Rafael se despede do United pela porta da frente

Duas saídas estavam prestes a ser confirmadas pelo Manchester United nesta semana: a de Rafael, tendo o Lyon como destino, e o fim da caça do PSG por Angel Di Maria. Bom, entre os dois, vamos falar de quem deu mais alegrias e marcou a memória do torcedor de forma bem mais convincente: o brasileiro. O fim de sua trajetória pelo Manchester United deixa dois lados da moeda abertos, um fazendo crer que algo (a situação física, principalmente) não deu muito certo nesses últimos 7 anos e outro levando à talvez falsa - mas existente - esperança de que o lateral-direito tinha a capacidade para fazer muito mais por aqui.


Vamos recapitular.


Fruto da qualificada base do Fluminense, o camisa 2 jogava a Nike Premier Cup de 2005, em Hong Kong, pelo time das laranjeiras. Aí entrou a figura de Les Kershaw, antigo olheiro do United que imediatamente ligou para Sir Alex Ferguson recomendando a contratação de dois garotos que poderiam adicionar um toque do brilho canarinho à defesa dos red devils: Fabio e Rafael da Silva. O primeiro mais acuado pela esquerda e o segundo, tema desta coluna, deixando sua marca no flanco direito do campo.


Fergie conseguiu a permissão dos cariocas e convidou as promessas para alguns dias de treino em Carrington. Ambas as partes estavam empolgadadas com uma potencial transferência, mas a família dos atletas resolveu adiar a ida de ambos até 2008 por respeito e amor ao time do Rio, que os abrigava na época. Rafael teve que esperar até a temporada de 08/09, quando completou 18 anos, para estrear, mas valeu a demora. Seu primeiro gol saiu diante do Arsenal, no Emirates, em uma derrota por 2 a 1. Mais do que um número, o momento foi uma amostra do que estava por vir: coragem, concentração e peito para enfrentar todos os nomes de peso da Inglaterra. O Liverpool que o diga.


Jogando sem receio ou hesitação, Rafa imediatamente se tornou uma das peças favoritas do torcedor. Sua vontade dentro das quatro linhas era tanta que muitas vezes nos esquecíamos de que o jogador nasceu em um continente bem longe de Manchester e a princípio não tinha nenhum vínculo com a cidade. Isto, porém, se desenvolveu com o tempo. O lateral era digno de vestir a camisa sob qualquer circunstância, em qualquer posição e função que lhe era solicitado e nunca deixou o conjunto na mão - analisando desta perspectiva.


Entretanto, nem tudo são flores. É bem verdade que Rafael tinha o ímpeto ofensivo e a ousadia que é marca registrada no United, mas a tarefa de substituir um ícone como Gary Neville foi dura demais para com ele. Não faltou fome de bola e dedicação, mas algumas áreas de seu jogo começaram a necessitar de um upgrade conforme o tempo passou e isso simplesmente não aconteceu como esperado. Façamos justiça: a questão física foi, em grande parte, o motivo para tal estagnação.


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O Liverpool e o Anfield passavam longe de assustar Rafael, que crescia em jogos grandes


Nas últimas três temporadas, foram quinze (15!) lesões e em 2014/15 mais aparições pelo time sub-21 do que entre os principais. Totalizando e contextualizando, 7 anos e apenas 178 jogos. Infelizmente, não são números capazes de mantê-lo em um contender da liga mais exigente e disputada do planeta. São estatísticas comparáveis com famosos injury-prones como Jack Wilshere e Abou Diaby - e o brasileiro não tem a qualidade do primeiro e o segundo, bem, são tantos meses no DM que nem tem o que falar sobre o mesmo.


Nada surpreendente, a melhor campanha do jogador foi justamente a que permaneceu menos tempo no departamento médico e teve uma maior sequência entre os titulares: 2012/13, nos 10 meses do histórico e contundente vigésimo título nacional conquistado pelo United. Indo mais além, o gêmeo era cotado para assumir uma vaga no Team of the Year, mas a consistência de Zabaleta, do City, falou mais alto. Eram tempos áureos tanto para a agremiação quanto para o atleta. Seu entrosamento com Antonio Valencia crescia de forma impressionante e a promessa dava sinais de que se tornaria em realidade.


SAF se aposentou, porém, e tudo mudou imediatamente - com efeitos colaterais sentidos até os dias de hoje. O elenco estava contente pelo caneco mas, ao mesmo tempo, abatido pela saída repentina e praticamente sem aviso prévio do escocês. O camisa 2, ainda imaturo - sobretudo em aspectos emocionais e psicológicos - sofreu, assim como peças experientes e vitoriosas como Robin van Persie e Rio Ferdinand. Algo natural, mas duro para Rafael.


Sob a batuta de David Moyes, querendo ou não a maior parte do plantel acabou regredindo - com a exceção de De Gea e Adnan Januzaj, provavelmente. O espírito em Old Trafford já não era mais o mesmo e os resultados no campo mostravam que novas alternativas eram necessárias, assim como rumos diferentes - mesmo que drásticos - precisavam ser percorridos. Louis van Gaal chegou e demonstrou uma maneira de trabalhar completamente oposta de seu predecessor.


Com o holandês, fica quem tem qualidade e se encaixa em sua filosofia. Maneira pesada, mas necessária para lidar com um elenco que se mostrava ultrapassado e cheio de lacunas a serem preenchidas de forma mais convincente - como expliquei aqui. É uma pena que Rafael seja mais um a fazer suas malas e deixar o lado vermelho de Manchester. As lembranças, por outro lado, são ótimas: as inúmeras atuações empolgantes em Anfield (e um golaço no mesmo estádio), a peitada em Carlitos Tevez no derby e a pintura contra o QPR são traços que, independente de qualquer circunstância, já estão marcados na memória do torcedor.


Sua paixão pela camisa e o entusiasmo dentro de campo certamente serão pontos que farão falta. O futebol, porém, é mais do que isso: é desempenho. Neste lado, o principal tanto para este que vos escreve quanto para o atual comandante do United, o brasileiro não deixará tanta saudade assim. Tendo em Matteo Darmian um nome de maior qualidade e sendo o Lyon uma equipe prometendo voltar a voar alto, clube e jogador seguirão em frente com tranquilidade. 


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O temperamento forte é uma das características do brasileiro; Tevez não teve sossego em seu retorno ao Old Trafford