A última chance de Rooney tornar-se uma lenda

*Por Lucas Sposito, do Old Trafford Brasil 


A Inglaterra conheceu na última terça-feira (8) o novo artilheiro de sua seleção. Wayne Rooney balançou as redes pela 50ª vez e deixou para trás a marca de Sir Bobby Charlton, esta estabelecida ainda em 1970. Mas enquanto o camisa 10 e seus companheiros de equipe comemoravam o recorde, grande parte dos torcedores ingleses torcia o nariz: será que ele realmente merecia tal honra?


É natural que a rejeição a jogadores na seleção exista devido à rivalidade dos clubes, principalmente quando ele é um astro do time mais odiado do país. O problema é que Rooney não vem enfrentando este tipo de reação apenas da torcida inglesa. Seus tempos de herói em Old Trafford acabaram. Hoje ele luta para reconquistar o carinho que a torcida tinha com ele anos atrás.


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Falando em recordes, não é apenas da seleção inglesa que ele pode ser o maior artilheiro. Faltam apenas 17 gols para que Rooney ultrapasse Sir Bobby Charlton em números de gols também com a camisa do Manchester United. E muitos torcedores do clube também não estão nada felizes com isso.


Rooney chegou a Old Trafford como um garoto prodígio que representava o futebol inglês de rua. Ele tinha velocidade, habilidade, potência nos chutes e raça, muita raça. Mas houve uma decadência acontecendo aos poucos, muito relacionada a sua forma física e falta de dedicação em campo. Hoje a habilidade se foi, a velocidade raramente é vista, o domínio de bola é sofrível. Seu futebol atual resume-se a ao de um bom segundo atacante, com finalização decente e ótima visão de jogo. Nada mais que isso.


Se a piora em campo fez mal ao seu carisma, o que o prejudicou de verdade entre os torcedores foram as novelas para renovação de contrato. Quando o United perdeu Cristiano Ronaldo em 2009, Rooney viu a responsabilidade cair sobre suas costas e não se intimidou: marcou 34 gols na temporada (Dimitar Berbatov, vice-artilheiro da equipe, fez apenas 12). Aproveitando-se de sua boa fase e da situação do clube, que não podia perder sua última grande estrela, ameaçou sair e bateu o pé por um contrato absurdo: 180 mil libras por semana, tornando-se o jogador mais bem pago da história do Manchester United. Moral da história: as cifras acabaram chamando mais atenção do que seus gols.


Como se não bastasse a primeira novela, Rooney aproveitou-se de outro momento crítico do clube para ganhar mais dinheiro. No início de 2014, durante a terrível temporada sob o comando de David Moyes, ele conseguiu um novo contrato cinco anos, com o qual ganharia 300 mil libras por semana. A receita foi a mesma: Sir Alex Ferguson havia se despedido, a equipe passava por um momento crítico no campeonato e fizeram um pequeno esforço para que seu grande ídolo não saísse. O problema é que, já naquela época, Rooney não valia nada que justificasse esses valores. Foi o status falando alto mais uma vez.


Getty Images
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Ao contrário dessa obra prima protagonizada em 2011, Rooney ainda não é uma lenda do clube


Rooney é um sucesso de marketing, apesar de que isto seja pouco comentado. É claro que ele não é nenhum Neymar, mas ser a maior estrela futebolística do Reino Unido representa muita coisa. Ele sempre apareceu em comerciais de TV que traziam Cristiano Ronaldo, Messi, Ribery e Suarez, mesmo que nunca estivesse no nível destes jogadores. O fato de ele ser o melhor jogador da Inglaterra há anos não deveria fazer dele um herói, e sim expor a decadência da seleção inglesa.


Deixando os salários de lado (apesar de que isso seja um pouco difícil), Rooney é um bom jogador para ter no elenco. Ele nunca teve um ano totalmente desastroso. Foram 14 gols feitos na última temporada, o que significa sua pior marca desde que chegou ao Manchester United em 2004. Mas este número também representa os gols marcados por van Persie (10) e Falcao (4) somados, sendo que os dois tinham a responsabilidade de ser o “homem gol” da equipe. Ou seja, ele não é o cara que merece ganhar 300 mil libras por semana, mas também não merece o pé na bunda que os outros atacantes levaram.


O que parece faltar é motivação e dedicação. Sir Alex Ferguson chegou a deixar Rooney no banco em algumas ocasiões. Mas mesmo com fama de durão, não parece que Louis van Gaal vá fazer isso. A esperança é que um elenco recheado de estrelas e a volta à Champions League façam a diferença neste momento crucial de sua carreira. Caso contrário, não vai demorar muito para que a porta de saída seja mostrada a ele.


Espera-se que ele seja o homem gol da atual temporada, apesar de que isso seja um grande desafio. Suas melhores temporadas não foram como protagonista. Os anos em que van Nistelrooy, Cristiano Ronaldo, Berbatov e van Persie assumiram o papel de marcar gols, foram os que o futebol de Rooney mostrou-se de mais alto nível. Mas como citado anteriormente, seu estilo de jogo mudou, e talvez o papel de artilheiro o faça bem neste momento. Até porque gols são a melhor maneira de reconquistar a torcida.


Para a temporada 2014-15, Rooney tem tudo o que todo jogador sonha: camisa 10, faixa de capitão, estádio lotado, lugar garantido no ataque e história a ser feita. Falta o futebol. Só depende ele.


*Autor convidado, Lucas Sposito é jornalista e escreve pra VIP, Corner, Sport Witness e Old Trafford Brasil.