Andreas Pereira, Van Gaal e os riscos de um 'Pogba 2.0'

O ano era 2011, o dia marcava a véspera do Reveillon. United e Blackburn se enfrentariam pela última rodada do primeiro turno da Premier League e a mídia especulava as prováveis escalações. Com mais de 7 jogadores no departamento médico e precisando de um novo gás na corrida pela liderança, muitos imaginavam que Sir Alex Ferguson recorreria ao meio que lhe deu tanto sucesso (além disso, foi a base para todo o seu trabalho): as categorias de base. Pois estavam errados.


Alguns meses antes, os garotos de Carrington haviam conquistado a FA Youth Cup, torneio júnior bem conceituado na terra da rainha. Nomes como Ryan Tunnicliffe, Will Keane e o mais do que talentoso Ravel Morrison faziam do time comandado por Paul McGuinness o melhor do país, mas uma peça chamava atenção: Paul Pogba. Tendo suas qualidades técnicas exageradamente reconhecidas, o porte físico - e o uso inteligente dele - dava a sensação para os scouts de que o francês poderia ser moldado num meia dominante de elite. Foi o que aconteceu, mas longe de Old Trafford.


Recapitulando a fatídica data supracitada, Fergie concluiu que o jogador não estava pronto e o deixou no banco de reservas durante os 90 minutos. Quem formou a dupla central naquela noite? Rafael e Park Ji-Sung. Ok, ambos não eram nem são atletas fracos - e contam com o apreço da torcida até hoje -, mas fragilizaram o conjunto num compromisso que se provou decisivo em diversos aspectos. Terminamos com menor posse de bola, como podíamos prever pelo 11 inicial, e a derrota por 3 a 2 dentro do Teatro dos Sonhos. É difícil - e raso - basear-se no hipotético, mas quem pode descartar que, fosse Pogba selecionado, teríamos o título em 11/12 e o jogador ainda em nosso domínio?


Digo isso pois aquela foi a marcante campanha em que o troféu foi decidido no saldo de gols. Etihad, Queens Park Rangers, Agüero nos acréscimos… não preciso me alongar, né? Você deve lembrar. Ao mesmo tempo em que perdemos diante dos Rovers, o City também era derrotado - 1 a 0 para o Sunderland, no Stadium of Light. Assumiríamos a primeira posição com um resultado positivo e a recompensa final poderia ser diferente. De qualquer maneira, vamos manter o foco no individual: a não escalação do atual meia da Juventus foi a gota d'água para o próprio e seu agente, o polêmico Mino Raiola, forçarem uma transferência. Algumas semanas se passaram, a Vecchia Signora mostrou interesse, levou o atleta e nos deixou com £800 mil de compensação e mãos abanando.


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Pogba era visto como o provável sucessor de Scholes por quem estava dentro e fora do clube


A que ponto quero chegar com essa introdução enorme? Na situação atual de Andreas Pereira, o belga-brasileiro que concedeu uma entrevista razoavelmente preocupante nesta quarta-feira. Não para ele, é claro, mas sim com vista no seu possível rendimento no time - que pode estar sendo desperdiçado. Como qualquer jovem de sua idade (20), o meia está de olho nas Olimpíadas do Rio e reconhece que, para ser convocado, precisa de minutos em campo. Não só com esse fim, é claro - afinal de contas, jogadores só serão desenvolvidos a partir do momento em que ganham sequência (e a paciência de mídia/comissão técnica/torcida é fundamental nesse aspecto).


"Sou um jogador do United, mas leio na imprensa que existem vários times interessados. Estou trabalhando para ganhar mais oportunidades e não sei se o clube quer me emprestar, a decisão é deles", disse. É visível que sua atitude é bem mais controlada do que a do extravagante e excêntrico Pogba, mas pode chegar a hora em que atleta e agente decidam que Manchester não representa mais um bom lugar. E Van Gaal tem que tomar conta disso. Renomado por dar chance a diversos youth prospects independente das circunstâncias, o holandês vem ignorando o mais talentoso dos nossos garotos.



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Já falei e repeti várias vezes por aqui, mas não custa tocar na mesma tecla. Com a bola nos pés, Pereira é um dos jogadores mais criativos do elenco (contando o first team, reserves e u-21/19) e sem dúvida alguma daria um algo a mais para a equipe. O nosso maior problema é a previsibilidade e a mesmice nos movimentos (esses que são pouco inteligentes, aliás), então por quais motivos um playmaker móvel, dinâmico e expressivo simplesmente não recebe as chances que merece?


Para colocarmos tudo isso sob umas perspectiva exata, vejamos os números. Andreas tem míseros 78 (setenta e oito!) minutos totais no Inglês 15/16, isso distribuído em três partidas diferentes. Mesmo sem tempo e sequência, suas médias agradam; 1 key pass (o 4º melhor no plantel, atrás apenas de Rooney, Mata e Martial) e 1,3 dribles (3º) a cada jogo que participa. O camisa 44 é o mais preciso nos cruzamentos, com 1,3 atingindo o alvo e 2,3 não; Ashley Young contabiliza 0,7 e 4,1, respectivamente. Ah, apesar de jogar atrás do atacante, ele também soma 0,3 em interceptações (nosso "interior", Marouane Fellaini, tem 0,5).



O fato é que praticamente nenhuma peça ofensiva faz por merecer uma vaga garantida entre os titulares. Wayne Rooney colecionava performances dignas de Championship até o início de 2016, Jesse Lingard tem seus pontos fortes (verticalidade e intensidade) mas não tem a qualidade que deveria ser necessária para um time que almeja títulos e por aí vai. Juan Mata é admirado por este que vos escreve mas faz uma campanha bem abaixo do que pode render e ultimamente vem sendo apenas mais um na estrutura rígida e mecânica do boss.


Anthony Martial é outro que começou com tudo mas amargura uma inconsistência natural e não devemos depositar uma responsabilidade muito grande nele. No geral, Memphis decepciona, mas tem futebol de sobra e entrou bem nos últimos 3 compromissos; de qualquer maneira, é mais um que não encontra solidez. Ou seja: ninguém conseguiu se destacar lá na frente durante esses 5 meses e alguns dias de temporada. As atuações de Andreas, tanto nos times de base (apreciem esse lance dele na vitória por 4 a 1 sobre o Southampton, na terça) quanto no Mundial Sub-20, onde aos poucos foi conquistando o público e Rogério Micale, então treinador do Brasil, deveriam garantir ao menos uma sequência decente.


Ele realmente não é dos mais propícios a se encaixar em sistemas ultra mecanizados e passar a bola apenas por medo de perdê-la, Van Gaal. E é por isso que o senhor deve utilizá-lo. Podemos não subir de patamar com somente uma alteração, mas o que custa um pouco de risco para quem permanece estagnado há um bom tempo? Fará bem ao atleta, ao selecionado de seu país e, sobretudo, ao Manchester United. Que o temor de um "Pogba 2.0" supere sua entediante teimosia.