United 0-1 Barcelona: sobrou estratégia e aplicação, mas faltou qualidade

É muito difícil prever as partidas do United. Solskjaer costuma alterar estratégia e esquema conforme o adversário e a situação física do elenco faz com que não tenhamos mais a certeza - ou algo próximo disso - da escalação e postura em campo. Mas sabíamos que, assim como contra o PSG, éramos azarões em busca de criar condições que dessem alguma possibilidade de surpreender. E, a grosso modo, deu certo. O problema é que falta qualidade e o simples ato de finalizar ao gol, então pouco adianta a 'preparação'.


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Contra o Barcelona, tivemos essa preparação - encaixar o sistema, gerar entrosamento em pelo menos alguns setores do gramado, negar tempo e espaço para peças-chave do adversário e ter certo volume de jogo. Símbolo disso é o mapa de passes recebidos de Messi, que poderia fazer a diferença a qualquer momento. Pegar na bola 13 vezes no campo ofensivo é coisa que geralmente acontecia com os nossos inconstantes atacantes, não com um dos melhores jogadores da história.


Reprodução/Twitter
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Messi foi bloqueado pela marcação e agiu poucas vezes no campo de ataque


Suas conexões preferidas foram devidamente fechadas. Alba, costumeiramente uma máquina pelo lado esquerdo, chegou com (bem) relativo perigo em apenas uma oportunidade. E tanto o miolo da área como a meia-lua estavam povoados por homens de vermelho, conscientes dos famosos 'cutbacks' (os cruzamentos para trás) nesse tipo de jogada. Os contragolpes que cedemos caiam nos pés de Suárez, uma referência não tão ameaçadora assim hoje em dia. Dembélé ou Malcom poderiam ter causado maiores preocupações, mas por sorte não saíram do banco.


Busquets, cérebro do Barça há uma década, é crucial para a fluidez das construções. Em Old Trafford, foi forçado a erros bobos e não conseguiu exercer sua influência. Soma-se isso à atuações pouco inspiradas de Arthur e Rakitic, Lionel teve que recuar e o esquema deles ficou 'quebrado' - como era o nosso no começo da temporada, lembram? Ter Stegen teve que redobrar sua função de goleiro líbero e deu lançamentos precisos; até tinham o destino certo, mas a cobertura dos meias da casa foi excelente.


Fred e McTominay merecem um capítulo à parte. O brasileiro ainda não se adaptou totalmente e por isso é menos utilizado do que se espera de uma contratação valiosa, mas cresceu em grandes ocasiões. Já tinha impressionado no Parc de Princes e agora foi essencial para quebrar o ritmo dos visitantes, recuperando 15 bolas - um recorde no mata-mata da Champions em 18/19. Soube o que fazer em várias fases do jogo e merece elogios.


Getty Images
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Não imaginávamos que seria assim, mas Arthur assistiu Fred jogar


Mas quem roubou a cena - e a articulação dos catalães - foi Scott, um menino lançado insistentemente por Mourinho e alvo de críticas - umas justas, outras nem tanto - desde o início. Teve timing nos duelos individuais, guardou posição enquanto seus companheiros avançaram (algo crucial na competição) e parecia um volante experiente saindo da pressão. Demonstrou um repertório que não conhecíamos ainda e acabou dominando o centro diante de Busquets-Arthur-Rakitic e, de vez em quando, Messi. Indiscutivelmente o nosso Man of the Match.


Gostei também da participação de Pogba e considerei sua disciplina - elemento que gera reclamações em seu jogo - parte importante do funcionamento coletivo. Uma pena que seus parceiros na criação e conclusão no ataque foram quase nulos. Rashford não fez nada de interessante e deveria ter sido substituído. Lukaku, por sua vez, pelo menos segurava a posse e limitava as chances do Barcelona se 'assentar' no confronto. E isso nos leva para um dos pontos negativos: as mexidas de Solskjaer.


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Desempenho impecável do garoto. Cravou sua presença no elenco em 19/20


Se o plano de jogo foi inteligente e executado com eficiência em vários aspectos (menos no mais importante, mas…), suas alterações não surtiram efeitos positivos. Só negativos, como a ausência de Romelu gerando dificuldades para ficarmos com a posse e entregando o controle nas mãos dos comandados de Ernesto Valverde. Digamos que: foi bom, mas foi ruim. É um know-how que ele provavelmente vai absorver - e aplicar - conforme sua carreira se desenvolve.


Ao contrário de Ashley Young. Sério, esse é o capitão do Manchester United. É ele que foi trocar as flâmulas com Messi, nos representando. Se a mediocridade nos marcou desde a aposentadoria de Sir Alex Ferguson, atletas como esse são os símbolos. A bola sobrou - ou chegou - com frequência em posições favoráveis, mas os pés do inglês pareciam programados para forçar cruzamentos errados (11 tentados, 0% de aproveitamento) ou falhar em passes curtos. Perdeu a bola 32 (trinta e duas!) vezes.



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Um pesadelo para uma equipe que precisava aproveitar as 'chances de criar chances'. Estava claramente sendo prejudicial e, por incrível que pareça (ou não), durou os 90 minutos. Que infelizmente devem se transformar em 180, considerando a suspensão de Luke Shaw - pode até sair de seu lugar, mas vai ganhar o de outro. Até como zagueiro conseguem inventar às vezes. Foi uma das piores performances individuais que tive o desprazer de assistir desde que sou torcedor.



Os problemas coletivos vieram nos 20 minutos iniciais, efeito de um conjunto aparentemente com medo e nervoso. O oponente aproveitou quando teve a chance, algo que não conseguimos fazer. Agora a tarefa ficou difícil e é importante notar que o Barça atua em outra sintonia quando mandante. E estarão confortáveis. Mas não podemos ser descartados. Que saibamos usar essa segunda parte para repetir a aplicação e tentar surpreender no Camp Nou. Solskjaer já operou milagre por lá em 1999 e podemos pegar inspiração. Que Barcelona seja como Paris.