Van Gaal e Wenger - opostos da mesma geração

Louis van Gaal e Arsène Wenger. Os dois treinadores mais velhos e experientes do top-4 da Inglaterra nasceram na mesma época e são frutos de um crescimento assustador nos números de natalidade pós-Segunda Guerra Mundial. Naturalmente, ambos amadureceram sob circunstâncias bem semelhantes e, atraídos pelo futebol logo quando crianças, acompanharam as mesmas nuances do esporte.


A maior parte dos princípios enraizados em suas respectivas filosofias, porém, não poderia ser tão diferente. Neste texto, destacarei alguns aspectos que separam o holandês do francês, puxando mais para o lado do comandante do United. Para completar esse post, o Alcysio Canette, do Arsenalismos, falou sobre o assunto com um olhar vindo do norte de Londres.


A vontade (e necessidade) - de gastar - Não interpretem errado, a montagem do elenco de ambos sempre teve grande parcela de jovens jogadores e os dois desenvolveram grandes prospects. Van Gaal, porém, é bem menos cauteloso no mercado: tendo grana em caixa e o respaldo de seus superiores, não tem receio em desembolsar quantias significantes por peças que se tornam incógnitas para o futuro: pra cada Rivaldo, tem um Sonny Anderson.


Em duas temporadas de Premier League, LVG despejou 256 milhões de libras em transferências; desde 1996-97, Wenger gastou £ 515 milhões - a média é discrepante. É claro que um chegou quando negociações de alto calibre eram raras e outro encontrou uma transfer window muito mais inflacionada, mas o número dá um panorama bacana nesse quesito.


Abordagem no cotidiano do clube - Não, Louis não odeia brasileiros. Mas tem uma filosofia de man-management que pode parecer ríspida demais para muitos jogadores - Luca Toni, Hristo Stoichkov, mais recentemente, van Persie que o digam. Poucos detalhes atuais são completamente conhecidos, mas em boa parte da carreira o holandês exigia de seu plantel que cada um estivesse sempre com a camisa por debaixo da calça, olhasse no olho na hora de falar e usasse meias em todo momento. Loucura? Um meio para alcançar a disciplina e a coletividade necessária? Tirem suas conclusões.


Getty Images
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A relação de Van Gaal e Van Persie era boa e promissora, mas acabou tendo um amargo ponto final


Postura com contratações e baixo rendimento - Dia 26 de agosto de 2014: um valor de £ 59 milhões é desembolsado pelos direitos de Angel Di Maria - salário de £ 200 mil por semana, contrato de 5 anos, camisa 7 nas costas. Dia 6 de agosto de 2015: Angel Di Maria é vendido ao Paris Saint-Germain por algo em torno de £ 44 milhões. Isso fala por si só. A paciência com peças individuais - ao contrário do coletivo - não é uma das características do nosso manager. Para mais sobre o tema, leia aqui.


Longevidade de trabalho - Aqui, duas coisas: Van Gaal não fica em uma única equipe por muito tempo e, nesse sentido, é o antônimo de Sir Alex Ferguson. Por outro lado, geralmente a estrutura deixada pelo mesmo ao seu sucessor é de grande valia. Apenas pergunte para Frank Rijkaard, Pep Guardiola ou Jupp Heynckes. Ok, não nos afastemos do assunto; o holandês só permaneceu por mais de três temporadas em um clube em duas oportunidades - Ajax, 1991-97 e AZ Alkmaar, 2005-09. Seja por consequência de seus métodos ou não, é um treinador com um prazo de validade curto.


Flexibilidade tática - A perspicácia tática e organizacional de Louis é provavelemente a sua maior qualidade. Superestimada por si mesmo e subestimada pela imprensa e os torcedores em geral, sua capacidade de adaptar equipes aos princípios que carrega consigo - um total football com certas alterações, como o apelo maior pela vitória do que o jogo bonito - com o cabível e necessário para o momento (isso em todos os graus: um jogo, um torneio ou uma passagem completa por determinado clube) é digno de grande reconhecimento. Rígido? Sim. Inteligente e talentoso? Também.


De maneira alguma essa dobradinha de posts foi intencionada a apontar o certo e o errado, mas sim trazer aos leitores as diferenças carregadas por dois treinadores da mesma geração e, indubitavelmente, vencedores. O Alcysio trouxe o lado gunner da questão com maestria, façam questão de dar uma olhada lá no Arsenalismos.


Abraços e até a próxima.