Newcastle 3-3 United: empolgação com um resultado ruim

Sensações estranhas e mistas foram desencadeadas após o jogo desta terça-feira. Viajar para enfrentar um dos piores times da liga e voltar de lá sem os três pontos na bagagem nunca será um resultado satisfatório para um clube desse porte (e investimento recente), mas certas coisas merecem o nosso destaque. Chega a ser peculiar dizer que não fiquei tão decepcionado com o placar, embora tenha reconhecido um time capaz de atacar e, acima de tudo, jogar em intensidade.


ESPN.com.br | Rooney dá show, mas United leva o empate no último minuto em jogo maluco


Das dezenas de problemas que são semanalmente detalhados aqui neste blog, o que deve deixar o torcedor mais incrédulo e descontente é a falta de empolgação. Tenho certeza que muitos de vocês perderam parcialmente o ânimo em sentar em frente à televisão e assistir ao Manchester United. Se na época de Sir Alex Ferguson acompanhávamos a equipe com gosto mesmo nos momentos difíceis, Van Gaal foi aos poucos apagando tudo isso.


Desde o início desta temporada, o tédio e o sentimento de mesmice eram fatores que imperavam. Não apenas por contabilizarmos records extremamente indesejáveis, mas também pelo fato de que tais números eram (e são) digeridos com um gosto amargo. Como questionar um zero a zero - de tantos - quando o que acontecera não passou do previsível? Era visível na linguagem corporal dos jogadores um medo de arriscar e falta de confiança que simplesmente são difíceis de engolir.


Se adaptar a alguns aspectos dos adversários e circunstâncias próprias é uma coisa, implementar uma filosofia que dificilmente dará certo no futebol moderno é outra. Para muitos, a informação básica de que reinamos na posse de bola já é o suficiente para concluir certa proatividade e intenções ofensivas. E isso não é verdade. As ações instruídas pelo chefe e executadas pelos atletas deixavam claro o negativismo na equipe por um motivo: a frequência. O cenário seria completamente diferente no caso de alterações táticas esporádicas, mas somos dia após dia testemunhas de um jogo chato e ineficiente.


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No sábado, diante do Sheffield United, acompanhamos mais uma partida ruim e vencemos por sorte; a imagem é do Fellaini pois ele representa a temporada do United


Em St. James Park, porém, tivemos muito daquilo que nos faz falta há um bom tempo. Ritmo acelerado em praticamente todos os setores, velocidade, pressão e, sobretudo, um propósito por trás dos passes. Ao contrário do que venho documentando recentemente, o time deixou de usar o esférico como objetivo para tratá-lo como um meio fundamental para alcançar o gol. Sempre falei que o pensamento do conjunto tem que ser mais "ousado" para que os tentos sejam consequência natural do desempenho em campo. E foi o que aconteceu desta vez.


Pra colocar as coisas sob perspectiva, a ausência de dois badalados nomes do XI inicial contribuiu para esse rendimento diferente (e melhor). Não apoiei a vinda de Bastian Schweinsteiger, reconheci sua importância em alguns momentos mas continuo com a visão de que o alemão é um empecilho dentro da nossa performance. Já somos um selecionado extremamente lento por diversas e infelizes razões, então qual a finalidade de contar com um meia injury-prone e pouco móvel na espinha dorsal? Não vejo explicações cabíveis, sinceramente.



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Chegamos ao fator Juan Mata. Esse é um que quase sempre defendi e alimento um apreço enorme para com suas qualidades, mas as atuações nos últimos 3 meses não podem o garantir entre os titulares. É surpreendente e animador ver que LVG se deu conta disso. O espanhol vem se acostumando a receber encaixotado pelas linhas rivais e, também por causa de falta de mobilidade, atrasar o andamento das jogadas. Ele pode ter começado 2015/16 como o homem mais produtivo do elenco, mas hoje não justifica nem um pouquinho uma fé muito grande a ser depositada em seus serviços.


Morgan Schneiderlin voltou ao first team e foi a força extrema de sempre; suas performances em altíssimo nível representam uma regra, não exceção, desde os tempos de Southampton então poucos devem ficar espantados. Se na frente do nosso back-four a movimentação super inteligente de Georginio Wijnaldum foi capaz de causar alvoroço, a contribuição do francês foi destacável algumas jardas a frente. Como o principal nome do nosso pressing, conseguiu parar lances dos Magpies ainda em fase embrionária e iniciar contra-ataques que deveriam ser aproveitados.


Outro que reapareceu foi Jesse Lingard, garoto que divide opiniões em Old Trafford desde que foi descoberto pela grande mídia. Particularmente, tenho a seguinte ideia: é um rapaz que passará longe de ser world-class e seu futuro provavelmente seja em agremiações de um escalão mais baixo, mas hoje tem seu valor e merece reconhecimento. Dentro do contexto melancólico e dorminhoco do United, o inglês nos dá uma imprevisibilidade necessária. Em vez de se posicionar de costas para o gol e pensar demais antes de agir, sua simplicidade - e velocidade - nos movimentos entra em cena. É aquela coisa de provocar pânico na defesa e buscar a meta independente de qualquer outro fator.


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Traços daquele Rooney, um dos melhores atacantes do mundo, foram vistos em St. James Park


O que falar sobre Wayne Rooney? Os últimos anos nos mostram raríssimos motivos para reverência e admiração, mas o capitão também merece elogios por sua atuação. Não vimos aquele Shrek de 2009 e certamente nunca veremos, dado às condições físicas decadentes e a queda na qualidade dos companheiros. Por outro lado, percebemos que ele ainda é capaz de utilizar sua inegável qualidade para o bem de si mesmo e da equipe. O que me leva a dizer isso é que a estatística de dois gols e uma assistência não foi o principal - mas sim parte de uma obra muito bem escrita.


Chances foram desperdiçadas? Sim. Mas só existiram pois soube identificar e explorar o espaço nas costas da marcação. O jogador se colocou em ótimas posições para receber a bola e isso é meio caminho andado para quem tem enorme capacidade técnica. A tranquilidade, frieza e inteligência no desenvolvimento do segundo tento nos apresentou o lado racional que ainda existe. Foi sua melhor partida desde a virada contra o Hull City no Boxing Day de 2014 e, sem dúvidas, um combustível renovado no motor. Nada melhor do que um North West Derby para alongar esse crescimento e consolidar-se em "boa fase", né?


Enfrentamos o Liverpool no domingo e, como provado em Newcastle upon Tyne, vontade, disposição e intensidade não faltarão para destronar nossos rivais em Anfield. Seis vitórias nos últimos 20 compromissos continuam consistindo em um número inaceitável e o desejo ainda é de #VanGaalOut, mas permitam-me o texto mais leve. Há muito tempo não surgia um esboço de emçolgação após assistir ao Manchester United.