Sergio Ramos e Schweinsteiger: dois pesos, duas medidas

Sergio Ramos e Bastian Schweinsteiger são alvos de duas especulações com um grande fundo de verdade, provavelmente. Como o sempre confiável Sid Lowe, do Guardian, nos informa, o espanhol recentemente esteve envolvido em uma guerra de pensamentos que não é tão surpreendente no Real Madrid de Florentino Pérez. Enquanto o jogador sente que é pouco valorizado e recebe menos do que deveria em um clube que marcou história (Bale, Casillas, Benzema e Ronaldo são os que ocupam maior espaço na folha salarial), o mandatário o vê apenas como mais uma peça que quer acumular poder para si e estaria disposto a vendê-lo enquanto existe o interesse e o valor de mercado ainda é alto.


Aqui, De Gea entra na história. Representantes dos merengues anteciparam uma reunião que pensavam ser apenas uma formalidade para selar a transferência do arqueiro e se depararam com um plot twist: Ed Woodward (diretor-executivo do United) não quer jogo fácil e apresentou uma contra-proposta no mínimo ousada, exigindo o responsável pelo gol que levou La Décima à sala de troféus do Santiago Bernabéu em troca.


Se o negócio se concretizar, podemos resumir assim: teremos um dos melhores defensores do mundo em seu auge e faminto para mostrar que não é só em Madri que seu futebol é - ou foi - admirado. Ramos se encaixa na conhecida filosofia do nosso treinador holandês e sua comissão técnica como poucos na atualidade. Versatilidade? Suas atuações como lateral direito e até mesmo algumas (poucas) performances como volante atestam isso. Com a polivalência para atuar em duas/três posições, é claro que a noção posicional e inteligência espacial - o chamado QI futebolístico - são aspectos que se destacam entre as características do jogador.


Com a bola nos pés, sua técnica e habilidade são melhores do que de muitos meias por aí; também sendo um aspecto consequente dos outros (saber tratar o esférico com eficiência é pré-requisito para qualquer lateral), Sergio tem a excentricidade e a qualidade suficiente para iniciar jogadas desde a linha de defesa, agredir a marcação adversária para abrir espaços e também é dotado de um lado artilheiro. Acima de tudo isso, porém, está outra coisa: a liderança e o excesso da mesma, em algumas oportunidades. É inagável que o atleta é uma referência dentro de campo e a partida pode ser diante do lanterna da competição que sua disposição será a mesma e com ele não tem viagem perdida. Por outro lado, sua gana pode passar dos limites e a supracitada vontade acaba se tornando prejudicial à equipe. O fato é que, colocando tudo isso na balança, o que são uns cartões vermelhos diante de o comando e a experiência que nosso time tanto precisa desde a saída de Nemanja Vidic e Rio Ferdinand (podemos adicionar Patrice Evra na equação, se desejar)?


Considerando que o Valencia quer cerca de 35 milhões de libras por Nicolas Otamendi (nosso principal alvo para a posição) e o tempo curto de contrato de De Gea - o vínculo expira em junho de 2016 - garante que o camisa 1 deve ser negociado por menos que isso, seria um bom negócio. Não gastaríamos mais dinheiro e ainda assim contaríamos com um zagueiro world-class no elenco.


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Um dos melhores goleiros por um dos melhores zagueiros do mundo: você aceitaria?


Schweinsteiger é um caso diferente, com maior probabilidade mas "tempo de serviço" restante menor ainda. Com 30 anos (terá 31 no início da temporada), sua participação e até mesmo importância no Bayern de Munique já não é mais a mesma de outrora, as lesões são mais frequentes do que em qualquer outro ponto de sua carreira e ele não é, especificamente, o tipo de peça que falta em nosso quebra-cabeça; seria figurinha repetida. Guardiola estaria mais do que contente em ceder o jogador em troca de 10 milhões de libras, como reporta Jason Burt, do Telegraph. Obviamente, tal valor por alguém da qualidade e da experiência de Basti é praticamente irrisório para um clube com o suporte financeiro do Manchester United. O problema é se o tratarem como prioridade, deixando de lado lacunas bem mais importantes a serem preenchidas.


No setor em que o alemão atua, precisamos, sobretudo, de um substituito para Michael Carrick: alguém com mais capacidades defensivas do que ofensivas e, fundamentalmente, potencial de evolução. Morgan Schneiderlin, como comentei aqui, tem apenas 25 anos e resolveria muito dos problemas que passamos quando o inglês não esteve em campo. Por que reforçar uma área que foi sinônimo de desenvolvimento na última temporada em comparação com as outras? Ander Herrera não pode sair do time titular de jeito nenhum, Di Maria teve suas melhores performances quando jogou centralizado e até mesmo Marouane Fellaini ressuscitou em 2014/15.


Bruno Secco, do Bayern a Secco, analisou a situação de Schweinsteiger na Allianz Arena e o post não poderia ser mais recomendado. 


Enquanto ambos são donos de conquistas, bagagem e qualidade que dão inveja em qualquer um, ressalvas precisam ser feitas. A idade é um ponto importante: os 29 anos do zagueiro e os 30 do meio-campista indicam que em breve seus atributos técnicos e - principalmente - físicos devem entrar em declínio e a longo-prazo não consistem em bons investimentos. Se o retorno vier enquanto os dois ainda contam com lenha para queimar, no entanto, Van Gaal pode ter garantido duas barganhas nessa offseason.


Em suma, é a síntese de toda transfer saga: análises e previsões são feitas em doses inimagináveis e textos que viram verdadeiros relatórios de scouting nos apontam o que pode levar ao sucesso e/ou ao fracasso de certo jogador em determinada equipe. Por fim, só o tempo nos mostrará os reais resultados.


E ambos podem estar usando o United para conseguir contratos melhores em seus próprios clubes.


Que venham os próximos capítulos.