Blind, Vidic e a merecida vitória do United na FA Cup

Em alguns aspectos da vida, a unanimidade costuma ser ignorante e rasa. No futebol, porém, existem muitos clichês que ainda possuem um grande fundo de verdade. A máxima de que defesas ganham campeonatos é um deles. Soa até contraditório falar disso em uma temporada em que estamos desesperados por uma evolução no poder ofensivo, mas espero que vocês tenham entendido.


Toco nesse ponto pois na manhã desta sexta-feira (29), um dos grandes zagueiros da história recente do esporte anunciou sua aposentadoria. Nemanja Vidic, que havia rescindido seu contrato com a Internazionale na última semana, confirmou que pendurou as chuteiras por meio de uma breve carta de despedida no site oficial do United. No futuro pretendo dedicar um post mais elaborado ao sérvio, mas hoje não posso deixar de prestar as homenagens para um verdadeiro ícone do clube.


O jogador chegou ao United quebrando um dos paradigmas anteriormente criados por Sir Alex Ferguson - o de que contratações feitas em janeiro significavam desespero e raramente dava certo. O chefe reiterou em diversas oportunidades o seu desprezo para com a janela de inverno, mas nessa época do ano, em 2006, acabou fechando um par de negócios que podem ser considerados os melhores de sua carreira: Patrice Evra, vindo do Monaco por £5 milhões, acompanhou Vida, cedido pelo Spartak Moscou em troca de míseros £8M. Dizem que ele ainda recusou o Liverpool para acertar conosco. Mais um ponto a favor.


Getty Images
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Vidic chegou sem muito barulho e era visto como uma compra de desespero, mas acabou se tornando em um ícone do clube


A ida ao Old Trafford não foi apenas para o melhor dos interesses próprios do atleta, mas sim agregadora em escopos micro e macro sistemáticos. Tivemos um upgrade no miolo de zaga - tanto é que a imbatível dupla formada com Rio Ferdinand segue como uma das maiores de todos os tempos; no back-four como um todo, com Nemanja se especializando em cobrir eventuais buracos abertos pela sagacidade de Evra; no desempenho de Edwin van der Sar, que se tornou ainda mais dominante com a proteção renovada; e, obviamente, no 11 inicial completo.


Enquanto Vidic defendeu nossas cores, 15 taças foram adicionadas à galeria do Teatro dos Sonhos: cinco títulos da Premier League, 3 da Copa da Liga, 5 Community Shield's, uma Liga dos Campeões e um Mundial de Clubes. O defensor foi o capitão de uma das fases mais marcantes da agremiação e fez parte de um par incontestável. Mas individualmente também não deixa a desejar, contabilizando records bem respeitáveis. Foram 211 jogos de Campeonato Inglês e 149 (!) vitórias, contando ainda com 95 clean sheets, dois prêmios de melhor jogador da temporada, duas seleções para o Team of the Year e a presença na equipe ideal da história da competição.


Costumam dizer que Vida era a cabeça e Rio o cérebro daquele ilustre dueto, mas resumi-lo assim é uma grande injustiça. O camisa 15 era dono de uma leitura de jogo bem acima da média e sabia se posicionar como poucos, mas de fato fazia uso de tais atributos com uma dose considerável de brutalidade e vontade. Mario Balotelli e Kyle Walker que o digam. Enfim, é irônico que a trajetória daquele rapaz primeiramente visto como uma panic buy tenha chegado ao fim justamente na winter transfer window. O certo é que deixará saudades - não tanto em Milão, onde fez apenas 28 aparições pelos nerazzurri, mas com um espaço garantido no coração mancuniano.



Nemanja, ohh, Nemanja, ohh
He comes from Serbia
He'll fuckin' muder ya
Nemanja, ohh, Nemanja, ohh




Vamos para o jogo desta noite. 


ESPN.com.br | Com golaço de Rooney, United cresce no segundo tempo e avança na Copa da Inglaterra


Apesar da escalação duvidosa, o United fez um bom primeiro tempo. Os minutos iniciais foram de estudo para ambos os times e os comandados de Van Gaal não demoraram tanto para identificar os pontos fracos do adversário. O Derby, que é treinado por Paul Clement, ex-assistente de Carlo Ancelotti no Chelsea, Paris Saint-Germain e Real Madrid, mostrava traços da filosofia angariada do italiano.


Era visto um futebol um pouco mais burocrático do que o habitual no Pride Park - o time dos Rams é o segundo que mais fica com a bola na Championship -, com a posse cedida tranquilamente e um foco no controle do espaço, que daria errado. O contra-ataque era o principal (talvez único, considerando que faltas/escanteios foram raridade) artifício deles, mas a inteligência e a energia de Schneiderlin fizeram com que tal arma fosse praticamente anulada.


Com duas linhas de quatro postadas no próprio campo (e um 'volante', Thorne, entre elas), o propósito dos anfitriões era aproveitar-se da nossa falta de fluidez e movimentação errática. O padrão nesta temporada está sendo o triunfo de conjuntos melhores ou piores contra um United dominante apenas na ball possession, sem conteúdo por trás dela; então o sistema adotado pelos rivais era completamente compreensível e até mesmo favorável para os mesmos.


Entretanto, nosso rendimento ofensivo veio como um choque para todos (acho que nem mesmo comissão técnica não apostava nisso). Pudemos observar algo muito maior e mais produtivo do que a bagunça corriqueira; quando Morgan recuava entre os zagueiros, Borthwick-Jackson (esq.) e Varela (dir.) subiam e colavam na linha lateral para espaçar os blocos oponentes e, surpreendentemente, Marouane Fellaini (!) e Juan Mata tiraram proveito de tal situação. Com corridas coordenadas e bem pensadas, um deles sempre aparecia para direcionar as jogadas.


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Além de entrarem para a lista dos artilheiros, Blind e Mata foram cruciais no desenvolvimento do jogo


A partir daí, o caso mais frequente foi a bola diagonal (ainda pouco ou razoavelmente aguda, colocada mais nas costas ou no pé do receptor do que no espaço à frente) para Martial ou Lingard, com o primeiro participando bastante. Entra, outra vez, a figura do nosso armador espanhol; o camisa 8, que vem de um desempenho pífio quando joga caindo pelo flanco, foi centralizado e elevou o rendimento do conjunto.


Foi ele o responsável pelo link-up play tão desenvolvido na entrada da área. Para resumir, Mata agiu como o foco do ataque, sendo a cola que grudou as peças outrora desnecessariamente espalhadas. Algo parecido com o que acontecia esporadicamente nos tempos de David Moyes, quando Juan era o único a conseguir tirar leite da pedra dos nomes mais periféricos. Precisamos essencialmente manter isso no restante de 15/16.



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Outras figuras também tiveram suas parcelas de importância nesse jogo mais refinado do United. Wayne Rooney manteve a boa forma recente e certamente é um motivo para otimismo. O Shrek se mostrava presente e efetivo nas supracitadas triangulações e esteve mais ágil do que o normal, capitalizando tudo isso com um golaço à la velhos tempos. Acredite ou não, Lingard foi crucial para pintarmos o cenário contado nos dois últimos parágrafos. Explicarei.


O inglês, apesar de não ser um exemplo em ler a partida com a mente (passa longe disso, na verdade), fez com que sua ingenuidade e verticalidade colaborasse em outras áreas. Ao pouco se mexer lateralmente e trabalhar como o estereótipo do winger britânico, Jesse atraía os olhares e o esforço de dois, três, até quatro adversários na direita e permitia que criássemos superioridade numérica e posicional entre o centro e o lado esquerdo (o chamado halfspace). Essa parte foi extremamente explorada e dois tentos foram provenientes de lá. O alto posicionamento de Varela claramente ajudou nisso, é bom citar.


Reprodução/Spielverlagerung
Reprodução/Spielverlagerung

O halfspace voltou a fazer parte do jogo do United; aquela área na direita, entre o centro e a ponta, foi a mais explorada pelo time


Antes de finalizar, preciso comentar sobre um dos jogadores mais subestimados não apenas no elenco, mas sim na Europa: Daley Blind. O holandês é provavelmente a nossa peça mais completa e familiarizada com o jogo moderno. Atuando como zagueiro, desempenha função parecida com a de um quarterback no futebol americano; é quem mais pega na bola (snaps), capaz de ler o sistema rival e prever os movimentos dos mesmos (utilizando do bom poder de comunicação para alterar o formato do time, como um audible) e iniciar praticamente todos os ataques da equipe decidindo o que vamos fazer (play-action).


Não entendeu os termos? Entra aqui no guia da ESPN e já aproveita para se preparar para o Super Bowl. Enfim, na falta de um pivot com visão apurada (Schneiderlin não se encaixa muito nessas características e Carrick, que seria esse homem, vive no departamento médico), Blind se responsabiliza por armar lá de trás e, sem a bola, aparece na frente quando vê a oportunidade - não toda hora, ok, fãs do David Luiz? Hoje, marcou o gol que desempatou o jogo e consolidou nossa classificação para a quinta rodada da FA Cup.


Nada mais conveniente do que nosso zagueiro esquerdo brilhar no dia da despedida do antigo dono da posição e certamente uma inspiração para o atual. Um dia de boas lembranças e bons sinais do Manchester United.