Mais um passo firme de Van Gaal a caminho da demissão

O jogo não poderia ter começado pior. Até que nossa circulação da bola foi agradável nos primeiros momentos, tendo como foco o sempre muito explorado flanco esquerdo. Uma falta boba na intermediária de defesa, porém, se provaria crucial. Wahbi Khazri, uma das caras novas dos Black Cats, centrou despretensiosamente e acabou balançando as redes. A passividade dos homens na área e de David De Gea custou caro.


ESPN.com.br | Na bola parada, Sunderland quebra tabu de 19 anos, vence e complica United e Van Gaal


Pela qualidade técnica elevada em comparação ao adversário, a estratégia geral e a necessidade imposta pelo setback inicial, controlamos a posse. O problema é que, como costumo repetir por aqui, ter o esférico não significa dominar todas as ações. O elenco dos donos da casa não é dos mais respeitáveis e Sam Allardyce, o treinador, tem diversos defeitos.


O que não podemos negar, porém, é que confrontos diante do United foram, são e sempre serão combustíveis de confiança para qualquer um. A impressão é que os rivais passam a dar 110% de seus respectivos potenciais quando nos enfrentam - ainda mais numa época de vagas magras, em que sair triunfante não é lá das coisas mais complicadas. Portanto, vimos o manager old-school deles agir de forma inteligente.


Getty Images
Getty Images

Ao contrário do que suas grifes, currículos e investimentos sugeriam, Big Sam saiu por cima de Van Gaal neste sábado


Com duas contratações recentes (o supracitado Khazri e Dame N'Doye) fazendo companhia ao constantemente perigoso Jermain Defoe lá na frente, o plano foi fechar a casinha no próprio campo e confiar no trabalho do sedento e agressivo trio para puxar os contra-ataques. As aparições surpresas do eficiente lateral Van Aanholt também eram usadas como artifício secundário e válvula de escape para os momentos em que nosso double-pivot cumpria bem suas funções.


Ao contrário do que fazia em seus primeiros compromissos no Stadium of Light, Big Sam deixou o back-5 e os alas de lado para escalar sua equipe num mais convencional 433/4141. Esses numeros consistem apenas na a base posicional, porém; o que realmente importa são os movimentos e padrões gerados a partir deles. O versátil Jan Kirchhoff, ex-Bayern de Munique, foi utilizado como um volante (o 'um' entre os 'quatro') enquanto trocávamos passes laterais antes do último terço e recuava entre os zagueiros quando conseguíamos furar as ondas de marcação. Ainda na primeira etapa, por outro lado, o alemão se contundiu e foi substituído pela antiga promessa Jack Rodwell.


Como isso era possível? Por meio do caminho mais comum em 2016. Daley Blind agia como nosso quarterback e direcionava as jogadas desde o halfspace esquerdo, tendo como principal alvo o cada vez melhor Juan Mata. O espanhol era o único capaz de receber os laser-passes do holandês e, de novo atuando atrás do atacante, criava uma ou outra situação de perigo. Quando nenhuma lacuna era encontrada, a bola naturalmente ia para Anthony Martial - que também teve bom desempenho e, como esperado, aterrorizou os defensores; na hora H, porém, faltava o produto final.


A movimentação mais limitada de Wayne Rooney foi um dos fatores que ajudou para isso. O capitão, que coleciona bons rendimentos desde a virada de ano, ficou muito encaixotado na área e não contribuiu tanto com suas corridas. Ironicamente - ou não, dado que uma instrução tática sempre carrega um objetivo consigo -, o gol de empate só foi possibilitado pela fixação do avante lá na frente.


Getty Images
Getty Images

Rooney teve sua atuação mais discreta em 2016, mas ainda assim merece créditos junto com os outros dois


Já que seus recuos eram extremamente esporádicos, os dois zagueiros permaneciam nas suas costas e não tinham a audácia de tomar atitudes mais agressivas e tentar desarmes na meia-lua. Isso abriu espaço pra Mata, que aproveitou passe desviado e bateu com categoria; Mannone deu rebote e Martial estava lá para, com uma cavadinha, igualar.


Algo que não me deixou muito contente foram as constantes (não tanto, mas com mais frequência do que o normal) aparições de Jesse Lingard pelo centro. Todos sabem que sou um patrocinador declarado do jogador, mas suas características o limitam. E LVG deve saber disso.


Defendo sua titularidade pelo fato de que, com seus traços pouco complexos e bem ingênuos, ficamos mais diretos e conseguimos causar superioridade com peças mais desenvolvidas em outros setores. O garoto claramente é 'cru' em demasia e não deve ganhar confiança para influenciar a parte mais importante do tabuleiro; deixe-a para os 'peixes grandes'.


Matteo Darmian se machucou novamente. Não surpreende, né? O italiano vem acumulando lesões durante a temporada e teve numa queda de mau jeito (com seu peso caindo por cima do ombro) seu último pesadelo. Nas partidas mais recentes o rendimento do lateral havia crescido e o nível estava próximo daquele visto quando desembarcou em Manchester, mas o fato é que nesta manhã ele vinha abaixo.


Getty Images
Getty Images

Após dividida no ar, Darmian deslocou o ombro e, conforme confirmado por LVG, ficará de molho por 'várias semanas'


Pouco seguro na defesa, sendo facilmente desestabilizado pela movimentação aguda dos adversários, também deixou a desejar lá na frente. Em diversas oportunidades recebeu em boas posições mas decepcionava nos cruzamentos/dribles. Quem entrou em seu lugar foi Donald Love, de 21 anos. O jovem é LD de origem mas de vez em quando quebra um galho na zaga - o apreço do boss por ele, então, está explicado. Sua atuação, cheia de ultrapassagens perigosas e uma combatividade impressionante, agradou bastante. Mais um nome para mantermos debaixo do olho.


Aquele jogo mais duro foi deixado pra trás depois do 1 a 1. Rooney passou a participar das jogadas em sua criação, Carrick e Schneiderlin chegaram mais a frente e a fluidez aumentou. O problema é que, os mesmos meias, quando posicionados mais próximos da própria meta, eram menos agressivos e davam brechas ao Sunderland. Por questão de centímetros Defoe não foi às redes em lance de pura identificação de espaço por parte de seus companheiros.


Memphis substituiu o errante Lingard e o panorama do nosso ataque mudou. O camisa 7 imediatamente foi para a esquerda e fez com que Martial trocasse de ponta. Os laterais passaram a subir mais, Blind chegava a integrar o meio-campo em certos momentos e Mata também caiu mais pela direita. Entretanto, faltava energia vindo de trás. Morgan oferecia isso no pressing mas, como é de conhecimento geral, sua técnica não é das mais apuradas. Carra mostrava eficiência, mas agia muito longe do gol. O porquê de Herrera continuar no banco eu não sei.


Getty Images
Getty Images

Uma imagem bagunçada para ilustrar a desorganização que foi o United na bola parada


O desempenho do United na bola parada merece um capítulo à parte. Que coisa sofrível. Num mix de marcação individual e zonal, os atletas pareciam não saber exatamente o que fazer e agir mais por impulso e desespero do que qualquer outra coisa. Faltou planejamento contra um dos homens que mais sabe explorar tais jogadas na Inglaterra - Allardyce. Por favor, não culpem um ou outro nome. Smalling, Dave, Martial… todos poderiam ter feito melhor. 


Se devemos responsabilizar alguém pelo record ridículo nesta campanha, esse rapaz atende pelo nome de Louis Van Gaal. São míseros 41 pontos após 26 rodadas (ou seja, 78 disputados). Aquela deprimente equipe comandada por Davidi Moyes em 2013/14 contabilizava 42 nesta altura do campeonato. E achávamos que não poderia piorar - que inocência. 



Curta o Stretford End no Facebook



Como venho falando, já falhamos miseravelmente nos objetivos dentro da Premier League. O título, que chegou a ser um sonho plausível, está fora de cogitação; a vaga na Champions, que é obrigação para um clube com esse investimento, elenco, receita e tamanho, fica cada vez mais longe e improvável. Portanto, o foco tem que estar na Liga Europa - na quinta-feira enfrentamos o FC Midtjylland pelas oitavas e um resultado positivo é crucial. 


De qualquer maneira, uma quase certeza (se é que isso existe) é a troca no comando técnico. O caminho está cada dia mais aberto para José Mourinho e, como comentei no último post, devemos comemorar e confiar na sua chegada.