Di María deu errado no United por culpa de Van Gaal

Vinte e seis de agosto de 2014, ínicio do ano esportivo na Europa e Ángel Di Maria desembarcava em Manchester com status e expectativa de um provável novo ídolo. Menos de 30 aparições (20 como titular e 7 saindo do banco de reservas), três gols e dez assistências depois, o mesmo fazia suas malas e deixava cidade e torcedor com um gosto amargo na boca. Não estou aqui para resumir sua passagem pelo United, mas sim trazer uma análise dos pontos que deveríamos ter trabalhado melhor. 


ESPN.com.br | Di María culpa Van Gaal por não ter se adaptado ao Manchester United


O fato é que a situação do argentino pode perfeitamente servir de síntese sobre a era Louis van Gaal no clube. Pouca inteligência e coerência para lidar com assuntos de dentro e fora do campo, ignorância baseada em antigas certezas e um extremismo desnecessário.



"Fui embora e a equipe segue da mesma maneira. Ficou fora da Liga Europa e segue ruim; não está perto de ser campeã do Campeonato Inglês. Acredito que não é coisa minha e nem foi coisa dos meus companheiros", disse o personagem em questão. E ele está mais do que certo. Vejamos. 



Di María é um jogador completo. Consegue render em um bom nível como ponta, segundo atacante e armador. Sua melhor posição, porém, é a de interior, algo próximo do clássico box-to-box, mas com um papel mais controlador. Para detalharamos ainda mais a função desempenhada por ele em suas partidas mais marcantes, podemos nos remeter ao central-winger. O que seria isso?


O termo é estranho, talvez até uma contradição em sua pura concepção. A realidade é que tal função é utilizada por diversos treinadores ao redor do mundo, mas não ganha tanta atenção pois exige um pouco mais no que tange à análise de movimentos. Não é um heatmap, o famoso mapa de calor, que vai nos indicar as nuances do ofício. É preciso de atenção redobrada.


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O argentino chegou atraindo todos os holofotes possíveis e acabou saindo pela porta de trás. A culpa é de quem?


Ángel foi infernal nos tempos de Benfica e Real Madrid começando pelos flancos, mas sempre mostrou certa tendência de flutuar pelas linhas e influenciar o jogo de uma maneira menos ortodoxa, mais inteligente. Todos seus atributos, empacotados por uma mentalidade geral, foram maximizados por Carlo Ancelotti. Em 2013/14, a temporada que coroou os merengues com a sonhada La Décima, o italiano contava com três pilares: Sergio Ramos, Luka Modric e Di Maria.


Excetuando o defensor, os outros dois partiam da mesma faixa do campo e servem de parâmetro para o destrinchamento do CW. Ainda temos no Brasil a mania de categorizar atletas pela posição original dos mesmos, esquecendo das ações apresentadas durante os 90 minutos. Enquanto o croata representava um verdadeiro controlador, recebendo o primeiro ou segundo passe lá de trás e direcionando as jogadas, o argentino era o responsável pelo ato decisivo. O rompimento das zonas de marcação do adversário, saindo do centro e causando uma bagunça na estrutura alheia.



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Geralmente suas corridas eram destinadas à esquerda, por isso o nome da função. Para especificar com exatidão, a área que mais usufruía era o halfspace. Aquela parte do tabuleiro que cansei de citar neste blog, tão valiosa quanto negligenciada. Nesta época de double-pivots - a dupla de meias posicionados na frente da zaga -, ainda soberanos na Premier League, se torna muito difícil a tarefa de conter um central-winger.


Fundamentalmente, nosso ex-camisa 7 tinha a capacidade de afetar o desenvolvimento dos lances com e sem a bola. Em homenagem atrasada, mas extremamente merecida, parafraseio o lendário Johan Cruijff: em média, você passa 3 minutos com a posse e 87 sem ela. E são esses os que mais importam. O alto QI futebolístico de Angel fazia com que sua movimentação abrisse diversos buracos no quebra-cabeça rival.


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O camisa 7 aproveitava ao máximo a oportunidade de chegar próximo do gol, já que nos jogos acabava encaixotado na lateral


Três passos pra cá, puxava um lateral, um meia e deixava o zagueiro direito inquieto. De tal forma, a zona 14 (parte central da entrada da área, considerada pelos estatísticos o setor mais importante que existe) se tornava um ponto vulnerável e, dependendo da presença de companheiros qualificados, os frutos surgiam em grande escala. E, apesar da inconsistência e decadência dos mesmos, não me digam que Van Persie, Rooney, Mata & companhia deixariam de aproveitar tal cenário.


Com tudo isso no repertório, o que aconteceu? LVG resolveu limitá-lo à uma caixa na ponta, onde era utilizado majoritariamente para cruzamentos e bolas alçadas na área, sem uma lógica por trás das jogadas. E isso sumariza a situação - fazer isso com um dos melhores do mundo passa o ponto do ridículo.


"Você joga futebol com a cabeça, as pernas só estão ali para ajudar", mais uma ilustre citação do holandês que nos deixou há alguns dias. E, quando AdM passou pelo processo de ser preterido por Ashley Young, tais valores se inverteram completamente. A lucidez foi trocada por características secundárias como raça, vontade e amor à camisa.


E isso é um total retrocesso, provavelmente impulsionado por uma mentalidade rasa e imediatista. Por hora, fica a saudade dos bons momentos (que existiram, ok? Não deixe a imprensa esconder isso), a tristeza pela sensação de ''o que poderia ter sido se...'' e, sobretudo, uma certeza: o menos culpado pelo rendimento questionável foi Di María. 


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Enquanto um vai mal há mais de dois anos e é titular absoluto (quando está 100%), outro é preterido e vendido por alguns meses questionáveis


Apesar do tema ter um enfoque diferente, vale a leitura deste outro post. Nem tudo que o United faz é de ouro e, pasmem, quem vem de fora e hoje é rival pode estar certo de vez em quando. É preciso alterar nosso modo de pensar, mesmo que aos poucos, para possibilitarmos uma evolução duradoura. 


Até a próxima!