AC Milan feminino: o time que nos faltava

Por: Nathalia Perez (@nathaliaperez)


Há pouco menos de um mês, o Milan presenteou seus torcedores com uma notícia muitíssimo boa em meio a uma avalanche de outras que eram totalmente desalentadoras: anunciou a aquisição dos direitos esportivos da equipe feminina do Brescia. Segundo apurou o portal Milan News, o Diavolo deu 450 mil euros nas mãos do presidente biancoazzurri Massimo Cellino para ter o time das leonesse mais a oeste na Lombardia. Isso aconteceu porque, bem, o Brescia não andava muito bem das perna$.


Embora tenha repercutido positivamente desde quando revelada, a novidade deixou uma grande interrogação na cabeça de muitos rossoneri. “O Milan já não tinha uma equipe feminina?”, “isso é permitido, um clube comprar um time já existente e entrar na primeira divisão direto?”, “permanecemos com o mesmo nome?”, “não seria mais justo começar do zero?” e “existe campeonato feminino profissional na Itália?” foram algumas das questões levantadas, e cá estamos nós para explicar tim tim por tim tim, todos os pormenores da nossa mais nova squadra.


Em seu site oficial, o Milan escreveu que “a partir da temporada 2018/19, participará, pela primeira vez na história do clube rossonero, do Campeonato Feminino da Serie A (primeira divisão do Campeonato Italiano)”. Também comunicou que “A Federação Italiana de Futebol (FIGC), com uma resolução assinada pelo Comissário Extraordinário Roberto Fabbricini, formalizou de fato a aquisição pelo AC Milan dos direitos esportivos da ACF Brescia”. 


Divulgação/acmilan.com
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Pela união de seus poderes, eu sou o AC Milan Feminino!


A nota vem, além dos esclarecimentos acima, com um trecho falando que o negócio é um passo dentro do projeto da federação para o desenvolvimento do futebol feminino na Itália. Bom, eu diria que é bem mais do que um passo, e sim um salto para, finalmente, com um grandíssimo atraso, fazer com que a modalidade comece a ser minimamente prestigiada dentro do país e enfim tenha visibilidade e um pouco mais de respeito por parte das autoridades que regem o futebol na bota.


Infelizmente, a Itália ainda está muito, mas muito atrás dos outros países europeus que têm uma forte tradição no futebol e possuem grandes ligas masculinas quando o assunto é futebol entre mulheres. Não é segredo que as disparidades salariais entre homens e mulheres nesse esporte são documentadas em todo o mundo, mas na Itália elas são extremas e impressionantes. Na Inglaterra, por exemplo, as jogadoras recebem entre 5 e 35 mil libras por ano, de acordo com a Associação de Futebolistas Profissionais (PFA). Para se ter uma noção do abismo que existe no Bel Paese, as mulheres lá sequer ganham salários, somente despesas.


Em suma, o futebol feminino italiano caminha para largar o seu status de amador e ir se profissionalizando, e contar com a colaboração dos grandes clubes do país é imprescindível nessa jornada. Por isso foi muito importante essa decisão do Milan de lançar uma equipe feminina para disputar o alto escalão da Itália, decisão esta que procede a da Juventus e precede a da Roma em fazer o mesmo (ainda que o processo deles para isso acontecer tenha sido diferente do nosso).


Nossos rivais bianconeri, por exemplo, entraram na Serie A Femminile na temporada passada e já foram campeões logo de cara, disputando a final, inclusive, com o próprio Brescia. Isso quer dizer que não só em termos de ascensão a próxima temporada da primeira divisão feminina da Itália promete, mas também em termos de rivalidade. Além da briga pelo principal título nacional, o Brescia concorreu ao título da Coppa Italia em 2017/18, mas perdeu para a Fiorentina. No entanto, é um grupo forte de jogadoras que está no topo há alguns anos e faturou o Scudetto em 2014 e 2016 e a Coppa Italia em 2012, 2015 e 2016.


Divulgação/acmilan.com
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Carolina Morace é o tradicional duplo joinha


Deixando de lado o ex-Brescia e falando sobre o Milan feminino, vamos jogar com mais 11 equipes na Serie A na temporada que vem aí. Apenas a Juventus, a Roma, a Fiorentina, o Sassuolo e a Atalanta estarão conosco tanto no campeonato feminino quanto no masculino da primeira divisão. Enquanto isso, na Serie B, 47 equipes se dividem em quatro grupos regionais diferentes para jogar a segunda divisão italiana.


É nesse andar, aliás, que se encontra o Milan Ladies, um time que é associado ao Milan por questões de identificação (veste suas cores, não carrega seu escudo, tem o seu próprio), mas não tem nenhuma ligação direta com o clube e muita gente confunde. E nem por isso essas meninas são menos milanistas, viu? O esforço que elas fazem para se manter e representar o Diavolo de alguma forma há anos é muito admirável.


Era até de se considerar o Milan ter apostado nesse time de meninas e investido nele para ter sua própria equipe. O problema é que isso retardaria o projeto pessoal rossonero e da federação, porque seria praticamente começar do zero, uma vez que a força do elenco do Milan Ladies não se compara com a do antigo Brescia. Além do mais, teríamos que lutar para ascender de divisão, uma tarefa nada fácil em uma pirâmide de futebol que tem um sistema bem complexo.


Nossas partidas femininas serão realizadas no centro esportivo Peppino Vismara, que fica localizado em Milão mesmo, e, por ora, jogaremos apenas a Serie A Femminile. Mesmo que o Brescia tenha se classificado para a Women’s Champions League de 2018/19 por ter sido vice no campeonato passado, o Milan perdeu o direito de disputar a competição europeia porque o regulamento dela não permite que uma franquia recém-nascida ocupe o lugar da que foi cedente. A vaga, portanto, foi herdada pela Fiorentina, que jogou os playoffs de terceiro lugar com o Tavagnacco e representará a Itália na Europa com a Juventus.


Divulgação/acmilan.com
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Carolina Morace terá a histórica missão de comandar o primeiro time de futebol feminino do Diavolo


O elenco do Milan feminino não continuará sendo inteiramente o mesmo do Brescia, já que algumas jogadoras preferiram ir vestir outros uniformes. Porém, alguns nomes de destaque permanecem e defenderão a camisa do Milan, como Valentina Giacinti, artilheira da última temporada do calcio com 21 gols e jogadora da seleção italiana.


O corpo técnico se renova, e o Diavolo depositou sua confiança em Carolina Morace para ser treinadora. Há uma semana, ela foi apresentada por Fassone e Mirabelli na Casa Milan, e rolou até aquele handshake triplo que a gente tanto gosta. A técnica tem um currículo de respeito por ser a maior goleadora da história da seleção italiana e ter comandado as seleções femininas da Itália, do Canadá, de Trindade e Tobago e também a Lazio e o Verona em termos de clube. Levando isso em consideração e que o elenco não deve sofrer poucas alterações, as expectativas são altas para nossa primeira temporada na Serie A Femminile.


Com o Milan assumindo os direitos do antigo time do Brescia, o outro clube lombardo terá que recomeçar sua equipe feminina a partir da Serie C italiana. E sim, essa concessão de times é totalmente permitida. Uma pena que jogarmos a Women’s Champions League de 2018/19 não seja, mas com certeza em breve vamos marcar presença no torneio como resultado do nosso próprio esforço, do AC Milan feminino.


A escalada do Milan feminino e do futebol italiano praticado por mulheres para prosperar na Europa e no mundo não é simples, mas ela está acontecendo. Tivemos outras equipes femininas ao longo de nossa história, mas esta será a primeira na divisão principal, e isso é um passo e um feito muito grandiosos. Com toda essa evolução acontecendo internamente e a seleção italiana se classificando para a Copa do Mundo feminina depois de 20 anos, os ventos indicam para um lugar que parece ser o certo para a modalidade na Itália.


- Curtinhas - 


Por mais que a situação do Milan esteja sofrendo uma nova reviravolta (#gíriasidosas), esse texto merece todo o destaque possível. A perda do controle acionário por Yonghong Li para o fundo de investimentos Elliott será abordada em momento oportuno.


A Puma lançou oficialmente o uniforme para a nova temporada e fiquei feliz demais por saber que, ao contrário do torcedor Uruguaio, não precisarei escolher entre respirar e torcer.