Acabou seu tempo, Van Gaal. É hora de Pep ou Mou

Que momento estranho no futebol mundial. Nunca antes tantos treinadores de alto calibre (ou nomes medianos mas que dirigem clubes grandes) estiveram numa corda bamba como podemos observar na temporada de 2015/16. Liverpool e Chelsea trocaram de técnico recentemente, Rafa Benitez segue balançando no Real Madrid e até mesmo o incontestável Guardiola anunciou que fará as malas em alguns meses. Volta e meia surgem especulações de uma saída de Manuel Pellegrini dos Citizens, Laurent Blanc nunca está 100% sossegado no Paris Saint-Germain e etc.


E temos a figura de Louis van Gaal. A opinião deste que vos fala sobre o holandês é bem documentada e detalhada dentro dos 31 posts feitos por aqui, mas resumirei. Ele veio com a missão de instigar a mentalidade vencedora perdida sob o comando de David Moyes e, de certa forma, cumpriu com o desejado. Voltamos para a Champions League, ganhamos alguns clássicos e nos mostramos mais resilientes à percalços em 14/15, mas a campanha atual acabou com tudo isso.


Não começamos tão mal quanto a mídia (ou a nossa desiludida e desanimada mente) nos faz acreditar, mas aos poucos o rendimento foi não apenas estagnando, mas sim caindo, e chegou em uma situação insustentável. Que o nosso back-four não é dos melhores do planeta todo mundo sabe, mas pensávamos que a presença de uma proteção mais desenvolvida ajudaria. Deu certo até determinado ponto, contabilizamos algumas clean-sheets, mas hoje nem isso.


Quando Morgan Schneiderlin, este sim um membro do primeiro escalão do esporte (tática e estatisticamente falando) é preterido pelo nulo Marouane Fellaini ou o qualificado, mas inconsistente Bastian Schweinsteiger, algo precisa mudar. Sobre Ander Herrera ser um dos meias mais produtivos do elenco e ter minutos reduzidos mesmo estando 100% fisicamente nem é necessário comentar.


Getty Images
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Dono do melhor desempenho - tática e estatisticamente falando - entre os meias defensivos da Inglaterra, Schneiderlin muitas vezes é preterido por Van Gaal


Ceder oportunidades aos garotos da base é uma atitude muito bem vinda e extremamente admirável - ainda mais num clube como o United -, mas ter Varela, McNair e Borthwick-Jackson entre os titulares em jogos importantes da liga mais competitiva do mundo não é uma boa ideia. Chega a ser óbvio que a pressão falaria mais alto e perderíamos pontos por bobagem. Insistir com Wayne Rooney no XI inicial mesmo com uma sequência enorme de atuações pífias do capitão não é digno de quem deliberadamente diz ter ''cojone''. Há poucos dias, certa pessoa deixou Diego Costa no banco sem qualquer receio.


Então entram os problemas organizacionais. A fim de ter uma equipe menos suscetível ao caos transicional da Premier League, o boss foi longe. Mecanizou em demasia todas as fases do jogo e tirou a liberdade de alguns de seus atletas mais expressivos. Memphis também conta com uma parcela de culpa pelo seu baixo rendimento, mas não era preso ao flanco esquerdo quando chamou atenção dos scouts jogando pelo PSV. O fato é que a estruturação do conjunto acabou passando dos limites e deixando as coisas mais previsíveis do que já eram.


Fluidez no terço ofensivo do campo e a disposição de peças entre as linhas de marcação adversárias são características inexistentes em Old Trafford. Após tirar a posse do oponente, a bola é passada para trás e isso não seria inteiramente prejudicial se, de frente para os 11 rivais, um padrão desnecessariamente contraprodutivo entrasse em cena. É um do lado do outro, pouca movimentação e uma quantia exagerada de passes laterais.


Se tais toques sonolentos fossem utilizados como um meio para chegar ao gol de maneira mais eficiente, as reclamações seriam poucas. Mas de nada adianta se, reconhecendo espaços a serem explorados centralmente, as jogadas são direcionadas aos lados. A estratégia do holandês já nos deixa rígidos demais para construir sob quaisquer circunstâncias e piora quando os atletas são encaixotados pela linha lateral e a cobertura rival.


Lucas Filus (this11.com)
Lucas Filus (this11.com)

Imagem utilizada em um post antigo, mas ainda válida; a estruturação da equipe faz com que sejamos previsíveis e facilmente anulados


Vamos pontuar tais argumentos? Para ser atual, mas não imediatista e considerar apenas os últimos compromissos, eis aqui um record inexplicável: desde abril, quando nossa ótima fase (com vitórias sobre Liverpool, Tottenham e City) acabou, foram 33 jogos e 14 vitórias. Quatorze. Nem perto de algo respeitável para quem gastou 256 milhões de libras desde que desembarcou em Manchester.


Com média de 57.4%, lideramos a Liga em posse de bola. Por outro lado, finalizamos 11.1 vezes por partida, sendo que apenas 3.6 desses chutes são no alvo - ficando em 15º, na frente de Sunderland, Aston Villa, Stoke, Newcastle e West Brom. Quando o assunto é drible, pior ainda; 9 a cada 90 minutos. Passes chave, os famosos key passes e responsáveis por furar o sistema defensivo adversário? Terceiro pior time, contabilizando 7.6.


Está mais do que visível que perdemos incisividade, expressividade e, consequentemente, eficiência. Não dá mais para Van Gaal e tudo indica que as duas próximas rodadas serão cruciais na definição por parte da diretoria. No Boxing Day, sábado, viajamos até o Britannia Stadium e com certeza o favoritismo não estará ao nosso lado. No primeiro dia de 2016, o holandês pode respirar se triunfar diante do Chelsea dentro do Teatro do Sonhos. Mantendo os pés no chão, convenhamos que o mais provável são dois resultados ruins. Conforme o andar da carruagem, empate é derrota e derrota é assinar o atestado de equipe mediana e que não vai brigar por alguma coisa.



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Mas quem seria o nome ideal para assumir o United? Existem bons nomes no mercado, mas vamos focar em duas/três possibilidades: Pep Guardiola e Jose Mourinho. Indiscutivelmente os dois maiores treinadores do século XXI e marcados na história do esporte, ignorá-los novamente seria um erro tremendo. Digo novamente pois, na última (e única) vez que ambos estavam livres e, mais do que isso, dispostos a trabalhar no Noroeste inglês, ficamos com ele: David Moyes. Sim, após a aposentadoria de Sir Alex Ferguson poderíamos dar continuidade à hegemonia com um dessa dupla de tamanho e cacoete enorme para nos treinar.


Se os colocamos frente a frente para uma ''entrevista de emprego'', o espanhol sai por cima. Assim como costumava sair nos duelos diante do português naqueles fatídicos confrontos entre Barcelona e Real Madrid. Quem leu minimamente o blog sabe que sou um grande admirador de Pep e destrinchei muito desse fascínio aqui. São oito anos de carreira, VINTE títulos, 309 vitórias em 422 jogos e um aproveitamento espetacular de 73%.


Para irmos além, a visão do ex-camisa 4 é a de que o futebol é uma mescla entre arte e resultado. Seus conhecidos princípios do Positional Play são os ingredientes de uma receita que até agora deu muito certo em todos os sentidos. Enterte, vence, faz história. Saída lavolpiana - quando os zagueiros se espaçam, um dos meias recua entre eles e os laterais avançam para auxiliar na primeira fase de criação -, disposição de peças em todas as linhas (imaginárias) verticais e horizontais do gramado, nunca com dois no mesmo eixo, superioridade numérica, alta rotação dos jogadores, passes firmes (com um ''propósito'' dentro deles, como costumam dizer - a força/direção já indica o que o receptor deve fazer com o esférico posteriormente). Uma pressão extremamente eficiente e organizada, capaz de parar qualquer um menos o trio Messi, Suarez e Neymar.


É só lembrar de um dos maiores esquadrões de todoss os tempos, o Barça de 2008-12, e a missão de não ficar com água na boca é praticamente impossível. Fale o que quiser sobre a besteira do tiki-taka (algo utilizado por Van Gaal, não Pep - a posse medrosa, como um fim e não um meio), mas não temos como ''recusar'' um homem que massacrava seus oponentes a cada semana. Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, então apenas assistam a esse vídeo.



Ah, José Mourinho. Eu tenho certeza que a maioria dos leitores - torcedores ou neutros - têm uma visão desgastada do português. O egocentrismo e consequente tom de arrogância fazem com que sua imagem seja imediatamente criticada por qualquer um. ''Quem ele pensa que é?'', ''Por que ele aponta teorias conspiratórias toda vez que seu time perde?'', ''Ele não assume os próprios erros e culpa todos os outros? Que covarde, né?''. Eu sei que você já deve ter se perguntado isso após ver alguma press conference dele.


O fato é que o gajo é amado, odiado, reverenciado, criticado mas nunca esquecido. Com ele, não existe marasmo. A mentalidade de ''vencer a todos os custos'' fez com que nunca subestimássemos seus clubes. Falamos de um indivíduo com poder de liderança do mais alto nível e total domínio sobre o esporte. Um tactician desde a juventude, quando produzia relatórios dos oponentes que o time de seu pai (ex-treinador) enfrentaria por vontade própria. Admirado pelas grandes mentes desde que, inicialmente como um tradutor, ganhou a luz verde de Sir Bobby Robson no Barcelona em 1998: de mero intérprete para terceiro assistente na comissão técnica.


Dizem que suas equipes são super defensivos, mas por que não ser? Afinal de contas, se o plano ofensivo é executado com a mesma excelência, o resultado provavelmente será animador. Bem verdade que algumas partidas são mais estáticas, mas responda: você considerava entediante/chato aquele Real Madrid que marcou 121 gols em 38 jogos (média de 3,1), contabilizou 100 pontos e conquistou a Liga BBVA em 11/12? Alguém não gostava de ver o Chelsea na primeira metade da temporada passada? Era indubitavelmente o conjunto mais vistoso do país e angariou a taça em abril.


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Mourinho declarou abertamente seu desejo em treinar o United em algum ponto da sua carreira. Tem hora melhor?


Seu Porto, que fez história ao conquistar a Champions League de 03/04, contava com jogadores de alto foco defensivo mas anotou 22 tentos no torneio. Colocar o contra-ataque e as transições (a fase do jogo mais importante na intensa Premier League) no topo da hierarquia estratégica não é errado nem feio. Pergunte à Jurgen Klopp e às peças daquele Dortmund de 12/13; Jupp Heynckes e o Bayern da mesma época.


Uma das maiores razões para o insucesso de Mourinho no famoso ''terceiro ano'' dele é a falta de controle cedida por donos/dirigentes. Florentino Pérez e Roman Abramovich tem egos maiores que o bolso e nomes como Michael Emenalo, diretor técnico dos Blues, querem exercer suas funções com mais força do que deveriam. Entra aqui o lado bom dos Glazers (sim, existe), proprietários do United: os americanos são conhecidos por pouca participação interna no dia-a-dia da agremiação e isso faz um bem enorme quando alguém de peito e conhecimento é o manager. Foi assim com Fergie, por que não com José?


Sua trajetória teve início em 2000. De lá pra cá, foram 765 partidas, 505 triunfos, 8 ligas nacionais (em quatro países diferentes) e duas orelhudas da Liga dos Campeões. Tem como resistir ao potencial e a inteligência do Special One?


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O texto não foi escrito com fins conclusivos e nem será até que algo mais concreto saia na mídia. Por enquanto, apenas especulações. O fato é que não podemos perder a chance de contar com um desses nomes de alto calibre por pura teimosia (continuar com Van Gaal) ou excesso de confiança em quem tem história no clube (Ryan Giggs). Se este ficar como interino até o final de 15/16 - quando Guardiola estará oficialmente desempregado -, no entanto, aceitamos sem qualquer reclamação, né?


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