Por que Guardiola deveria assinar com o United

Façamos um exercício de imaginação simples: quais foram os clubes mais vitoriosos do mundo nos últimos 25 anos? Sua mente provavelmente terá respondido Barcelona e, lá no fundo, Manchester United. Os números também confirmam tal afirmação - são 25 títulos neste período para os Red Devils, contabilizando apenas Ligas, as duas principais Copas nacionais, Liga dos Campeões (em 1999 chamada de Copa da Europa) e Mundial (no mesmo ano era Intercontinental).


Os culés conquistaram um grande troféu a mais neste período, mas claramente se destacam no senso comum por um motivo: o estilo em que chegaram a tal recorde impressionante. A filosofia enraizada no Camp Nou encheu os olhos de milhões dentro do que chamamos de era moderna do futebol e, para contextualizarmos, muito dela foi moldada em torno do eixo Josep Guardiola. Nos seus tempos de jogador, o atual e futuro ex-comandante do Bayern era um qualificado carregador de piano e sua função de arquitetar a orquestra do conjunto continuou consigo no banco de reservas.


Tivemos isso com Sir Alex Ferguson. Uma estratégia extremamente definida e princípios que serviam de base para o restante ser feito em busca do sucesso - que veio em doses inimagináveis. Inteligência, organização e, acima de tudo, flexibilidade. Ao mesmo tempo em que nossas raízes da posse e da ofensividade eram mantidas, não existia a vergonha de deixá-las um pouquinho de lado na hierarquia em momentos específicos. Construir pelo centro é, sempre foi e será mais produtivo, mas os jogadores sabiam a hora de abdicar parcialmente disso e focar num jogo lateral mais intenso. Isso é apenas um exemplo breve do enorme poder estratégico do velhinho.


E Pep está se desenvolvendo exatamente dentro desses aspectos. Sua base teórica e visão geral sobre o esporte é uma das mais renomadas e reverenciadas na história, mas o catalão está cada vez mais disposto a questionar os próprios métodos e evoluir junto a eles. É a regra número 1 daqueles que marcam época: mantenha suas normas e filosofias em mente, mas esteja preparado (e, mais do que isso, motivado) para mudar uma coisa ou outra conforme o tempo passa. De outra maneira, tudo ficará pra trás.


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Apesar de ter uma estratégia de jogo diferente, Pep se assemelha de Ferguson em diversos aspectos


Lembrou de alguém, né? Chegamos à questão do estado atual do United e ao nome de Louis van Gaal. Considerando a queda extremamente dolorosa sob a batuta de David Moyes, crescemos com a chegada do holandês - isso é inegável. Os pilares são mais sólidos, a força para buscar reviravoltas em partidas que estariam definidas com o escocês reapareceu, a competitividade chegou ao seu nível aceitável. Mas não somos um clube para se contentar com o mediano, o razoável. Ponto.


Temos o quilate correspondente à figura de Guardiola, que tem 22 títulos (como atleta e técnico) naquele supracitado período de tempo. Desde que pendurou as chuteiras e assumiu a prancheta, em 2008, teve 11 grandes conquistas em 7 anos e meio; tudo isso com um aproveitamento de 73% (setenta e três porcento, não foi erro de digitação), tendo 310 vitórias e simplesmente 43 derrotas em 424 compromissos. Assustador.



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Enquanto LVG se prende aos mecanismos que lhe deram um caráter respeitável há algum tempo, Pep tem como maior característica uma verdadeira metamorfose ambulante. Mesmo se fazendo consciente da importância do contexto, as circunstâncias temporais - elenco, dinheiro, lesões, adversário, competição - ficam pra escanteio quando comparadas com sua gana por desenvolvimento. Por pensar fora da caixa, fazer diferente. É uma proatividade sagaz e que impõe não apenas respeito, mas sim medo nos oponentes. É muito pouco provável que uma equipe comandada por ele não seja considerada favorita em algum embate. É o indivíduo capaz de levar qualquer um ao next level, compensando possíveis debilidades internas com seu poder tático e motivacional e, desta maneira, equiparando forças com quem seja o rival.


Não ficam com água na boca? Pois então, analisemos tais argumentos e informações mais a fundo, relacionando-os com os meios que seriam disponibilizados ao rapaz em caso de uma investida acertada. Apesar de toda ineficiência ofensiva, Van Gaal deixaria alguns traços sistemáticos bacanas para um desenvolvimento mais sofisticado e pareado com o jogo contemporâneo. Afinal de contas, ambos seguem alguns princípios muito semelhantes advindos da escola neerlandesa/espanhola.


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Thiago e Pep têm admiração mútua e o jogador só não veio para o United por convite do treinador do Bayern em 2013; já imaginou os dois por aqui?


Estamos ultra mecanizados e previsíveis, mas ao menos uma estrutura inicial existe. Os zagueiros, hoje Smalling e Blind, sabem que é fundamental a saída com os pés e o avanço de alguns metros com a bola para chamar a marcação, desestabilizar os blocos adversários e, consequentemente, abrir uma linha de passe mais à frente.


As inúmeras peças que foram utilizadas nas laterais vão cada vez mais se familiarizando com o conceito de equilíbrio posicional sem a bola. Tal forma de pensar e agir consiste na ciência de que, quando um está high and wide, ou seja, extremizando o campo lá no último terço, é hora do oposto acontecer no outro lado. Para exemplificar: Ashley Young (LE) grudou-se à lateral e prepara uma jogada com Memphis enquanto Darmián (LD) recua e fecha diagonalmente para formar um provisional back-three; a linha de três temporária. Dessa forma, a equipe está melhor disposta a lidar com uma eventual perda da posse e tudo isso facilita um high-pressing mais estruturado e menos caótico. São detalhes como esse que fazem parte do processo de pensamento de Pep e integram o dicionário de LVG.


Com a bola, podemos não ter a fluidez possibilitada pelo Positional Play de Guardiola e/ou a simples instrução de maior liberdade aos atletas, mas ao menos a qualidade no passe é visível. O time cresceu bastante nesse quesito nos últimos 18 meses e isso seria um fator importante com o novo treinador por aqui. Todos tocam bem e dominam em ball possession, mas precisariam de mudanças na filosofia em relação ao esférico - que deixaria de ser tratada como objetivo, tornando-se num meio capaz de criar superioridades. "Mova o oponente, não a bola" é uma frase conhecida do espanhol e tal conceito pode ser executado por vários nomes do plantel, falta o treinamento e a ideia exemplificada.


Como bem comentado por Javier Freitas no Manchester Connection, o Chelsea certamente não é o lugar mais apropriado para tal desenvolvimento de Pep. Basta levarmos em conta que ele encerrou seu vínculo com o Barça por divergências políticas com Sandro Rosell (& companhia) e motivos semelhantes tenham o influenciado a deixar os bávaros e chegamos a conclusão de que sua ideia é ter maior controle. E a casa perfeita para isso seria Old Trafford.


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Ander Herrera e Daley Blind seriam jogadores que se beneficiariam do jogo progressivo de Guardiola


É bem verdade que temos mais razões para criticar do que vangloriar o reinado dos Glazers, mas o fato de que os managers têm praticamente um acesso livre a todos os escopos da instituição esportiva é bem documentado. O foco dado por Ed Woodward, chairman e homem de negócios do clube, no setor extra-futebolístico (merchandising, branding, relações internacionais mundo a fora) também ajuda. Compare isso ao excesso de poder exercido por Roman Abrahmovic e Michel Emenalo nos Blues e fica fácil de nos escolher, ao menos nesse aspecto.


O City conta com Txiki Begiristain e Ferran Soriano, nomes de confiança de Guardiola devido ao entendimento na época de Joan Laporta no Barcelona, mas talvez signifiquem não apenas auxiliares - e sim um rabo preso desnecessário. Não no sentido de ver suas escolhas sendo abdicadas pelas dos outros, mas sim na liberdade parcialmente restringida para tratar de transferências e finanças. Nisso não posso me alongar muito pois quem realmente sabe são os que estão lá dentro e suposições detalhadas através de mais suposições não vem a calhar neste post.


Pep é conhecido por uma ignorante minoria como aquele cara que "escolhe’" os desafios mais fáceis em sua carreira. "Ah, ele é superestimado pois teve Messi, Iniesta e Xavi no Barcelona e agora conta com o melhor elenco no mundo em Munique", dizem. Espero que você, caro leitor, discorde dessa citação, mas assumir um gigante que está desestabilizado desde a saída de Fergie constituiria o cenário perfeito para calar tais mal faladas bocas. Chegar num clube que dá minutos no XI inicial para Marouane Fellaini e fazê-lo vitorioso no país mais competitivo do planeta e na Europa: está aí uma missão interessante e deveras provocante.


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Woodward (esq.) e Avram Glazer não exercem suas funções de maneira tão dominante e isso seria um ponto forte na negociação com o treinador


Temos estrutura, temos histórico recente de vitórias, temos a disposição por uma figura controladora e dominante. Além de bons jovens talentos, algumas peças que batem com sua filosofia e bastante dinheiro no caixa para uma sofisticação necessária do elenco. Outrora, Guardiola já provou-se entusiasmado com o United - tanto é que, no seu ano sabático, conversas leves com Fergie em relação ao cargo o animaram - e a torcida o acolheria de braços muito abertos. Toco nesse ponto pois, mesmo sendo difícil de acreditar, existiam resistências ao treinador na Allianz Arena - isso devido ao fato de que, antes de sua chegada, Juup Heynckes havia os levado à tríplice coroa.


No lado vermelho de Manchester não tem isso e contamos com um bom aspecto: sabemos equilibrar a liberdade para mudanças e a aceitação com possíveis deslizes com a leve pressão por resultados e, acima de tudo, competitividade. Um desafio e tanto - que certamente estimula a mente de Pep.