Não há alegria em Old Trafford

Por Allan Matos, do Old Trafford Brasil


É um tanto complicado descrever a situação atual do Manchester United. Pela primeira vez desde a aposentadoria de Sir Alex Ferguson, o clube voltou a ficar no topo da Premier League (excluindo a primeira rodada da temporada 2013/2014) e poderá voltar à liderança com uma vitória no próximo jogo, contra o Leicester City. Na Champions League, apesar de ter se complicado com um empate contra o PSV, o United só depende de uma vitória no último jogo para garantir não apenas a classificação, como também o primeiro lugar no Grupo B.


A frieza dos números acima permite concluir que não há motivos para reclamar da fase atual do clube. Depois de uma temporada catastrófica de David Moyes e de uma temporada de adaptação para Louis van Gaal, o United está no topo das principais competições no momento. Então por que o sentimento de frustração e insatisfação predomina entre torcedores e até alguns jogadores?


Bem, indo direto ao ponto, a verdade é que a jornada até então tem sido chata e sem qualquer graça. Enquanto a solidez defensiva é o grande trunfo de Van Gaal – que merece todos os elogios por isso –, o time marcou apenas 19 gols nos 13 jogos da Premier League até então. Dentre os 7 primeiros colocados, é o time que menos balançou as redes.


Getty Images
Getty Images

Chicharito, Welbeck, Anderson... até com esses nomes, costumávamos nos empolgar com o United


A imprensa britânica recentemente traçou um paralelo com as outras 24 temporadas do United na Premier League, a fim de comparar o número de gols marcados pelo clube após 13 rodadas. E o resultado disso é que os 19 gols dessa temporada são a 4ª pior marca da equipe desde 1992, muito longe do topo, quando o time de Sir Alex Ferguson havia marcado 35 gols em 13 jogos na temporada 2000/2001.


E a causa para que a equipe faça tão poucos gols é claríssima para quem vem assistindo aos jogos. O United chutou a gol apenas 96 vezes na Premier League, quando outras equipes como City e Arsenal o fizeram 164 e 162 vezes, respectivamente. Num esporte em que a empolgação vem do seu time pressionar os adversários e marcar o maior número de gols possível, esses números fazem doer os olhos de qualquer torcedor.


Evidente que a insatisfação não é só do torcedor que assiste, como também é do jogador que é incumbido da tarefa de executar o plano do treinador. O próprio Louis van Gaal admitiu em coletiva de imprensa que Wayne Rooney e Michael Carrick, primeiro e segundo capitães do time, procuraram o treinador para passar a insatisfação da equipe com o estilo de jogo conduzido pelo holandês.


Em campo, os jogadores aparentam ser fixos em suas posições e com um profundo temor de perder a bola por tentar jogadas mais ousadas. Aqui pode-se notar um estranho padrão que ocorre desde a temporada passada. Jogadores novos chegam, e geralmente no caso de meias e atacantes, são comprados após passagens em seus clubes anteriores nas quais demonstraram uma capacidade incrível de levar o time para perto do gol. No começo de suas carreiras, é exatamente isso o que eles fazem pelo United, encantando os olhos de todos os torcedores.


Getty Images
Getty Images

Ter uma boa defesa é essencial, mas quando os resultados são empates e esterilidade, as coisas não estão dando certo


No entanto, após alguns meses de adaptação, essa criatividade e esse ímpeto simplesmente desaparecem, dando lugar a uma rígida estratégia de manter a bola. É o que aconteceu com Di María, que teve um início de carreira espetacular em Old Trafford, e hoje já nem está mais no clube. Nessa temporada, o mesmo aconteceu com Anthony Martial, que estreou chamando a atenção do mundo ao marcar um belíssimo gol no Liverpool. Hoje, Martial é apenas mais um envolvido no que pode ser chamado de domínio estéril da posse de bola.


Na parte central do meio-campo, o cenário é ainda pior. O United acertou em cheio nas contratações de Morgan Schneiderlin e Bastian Schweinsteiger, dois volantes que em seus clubes anteriores demonstraram plena capacidade de avançar e levar o time todo pro ataque. Atualmente, ambos, por melhores que sejam, parecem contentes em seguir um plano de jogo que abre mão da ousadia em nome do controle da posse de bola.



Curta o Stretford End no Facebook



Não é isso que o Manchester United representa em seus mais de 130 anos de fundação. O Manchester United é George Best jogando em todos os lados do campo, entortando zagueiros como bêbados numa saída de bar. O Manchester United é Ryan Giggs e David Beckham correndo nas pontas e dando pesadelos aos zagueiros e laterais, enquanto Andy Cole e Dwight Yorke entram tabelando em qualquer área para marcar uma chuva de gols.


Por melhores que sejam, os resultados na tabela não podem mascarar essa insatisfação. A alegria, a excitação de ver o Manchester United jogar hoje são sentimentos que foram embora. Claro que os torcedores ainda acompanharão o time aonde ele for, claro que todos ainda farão seus rituais pré e pós-jogo, mas o fato é que está cada vez mais difícil ter prazer em assistir aos 90 minutos de futebol apresentados pela equipe.


Louis van Gaal tem motivo para se preocupar. No começo do mês, analisei sua situação no Old Trafford Brasil para apontar que, sim, há uma crise dos fãs (que já teria chegado em alguns jogadores) com o treinador. E caso os resultados não sejam absolutamente impecáveis e o futebol da equipe continue a seguir esse padrão monótono, Van Gaal pode ver o fim da linha mais cedo do que espera.


*Autor convidado, Allan tem 26 anos, é advogado e apaixonado por futebol inglês. Torcedor distante do United desde 1998 e de paixão assídua desde 2005.