Contra o Bournemouth, United perdeu para um time melhor

Quando o modesto AFC Bournemouth selou sua ascensão para a elite do futebol inglês, reações de torcedores neutros e repercussões midiáticas não mantiveram um padrão em relação ao clube. Alguns tratavam como um time de sorte que certamente seria saco de pancadas na Premier League, enquanto outros eram mais cautelosos e viam indícios para uma expectativa melhor sobre a campanha de 2015/16. O fato é que, para quem acompanhou minimamente as divisões inferiores nos últimos anos, essa semana histórica não surpreende tanto assim.


Os Cherries derrubaram o Chelsea de José Mourinho em pleno Stamford Bridge na semana passada e, na tarde/noite deste sábado (12), triunfaram diante do Manchester United. Segundo um estudo liderado por Tom Markham, economista britânico, a agremiação do sul do país vale a mera quantia de 104 milhões de libras - cifra que a deixa na lanterna desse quesito dentro da competição. Para colocarmos tudo sob perspectiva, os Blues estão avaliados em £826 milhões e os Red Devils, dentro dos altos e baixos da Era Glazers, £1,848 bilhão. Isso mesmo. Acabamos de perder para aqueles que tem um porte financeiro 18 vezes menor que o nosso.


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A culpa é de quem? Pois bem, se continuarmos analisando dentro desse gritante cenário econômico, podemos considerar o resultado uma vergonha. Mas partindo do ponto de vista das performances e do rendimento das equipes - que é o importante, afinal -, a disparidade não é tão larga assim. Eles estão só um pouco acima. Ah, não estou exagerando para caçar cliques ou causar algum tipo de polêmica - sempre deixei claro que extremismo e imediatismo são coisas que evito. É apenas algo consumado: nossos adversários vêm desempenhando um futebol superior nesta temporada.


Pela pequena atenção dada por parte da imprensa e o baixo número de jogos televisionados, provavelmente muitos leitores não conhecem o bastante sobre o Bournemouth no que tange tática/técnica. O que posso dizer é o seguinte: se a qualidade individual claramente está longe de um nível world-class, sendo apenas razoável/boa, a organização das peças como um conjunto não deixa a desejar em comparação a qualquer equipe. Sou entusiasta da ideia de que o treinador tem uma parcela de importância gigantesca em seus comandados, portanto é impossível não falar de Eddie Howe.


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Howe, ensine-os: a flexibilidade é mais importante do que a teimosia


O jovem inglês, que recentemente completou 38 anos, terminou sua carreira de zagueiro precocemente devido a uma lesão no joelho e resolveu colocar a prancheta debaixo do braço. Foi player-manager do time de Dean Court por 40 dias em 2008, demitido e recontratado para o cargo oficial em janeiro de 09. Naquela season o clube havia começado a League Two (quarta divisão) com 17 pontos negativos por uma prévia má administração das finanças. Sem problemas para o comandante, que não só garantiu a permanência na Football League, mas também conquistou a promoção para a terceirona 18 meses mais tarde.


O Burnley, então na Championship, foi atrás dos serviços do rapaz, que não resistiu e aceitou a proposta. Foram quase dois anos no Turf Moor, pouco progresso profissional, mas uma prova de que tinha talento para reconhecer potencial: Charlie Austin, Danny Ings e Kieran Trippier foram contratados na sua passagem por lá. Ele retornou ao Bournemouth em outubro de 2012 e levou-os do buraco (foi uma vitória em 11 rodadas antes de sua chegada) para mais um acesso, dessa vez à segunda. Em 13/14, a primeira vez do clube na competição desde 1989, a décima colocação serviu de alívio e alavanca de expectativas: o melhor estava por vir.


A temporada seguinte foi a que consolidou todo mundo lá na região de Dorset, do dono salvador da pátria Maxim Denim (em 09, a liquidação era uma perspectiva real) aos jogadores que ainda formam a base do elenco. E foi Howe quem os levou ao reconhecimento ao implementar um padrão de jogo extremamente refinado para aquele nível. A posse de bola ganhou vez, mas não de maneira estática e rasa: foi ferramenta para, através dos mecanismos muito bem treinados pelo staff e executados pelos atletas, gerar resultado. Foram 87 gols anotados e 29 vitórias contabilizadas por meio do Positional Play, não do erroneamente famoso tiki-taka.



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Enquanto o segundo termo consiste na troca lateral de passes, cansando os 22 que estão em campo e todos os espectadores, o Jogo de Posição é uma estratégia bem mais completa (e complexa). O esférico passa a ser considerado o meio, não o fim. A compactação é figurinha carimbada em todas as fases da partida, enquanto os deslocamentos verticais são tão legais de ver quanto eficientes no rendimento. É raro perceber peças se posicionando na mesma linha quando com a posse, em vez disso a fluidez e a bola rápida (com um propósito) são prezadas. Para mais sobre o assunto, clique aqui


Vejam que falei pouco do lado individual. O que ganha realce nesse sistema inteiro é o grupo, não a técnica de cada um - que é importante, mas não exatamente fundamental se todos estão acostumados com suas funções e em sintonia com a dos companheiros. Quando Andrew Surman avança para receber entre-linhas, Harry Arter sabe que é hora de fechar na diagonal e servir de estrutura para caso de contra-ataque rival. Se Matt Ritchie resolve usar sua boa canhota entre as zonas de marcação desconexas do United, Adam Smith faz a ultrapassagem pela lateral a fim de espaçar a defesa e oferecer nova linha de passe.


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Quando seu meio-campista tem suas ações facilmente anuladas pelo armador adversário, algo está errado


Josh King recuou comoum falso 9 e prendeu dois zagueiros em seu entorno? Junior Stanislas está pronto para fazer uma corrida aguda e explorar o espaço previamente aberto. Howe ordenou uma pressão mais agressiva? Entram em cena as pressing-traps. Não existe um caos desorganizado e correria pra qualquer lado, mas sim mecanismos desempenhados em conjunto. Ao perceber que o lento interior do adversário (Fellaini) vai receber a bola, Gosling é veloz ao se aproximar, um dos atacantes anula um possível recuo e o lateral, Charlie Daniels, fecha o centro para direcionar o rival à uma área de campo com valor estratégico mínimo: os flancos. 


Se for parar pra analisar detalhadamente cada nuance tático desse time, vou longe. Sim, hoje termino meu post por aqui. Não vale a pena gastar outros milhares de caracteres, nem tempo e paciência, para falar da equipe desanimadora de Louis Van Gaal. Seria bater na mesma tecla pela enésima vez, e algo que não tem mais tanta importância se os tão esperados sinais de avanço não existem. Aguardemos por um milagre - a evolução - ou pela saída do holandês. Torço pelas duas coisas.