De Gea, Martial e o Deadline Day do Manchester United

Foi longa, angustiante e até mesmo chata em alguns momentos, mas finalmente a novela da janela de transferências se encerrou. Infelizmente, hoje em dia tudo é produto e qualquer um envolvido com o esporte de maior alcance mundial - seja emissora de televisão, clube, empresário ou até mesmo atletas com seus profissionais de relações públicas - tenta tirar proveito da ascendente gana do torcedor para com um drama que ocorre fora das quatro linhas e é embalada de diversas maneiras antes de virar headline em portais noticiosos.


A atitude de determinada agremiação em uma tranfer window atualmente pode ser comparada com o rendimento do mesmo dentro de campo. Um negócio fechado com antecedência e sem dar corda para o azar é tratado como 'acordo seguro, tacada de mestre' e comemorado como um gol no primeiro minuto - aquele que nos faz crer que a goleada está a caminho mas na realidade foi um sinal falso, sabe?; o jogador que chega como uma 'marquee signing' (vide Di Maria, 2014) é tido pela maioria como uma 'sentença de ambição', algo que mostra para o mundo que tal clube não está para brincadeira e é semelhante àquele tento marcado no início da etapa final quando seu time perdia por 2 a 0 (é um ''eu tô aqui'' versão 2.0).


Nos momentos derradeiros, porém, é desespero: depois de meses cercados pelo sentimento da esperança, que se tornou em desilusão, hora de gritar um 'eu acredito' mental e dar F5 nas redes sociais esperando algum anúncio oficial. É o Fergie Time, quando nada mais tem lógica, o famigerado abafa já se estrutura na área e o que vier é lucro. Nos bastidores, me refiro ao dinheiro jogado tão facilmente quanto a bola na muvuca procurando a cabeça de um Fellaini da vida e o alívio saindo do peito momentaneamente, sabendo que aquilo não era planejado e as coisas poderiam ter corrido melhor.


Anthony Martial. 19 anos. Atacante da não tão convincente Ligue 1. Trinta e seis (36) milhões de libras. Sim, também acho difícil compor em meu cérebro uma frase que, ao mesmo tempo, utilize tais palavras e faça algum sentido. Mas enfim: se a grana a disposição é maior do que nunca e tal peça provavelmente suprirá uma demanda existente há muito tempo, sejamos otimistas. Deixo o lado literal e poético (ou quase isso) pra trás. Analisando apenas o NOME e o que tal contratação pode significar, em curto e longo prazo, as críticas ao negócio podem ser esquecidas.


ESPN.com.br: United oficializa contratação de Martial, 'teen' mais caro da história


Não vou fingir que assisti à maioria dos jogos do Monaco na temporada passada, mas a equipe de Leonardo Jardim fez uma das campanhas mais interessantes da Europa e chegou a causar alvoroço na Champions League. Nas oitavas de final da competição, eliminou o Arsenal em pleno Emirates com enorme contribuição do novo prospect do United. Como no resto do ano, Martial foi a principal válvula de escape (em diversos sentidos) de um time que jogava no contra-ataque. Iniciando como centroavante num 433, o francês foi caindo pelo lado esquerdo e, além de puxar a jogada que culminou no gol de Dimitar Berbatov, aterrorizou Hector Bellerin e Per Mertesacker.


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Dezenove anos, etiqueta de preço de 36 milhões de libras e a camisa de um dos maiores times do planeta nas mãos. Pouca responsabilidade?


Considerando sua recente especulação envolvendo um dos maiores clube do mundo, naturalmente surgiriam artigos por todo lado tentando provar do que o jogador é capaz, mas estes não são fontes tão confiáveis. O Outside of the Boot, site especializado em jovens talentos, há pouco mais de um mês produziu um scout report a respeito de Martial. A seguir, alguns pontos interessantes retirados do texto.


- O jogador surgiu nas academias de base do Lyon e chegou a marcar 32 gols em 21 jogos em categorias menores, mas acabou ‘perdendo’ uma chance no time principal para uma peça bem comparável à ele: Alexandre Lacazette. A ótima finalização por instinto e o uso inteligente dos espaços (movimentação geral, entradas em diagonal com a bola, corridas penetrantes sem a mesma, etc.) chama a atenção;


- Embora seu futuro deva se concretizar como um centroavante, Martial é capaz de atuar em qualquer uma das pontas. Preferencialmente a esquerda, sendo que é destro e tem no corte seco e direto para dentro como um de seus maiores trunfos. Para isso, porém, temos Memphis e, de certa forma… Ashley Young. Precisamos de alguém que renda pelo centro, já que Rooney…;


- A boa notícia é que, centralizado, Martial mostra bons atributos e deve ter bom desempenho. O interessante é que apesar dos traços físicos serem destacáveis, os holofotes se voltam para o atacante mais por características técnicas e posicionais do que o óbvio, raso e estereotipado pensamento de que é um ‘jogador grande e forte nos moldes antigos’;


Falando de números, vamos lá: Martial anotou 9 gols em 35 aparições na última Ligue 1, estatística logo levantada por aqueles que criticam qualquer contratação. Colocamos isso sob alguma perspectiva, porém; como supracitado, o jogador atuou em um time que ficou conhecido pelo poder defensivo e tratava o campo ofensivo com menor atenção. Outro fator importante é o fato de Berbatov ter sido o ‘camisa 9’ principal da equipe, deixando qualquer eventual companheiro em uma função mais periférica e menos decisiva.


Wayne Rooney, para termos noção, não foi muito melhor (mesmo ganhando £ 300 mil por semana e tendo todo o gabarito e histórico que conhecemos): 12 gols em 33 partidas na Premier League. Inclusive, seu aproveitamento nas finalizações é menor que o do seu provável futuro substituto: 51% contra os 56% do francês. Então vamos com calma. É claro que não podemos criar uma imagem completa de alguém que até a semana passada era conhecido por poucos, mas pior do que isso é ignorá-lo pelo simples fato de não ter a mídia em cima de seu futebol. O valor desembolsado foi (bem) questionável, mas que tal esperar e ver o que Martial pode fazer dentro das quatro linhas? Conclusões precipitadas nunca ajudam.


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Camisa 10 e capitão, Rooney busca consistência há tempos; agora, terá Martial na sua sombra e isso pode ser bom para ambos


Os outros negócios do Deadline Day (e a novela De Gea)


Adnan Januzaj: como sabemos, o jogador foi a grande sensação da monótona temporada 2013/14 de David Moyes mas acabou sendo esquecido por Van Gaal em 14/15. Neste início de 15/16, porém, vinha sendo titular em sua posição preferida - meia atacante central - e evoluindo constantamente. O empréstimo para o Borussia Dortmund é surpreendente de diversas maneiras, dado que os aurinegros tem um conjunto bem encaixado sob o comando de Thomas Tuchel e a titularidade esteja longe de ser garantida. E o melhor para o belga, como qualquer jovem atleta, é jogar. A inconsistência é natural, mas o aprendizado que vem com ela também. Será que o nosso futuro-antigo-futuro camisa 11 retornará à Manchester como um atleta bem desenvolvido ou serão 9/10 meses jogados fora? A ver.


Javier Hernandez: no fim das contas, Chicharito deixa a Inglaterra com um gosto amargo na boca. Adorado pela torcida logo quando chegou do Chivas Guadalajara e nas três primeiras temporadas, sob a batuta de Moyes o mexicano sofreu um baque na reputação (como praticamente todos os outros do plantel) e não conseguiu reconquistar cérebros e corações mancunianos. Foram 57 gols em 159 aparições, duas taças do Campeonato Inglês e muitos momentos de êxtase propiciados pela pequena ervilha. Como esquecer do gol de nariz na estreia, do poder de decisão diante do Chelsea ou do tento no último minuto do Boxing Day de 2012/13 frente ao Newcastle? A negociação com o Bayer Leverkusen fará bem para todas as partes e a torcida - e crença em seu futebol, até mesmo subestimado por aqui - fica reiterada para com o jogador.


David De Gea: amigos, que papelão foi esse no último dia da janela? Para não ser prolixo, segue um resumo do que aconteceu na segunda-feira. O desejo do jogador era se transferir e já tinha acertado tudo com o Real Madrid - este que, por sua vez, resolveu esperar até o último dia acreditando que o United baixaria a pedida financeira. O que não aconteceu, e melou com tudo. O acordo entre os clubes demorou para ser selado e Ed Woodward & cia enviaram os documentos do negócio em cima da hora; os merengues não conseguiram abrir os arquivos a tempo (dizem até que o formato não era compatível com o sistema de computação deles) e se encerrou o limite dado pela Federação de futebol de lá. Amadorismo? Tacada de mestre dos ingleses? Tirem suas conclusões. O fato é que o camisa 1 fica e alguns jornalistas britânicos já apontam para uma possível renovação de contrato. Soa como um novo reforço - e QUE reforço...


ESPN.com.br | Atraso em 'delivery' veta ida de De Gea ao Real Madrid


Anders Lindegaard, goleiro e Jonny Evans, zagueiro, foram outros que fizeram suas malas. O primeiro nunca seria mais do que um tapa-buraco no banco de reservas e deve ter mais chances no West Bromwich (assim como Ben Foster, que fez o mesmo caminho ao deixar de ser backup aqui para atuar lá). O segundo chegou a agradar alguns em certos pontos de sua carreira, mas estava claro que seu nível era bem abaixo de uma equipe que quer brigar por títulos importantes. O norte-irlandês também se encaminhou para o WBA e provavelmente será titular no time de Tony Pulis. Boa sorte e vá com Deus.


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O jogador queria partir e o United acatou seus pedidos; no fim das contas, porém, Van Gaal conta com um dos melhores do mundo novamente


No início do texto, citei que ''sabendo que aquilo não era planejado, as coisas poderiam ter corrido melhor''. Mas também podia ter sido muito pior. Poderiamos não contar com um goleiro world-class debaixo dos postes, um lateral-direito que usa a cabeça para jogar, um meia defensivo que promete formar a espinha dorsal do time por bastante tempo, um ponta com potencial absurdo e um atacante de 19 anos elogiado por qualquer um que o treinou e cotado pelos mesmos para fazer sucesso. As coisas não acontecem como 100% da torcida deseja, para o bem e para o mal. O United se encontra em uma posição bem superior àquela da temporada passada e esse é o principal intuito objetivado na transfer window. Que os holofotes troquem de lugar, deixando os corredores de Carrington para o gramado de Old Trafford, porque é agora que o teste de fogo começa.