Lingard, Mourinho e o empate amargo do United

Tem vezes que o futebol nos dá um gosto muito amargo, né? Jogando em Stamford Bridge, o United continuou a boa sequência no quesito desempenho e apresentou sinais bem agradáveis para o torcedor. Estamos atacando com mais fluidez, os passes agora parecem carregar um propósito, Darmian melhora a cada dia e... mesmo assim saímos sem o triunfo. Já nos acréscimos, após uma bola crucial ser desperdiçada por Memphis (que não merece ser culpado isoladamente), Diego Costa marcou e definiu o empate em Londres. É triste? Sim. Mas acontece. Não podemos fazer tempestade em copo d'água. 


ESPN.com.br | Com Pato na arquibancada, Chelsea fica no empate com United e reclama da arbitragem


Que o rendimento do conjunto se desenvolveu consideravelmente nos últimos jogos - tirando aquela derrota para o Southampton - ninguém discorda. Mas isso não significa que Van Gaal deva parar de buscar um algo a mais em cada setor do campo e a vaga fixa de Fellaini me dá preocupações nesse sentido. Na semana passada, frente ao Stoke, o belga realmente não foi o poste nulo que costuma ser. Ponto. Entretanto, nada justificava mais uma partida entre os titulares.


Tal panorama foi exemplificado no segundo minuto: por meio de uma boa e rápida toca de passes diagonais, alcançamos o último terço e Lingard colocou Fellaini no halfspace direito. Um canal se abria entre Azpilicueta e Terry, Mata se posicionava na meia-lua e tínhamos tudo para construir uma chance de gol. O meia mandou a bola sem direção pra dentro da área na espera de uma aparição surpresa de Wayne Rooney e o lance foi jogado fora.


Continuando, nossas primeiras ações agradaram bastante. Como previsível após Nemanja Matic e Mikel serem escalados no double-pivot, os Blues encontravam enormes dificuldades pra sair jogando lá de trás e o pressing do nosso quarteto ofensivo + laterais foi executado com precisão. A distribuição mais refinada das peças no ataque ao lado dessa agressividade nos rendiam bons frutos e os nomes mais qualificados tinham bastante da posse.


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Darmian foi um dos melhores em campo e aos poucos vai voltando ao nível apresentado em seus primeiros jogos


Já que a saída pelo chão estava impossibilitada pela própria ingenuidade de Guus Hiddink, a válvula de escape para os anfitriões nos remetia àquela fórmula outrora infalível e executada com perfeição na primeira metade de 14/15. Cesc Fabregas recuava mais do que o normal, muitas vezes coletando o esférico direto dos pés dos zagueiros e lançando em profundidade para Diego Costa. No entanto, o espanhol provou que não anda muito calibrado e todas as tentativas eram em vão.


O surpreendente e regular Cameron Bortwick-Jackson contou com o auxílio de Michael Carrick para, a princípio, reduzir o impacto do atleta mais consistente deles. Willian frequentemente é o motor do time e pode causar problemas para qualquer defesa, mas não encontrava espaço e a ausência de Eden Hazard (que naturalmente atrai a marcação do rival) contribuiu para tal afunilamento.Na realidade, apenas em uma oportunidade dentro dos 45 iniciais o brasileiro conseguiu carregar a bola até uma parte perigosa do gramado. Naquele lance, foi identificada certa passividade de Mata no ato da pressão e as costas foram exploradas devido a lentidão da nossa dupla central.


A partir do minuto 30, o cenário foi outro e os donos da casa passaram a ter o controle. A explicação é simples e nos leva de volta às duvidosas escolhas do boss no starter XI. Qualquer pessoa com o mínimo senso de discernimento do esporte sabe que a pressão alta passa a ser insustentável a partir do momento em que os jogadores começam a sentir a fadiga pesar. E nosso estilo de jogo é muito dependente de tal artifício. Aquela pressa sem bola inicial se afrouxou e isso acabou sobrecarregando Carra e Fella.


Enquanto o inglês tem um QI altíssimo e sabe proteger o back-four como poucos, a idade começa a bater na porta e sua falta de vitalidade nos faz precisar de uma ajuda reforçada ao lado. E, como todos sabemos, o camisa 27 de quase dois metros é mais ineficaz do que uma árvore (as semelhanças visuais não são coincidências). Como o campo é um tabuleiro e tudo está interligado, essas falhas alavancavam outras.


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Fellaini mais uma vez foi pouco produtivo e ''ajudou'' a sobrecarregar o qualificado, mas já veterano Carrick


Os homens de defesa percebiam que estávamos sendo superados nas entrelinhas e, esporadicamente, saiam de forma descontrolada da posição para tentar um desarme mais à frente. Isso abria brecha para que um simples 1-2 fosse o suficiente; o Chelsea finalmente conseguia se aproximar da meta. As falhas de finalização de Oscar & Cia., porém, junto com a segurança apresentada por De Gea, fizeram com que os danos se amenizassem.


Jesse Lingard.


O garoto é provavelmente o segundo jogador que mais recebe críticas por parte da torcida, da imprensa e dos neutros em geral e creio que 95% desses o querem ver bem longe. Pra ser sincero, nunca entendi toda essa falta de apreço para com ele. O inglês certamente não é um poço de qualidade técnica e existem boas chances de que sua carreira não passe de aceitável. Hoje, porém, o que ele tem pra oferecer ao conjunto é visível.


Vou tocar na mesma tecla pela trigésima vez. É melhor ter uma peça conhecida por desperdiçar chances bobas do que alguém incapaz de se colocar em boas posições. Pense comigo da seguinte maneira: uma oportunidade só é criada se o eventual receptor da bola se movimentou de forma inteligente para tal. Não basta só um pé de anjo com visão de jogo 20 no Football Manager se os seus companheiros não conseguem produzir corridas agudas em direção ao alvo.


Lingard faz exatamente isso. Sua ingenuidade e o repertório raso a disposição fazem com que seu jogo baseie-se em características cruas e pouco complexas. Abriu um corredor entre oponente X e Y? É pra lá que ele vai, puxando alguns marcadores e desestabilizando as linhas ou de fato recebendo o passe para tentar definir. Não temos grandes nomes no elenco e até mesmo os mais caros andam errando em grande dose nesta campanha. Portanto, falamos de um jovem que continua entre os principais por meritocracia. O gol, que nos garantiria a vitória, sela essa fase animadora.


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Contando com outra boa partida de Rooney e Mata ao seu lado, Lingard foi importante ao marcar o gol que quase nos deu a vitória


Ah, falar que a evolução individual de Rooney coincidiu com a boa forma da equipe é chover no molhado. Não podemos - nem devemos - isentar o capitão das reclamações pelo primeiro turno, mas é impossível não reconhecer que ele voltou a ser peça chave no quebra-cabeça vermelho. 


Por fim, com a rodada de número 25 finalizada, temos mais 13 jogos pela frente e uma diferença de 6 pontos pra tirar em busca do nosso objetivo mais plausível - a vaga na Liga dos Campeões por meio da Premier League. O Leicester está praticamente garantido no top four e, ao que tudo indica, o Tottenham seguirá o mesmo caminho. Arsenal e Manchester City, respectivamente terceiro e quarto colocados, têm um time superior ao nosso e são favoritos para preencher o grupo. Ou seja: precisaremos de algo inimaginável (mas não impossível) para cumprir a mais básica meta doméstica inicial. 


Sobra a Europa League, que nos trás o FC Midtjylland em duas semanas. Se dedicar exageradamente aos jogos das quintas fará com que nosso plantel se desgaste e deslize ainda mais na Liga? Provavelmente. Por outro lado, o título da competição nos daria a vaga na UCL e um dinheiro extra que os Glazers e Ed Woodward não ignorariam. Que Van Gaal aproveite e faça de tudo para buscar a taça, já que... 


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Mou, que é especulado no United desde sua saída do Chelsea, estaria cada vez mais próximo de um acerto


O cargo de treinador e suas nuances já foi tema de inúmeros posts aqui no blog e só pretendo fazer o próximo quando algo concreto for anunciado, mas vale ressaltar algumas coisas. Nas últimas duas semanas os rumores envolvendo José Mourinho com o United cresceram de forma exponencial e, se até quarta-feira (3) poderiam não passar de click-baits de veículos sensacionalistas, agora ganharam solidez.


Isso porque o mais do que confiável Gianluca Di Marzio, jornalista da Sky Sports Itália, informou em seu site pessoal que o gajo e representantes do clube vêm se encontrando há algum tempo e a negociação parece estar em seu estágio final. Guillem Balague, que dá umas presepadas mas no geral tem um bom índice de acerto nos furos, trabalha pra inúmeros jornais e corroborou com as supracitadas informações, adicionando o fato de que o português está extremamente interessado.


Apesar de consistirem em fontes menos esclarecedoras, os espanhois Marca, El Confidencial e Cadena Cope também noticiaram com firmeza o provável acerto entre as duas partes. Na sexta (5), a BBC entrou no jogo com a história de que nomes dos red devils teriam se encontrado com agentes do manager. O conhecido tabloide britânico, em matéria assinada por Dan Roan e Simon Stone, foi além e afirmou que Ryan Giggs não estaria tão disposto a trabalhar com José, ao contrário do que aconteceu nas passagens de David Moyes e Van Gaal.



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A verdade é que isso passa longe de ser algo ruim. Nesse momento, o galês visivelmente não é a pessoa certa para assumir uma bronca tão grande quanto a nossa e com certeza se beneficiaria de um tempo como o número 1 em outra equipe. Recentemente o Celtic foi apontado como um possível destino para ele e, apesar de este que vos escreve não apostar em tal transferência, indubitavelmente um eventual mandato nos Hoops representaria o teste ideal.


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Ryan Giggs e Mourinho lado a lado na área técnica? Provavelmente apenas como rivais...


Por lá, encontraria pressão por resultados, certa liberdade em suas ações e um passo alinhado com sua trajetória. Vejam o que está acontecendo com Gary Neville no Valencia - pegar o elevador para um posto que deve ser alcançado por meio da escada não é uma coisa tão recomendável no cruel e competitivo mundo do futebol.


Enfim, está cada vez mais claro - e curto - o caminho entre Mou e Old Trafford. É impensável que nosso chefe atual cumpra seu contrato (até junho/2017) e a posição deve ficar livre ao final desta temporada. A não ser que um milagre aconteça, a pre season 16/17 não será comandada por LVG. E, ao que tudo indica, o Special One será o substituto. Para voltarmos a ser uma potência de maneira inteligente, mas não tão sistemática e lenta, sua contratação não deixaria a desejar em nenhum aspecto.