Memphis Depay ainda é o futuro do Manchester United

Quando Memphis Depay levantou a taça da Eredivisie 2014/15 e, de quebra, sagrou-se o artilheiro isolado da competição, sua posição entre os hot prospects do futebol era uma das mais altas possíveis. Praticamente ninguém questionava os atributos do holandês, pois eles casavam com atuações consistentes e bons números. Ed Woodward apareceu com 25 milhões de libras, porém, e o panorama mudou.


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Também com o fator Copa do Mundo ao seu lado - o desempenho foi muito bom para um garoto de, na época, 20 anos -, o winger (ou inside forward, se você joga Football Manager) chegou com um fuss enorme. Abrem-se longos parênteses para um breve perfil.


No seu país natal, já o conheciam como uma personalidade extremamente forte e capaz de bater de frente com qualquer um. Muitos diziam que egocentrismo e um grande senso de individualidade andavam junto consigo há algum tempo.


Isso parcialmente se confirma, e provavelmente com argumentos e justificativas bem plausíveis. O holandês nasceu e deu os primeiros passos na vida em Moordrecht, modesta e calma vila sulista, mas nem tudo foi tranquilo a partir daí. Seu pai, natural de Gana, abandonou a família quando o agora jogador tinha 4 anos e nunca mais apareceu. Consequentemente, Memphis se aproximou ainda mais de seu avô, que acabou falecendo em 2009. É por causa dessa conturbada história que o sobrenome não aparece na camiseta.


Tendo em vista as dificuldades que o acompanharam desde a infância, o atleta teve que tirar confiança e motivação de tudo que é coisa e se tornou neste excêntrico indivíduo. Ousado, diria Neymar Jr. O craque do jogo desta quinta-feira conta com uma tatuagem audaciosa na parte de dentro dos lábios - "dream chaser" é o desenho. Para corresponder com sua trajetória, a estadia em Old Trafford não vem sendo das mais fáceis.



Depay desembarcou na Inglaterra com a missão de atingir as expectativas que já eram grandes e cresceram após o clube conceder o histórico número 7 para ele. Enquanto sua habilidade nos deixava extremamente otimistas, as primeiras aparições trataram de diminuir um pouco esse apreço. Ok, sua pre-season foi boa - quando teve, majoritariamente, papel de segundo atacante atrás do centroavante -, mas, na hora que o bicho pegou na Premier League, nada aconteceu.


Foi assim pelo restante da campanha, na verdade. Excetuando uma partida ali e outra aqui (praticamente os embates dos playoffs da Champions e do mata-mata da Europa League), suas atuações eram extremamente frustantes - essa é a palavra certa para usar. Todos sabiam que as ferramentas e a vontade existiam, mas o jogador se atrapalhava nas ações e pouco ajudava no plano geral do conjunto.



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O fato é que Memphis precisa de espaço e liberdade dentro de campo (mas não tanto tempo com a bola nos pés). Na última Liga antes de sua transferência, ele floresceu completamente pois as circunstâncias permitiram isso. Sendo uma peça que mostra o seu melhor quando correndo de frente para os marcadores adversários, também contou com artifícios usados pelos companheiros a seu favor.


A primeira coisa a se considerar é a estratégia geral das equipes. Aqueles comandados por Phillip Cocu ficavam extremamente contentes ao abdicar da posse, marcar em zona num bloco médio - nada tão agressivo, mas longe de passivo - e focar em contra-ataques. Que contraste para a posição que vive agora, né? Van Gaal pede controle total do esférico e ocorrem muitos passes laterais, pouco agudos e sem propósitos. Isso faz com que os pontas passem a maior parte do tempo de costas para o gol e já deixa o cenário bem diferente.


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No PSV, Memphis contava tinha a estratégia de Cocu e o total entrosamento com os companheiros a seu favor


Apesar de todo o supracitado individualismo e capacidade de ser uma estrela por parte do jogador, ele também precisa da ajuda de quem está ao seu lado. No PSV, destaco três fatores, começando por Jetro Willems. O lateral-esquerdo tem energia de sobra e faz uso de sua velocidade e inteligência posicional no último terço para frequentemente combinar jogadas com o winger. Suas ultrapassagens em direção a linha de fundo davam a licença necessária para Depay partir diagonalmente ao centro - e isso é muito importante. Por quê? Explico.


Utilizarei um dado de 2013/14 como parâmetro: dos 12 tentos anotados naquela época, 8 foram de fora da área. É uma estatística impressionante e mostra que os chutes a longa distância representam uma de suas principais armas. É claro que aos poucos ele tem que começar a variar mais seus atos ofensivos - fazendo uso da criatividade que possui -, mas não podemos desperdiçar isso. Nosso melhor LE, Luke Shaw, passou praticamente a campanha inteira no departamento médico e fez muita falta nesse aspecto.


Outro que tinha função fundamental foi Adam Maher, o interior que adorava explorar o halfspace, ocupar zagueiros/laterais oponentes e dar ainda mais espaço a Memphis. É algo próximo do que Aaron Ramsey - em relação a Alexis Sánchez - costuma fazer no Arsenal quando está em forma. Marouane Fellaini, que ocupou posição semelhante até o começo deste ano, é nulo em sua movimentação e mais atrapalha do que contribui. Ander Herrera, de qualidade indiscutível, vem acumulando jogos abaixo da média e pouco fez para ajudar também.


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Já no United, nomes como Marouane Fellaini pintaram como uma pedra no caminho de seu desenvolvimento individual


O último a enfatizar é Luuk de Jong, centroavante. Sua contratação junto ao Borussia Monchengladbach deu uma nova dimensão ao ataque. Apenas a presença de um nome perigoso e inteligente perto da meta atraia a atenção dos defensores e, contando com um bom pivô em certas oportunidades, Depay beneficiou-se bastante. Agora pensem comigo: não tivemos um atacante fixo com sequência (quando isso aconteceu, ainda em 2015, Rooney era um a menos) e várias peças passaram por lá, com sucesso apenas aceitável.


Resumindo, não foi simplesmente a mudança de patamar que "assustou" Memphis, como muitos torcedores e jornalistas vêm dizendo. Ao mesmo tempo em que aspectos extra-campo, confiança e man-management são importantes, o fundamental acontece dentro das quatro linhas - que consiste na tática e nas características do elenco. A harmonia caiu de maneira considerável nessa troca de países e, portanto, não podemos culpá-lo inteiramente pelo desempenho aquém das expectativas.


Paciência é uma das maiores virtudes que um ser humano pode ter e devemos colocá-la em prática agora. Espero que esta análise tenha clareado a mente de quem estava inquieto com o problema (assim como aconteceu comigo). O talento, a determinação e a inteligência - rara para um youth prospect - existem, então não tomemos conclusões extremistas e precipitadas após míseros sete meses.


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O contraste de Mourinho com Van Gaal é enorme e, caso sua chegada se confirme, isso só deve fazer bem a Depay


Lembrem-se também que José Mourinho tem tudo para assumir o United a partir de 2016/17 e que o contra-ataque em velocidade e a intensidade ofensiva por parte de um ponta são partes muito valorizadas pelo gajo. Pensem em Cristiano Ronaldo, Eden Hazard, Arjen Robben (Chelsea, entre 2004 e 2007). Sua filosofia de trabalho também pode ser comparada, em parte, com a de Cocu.


Não ficam mais animados?


A camisa 7 está em boas mãos.