Se isso foi possível, o que não seria?


Essa é a moral da história com Ole Gunnar Solskjaer e seu staff, que não pode ser ignorado. Mike Phelan, Michal Carrick, Kieran McKenna e Emiliio Alvarez, cada um de uma maneira, estão alinhados por um propósito de reestruturação e, no caso dos dois primeiros, transmitem para todos o espírito vencedor que tiram de letra e nos contagia.


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O responsável por uma das temporadas mais marcantes de nossa história. Ole’s at the wheel!


Nos sentimos novamente parte de um todo. Um todo que matou no peito a responsabilidade de recuperar o Manchester United. E fizeram do dia 6 de março de 2019 uma data que jamais será esquecida.