Napoli vendeu sua alma pra vencer o clássico, e acabou sem receber nada no final

Era uma semana diferente. Semana de clássico contra a Juventus é sempre irritante de todas as formas. Irritante porque normalmente são semanas de especulações sobre o nada, quando se falam bobagens aleatórias. Essa semana já tinha a jornada do heroi de Higuaín que, de fora por 1 mês, de repente virou o titular.


Se ainda fossem só essas as notícias, seria melhor. Eis que, de repente, Matteo Salvini, líder da Lega Nord, que já falou diversos impropérios contra Nápoles e os napolitanos, vai à concentração do Napoli pedir voto. Pior, se aproveita pra tentar (em vão) pedir desculpas a Edoardo De Laurentiis. 


E Salvini ainda tirou foto com ele. Pior, tirou foto com Insigne e Callejón. Os dois podiam negar. Mas não negaram. Isso foi como uma facada no coração pra maioria da torcida (embora tenha sido um cavalo de troia para seus apoiadores políticos). Cheguei até a dizer ontem, quando vi a foto, que é pior do que uma foto deles com Higuaín. 


Isso em uma semana que o próprio Edo De Laurentiis provocou juventinos e Higuaín, lamentando a "ausência", com um "pecado, eu queria fazer quatro gols neles". Isso no meio do futebol é um suicídio. Dar mais motivação a quem já é motivado é um combustível complicado. Vale pra isso, e vale pras vaias pré-jogo, que já deveriam ser parte do passado, mas que acontecem e servem pra motivá-lo ainda mais.


Jogo que começa com Higuaín do outro lado é sempre uma grande chance de começar em desvantagem. Some-se que o jogo era contra o Napoli, invocando a Lei do ex. Aparentemente ninguém aprendeu a marcá-lo. Vide o lance aos 3 minutos de jogo, quando Reina saiu bem pra impedir o gol do argentino.


Vide o lance que começou com uma tentativa de firula de Insigne no outro lado. A marcação foi nula com Douglas Costa o tempo todo. A de Mário Rui e Koulibaly em Higuaín então, pior ainda. Todos deveriam saber o quanto é perigoso deixá-lo livre. Aprenderam da pior forma com o quinto gol do outrora ídolo contra o Napoli. 


Dali em diante era jogo de um time só. A Juve abdicou de atacar. Só se defendia. Ou melhor, muitas vezes nem precisava se defender direito. Não há o que criticar a rival por fazer isso, embora seja curioso pelo poderio técnico que tem. Se defender também é uma boa tática.



Mas a alma do Napoli sempre foi o toque de bola rápido. Os jogadores se desmarcando com facilidade. Dinamismo na posse de bola. O que não havia, e tornava muitas vezes uma posse estéril. No primeiro tempo, as grandes chances foram com Insigne, em chute de fora e cabeçada, ambas bem defendidas por Buffon.


Pra não dizer que não haviam boas características nesse Napoli, apenas uma: o fato de que muitas vezes a defesa juventina, por meio da pressão alta napolitana, errou suas saídas de bola. Mas essas coisas só se aproveitam com um meio-campo dinâmico.


Daí o que o Napoli tratou de fazer durante o jogo inteiro? Cruzar bola na área. Foram poucas as oportunidades trabalhadas, e as tentativas delas esbarravam num bom dia da defesa juventina. Chutes de fora foram poucos, apenas um de Hamsik no primeiro tempo e outro de Callejón no segundo.


Era em resumo um time estranhamente sem criatividade, sem rapidez nas jogadas, sem nem mesmo uma tentativa de tabela. E de nada adianta falar de mentalidade - seja por parte do próprio Napoli ou da Juve - se o time estava bagunçado tecnicamente em campo.


Sem falar na questão da fadiga, que são outros 500, mas não explica tanto o jogo, embora tenham gerado a saída de Insigne. Enfim, todos estes aspectos mostram que a bagunça do Napoli no clássico não poderia dar em outra coisa que não numa derrota.


Pra piorar, no pós-jogo, Sarri só faltou cantar "All By Myself", de Celine Dion, pra lamentar ainda a saída de Higuaín. Além de um tom quase crítico a Ounas, que quase não coloca pra jogar, dizendo até que "ele não é um Cristiano Ronaldo, vem de uma temporada difícil no Bordeaux". Uma postura que não é de confiança pra um treinador como ele, embora soe esportiva. 


Pela primeira vez desde março de 1997, o Napoli terminou um clássico contra a Juventus no San Paolo sem fazer gol na rival. Muito pela incompetência e pelo caminhão de erros próprios. Uma noite pra se esquecer. Quando se começa mal, se termina mal. 


E a máxima é válida quando se faz as coisas sem alma. Da camisa sem alma, as ideias sem alma, o jogo sem a alma própria. Era muito óbvio que daria errado. O problema é que tudo foi dar errado justamente em um clássico. Logo contra eles. Ao menos a única vencedora da noite foi a torcida napolitana.


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Reina - Não fosse ele, tudo seria pior. Quando foi acionado, como nos primeiros minutos com Higuaín e no segundo tempo em chute de Matuidi, foi muito bem. Só não teve culpa no gol. Nota: 7,0


Hysaj - Alguns momentos de sofrimento na luta contra Douglas Costa, mas de resto, sem grandes problemas. Talvez porque o brasileiro chegasse a flutuar pelo meio. Ofensivamente fez pouco. Nota: 6,0


Albiol - Um ou outro problema na saída de bola, mas aos poucos foi se acertando na partida. Teve trabalho ajudando na marcação com Dybala e Douglas Costa, mas foi um dos poucos a fazê-lo bem desempenhado. Nota: 6,0


Koulibaly - Tem lá suas culpas no lance do gol de Higuaín, embora o erro seja muito dividido com Mário Rui. Aos poucos foi melhorando no jogo, com alguns bons cortes, mas ainda abaixo da média. Nota: 5,5


Mário Rui - Defensivamente parecia uma tartaruga, especialmente no lance do gol de Higuaín, lance no qual foi o principal vilão pela falha de cobertura. Ofensivamente não gerava lá grande perigo, embora tivesse boa movimentação. Nota: 5,0


Allan - Um dos melhores do Napoli. Participando bem do jogo ofensivamente, criando jogadas, aparecendo bem na área, embora poderia até fazer mais sozinho. Foi substituído em uma das tentativas de mudança de jogo. Nota: 6,0


Jorginho - Saiu um pouco sobrecarregado nas ações ofensivas, e tendo muitas vezes que cuidar não apenas de Pjanic, como também de Dybala. Não por coincidência com o jogo passando pelas pontas tocou na bola tanto quanto os outros. Nota: 5,5


Hamsik - Estou considerando a sério pedir até que ele pegue alguns jogos no banco. Não tem explicação o quanto ele está mal. Tantas tijoladas pro nada. Poucos chutes certos. Eu confesso que nunca vi ele tão mal assim. Nota: 4,5


Insigne - Ainda tentou alguma coisa, com chutes de fora e incríveis tentativas de cabeçada, o que pra um homem de 1 metro e 63 de altura já seria demais. Ganha nota abaixo da média por conta da bobagem que fez no início da jogada do gol juventino querendo firular pra cima de dois bianconeri. Nota: 5,5


Mertens - Estava sumido no jogo. Mas quando era acionado, eram só tijoladas. Tomou um amarelo idiota e quase tomou o vermelho por uma simulação mais idiota ainda. No mais, foi estranhamente pouco acionado. Nota: 5,0


Callejón - Parecia perdido em campo. Muitos erros banais, muitas vezes fora de posição, com Asamoah dando um baile no espanhol. Quando era acionado, raramente ganhava. Tanto que só tocou 28 vezes na bola em 90 minutos. Nota: 4,5


Zielinski - Na qualidade dos passes ofensivos até melhorou um pouco. Mas também não foi lá grande coisa. Passou longe do que a equipe precisava, e quando entrou até chamou a Juve pro campo napolitano. Nota: 5,5


Maggio - Entrou no jogo pra melhorar defensivamente, não sofreu, mas também não foi tão incisivo no ataque pela direita, participando pouco. Nota: 6,0


Ounas - Tentou alguma coisa, uma jogada individual ou algo mais. Mas foi pouco até. Embora tenha feito um jogo dentro da média. Talvez mereça mais minutos. Nota: 6,0 


Sarri - A princípio a tática parecia certa. Defensivamente em alguns pontos vitais do jogo a defesa napolitana foi lenta demais pra lidar não apenas com o decisivo da noite Higuaín, mas como com Douglas Costa. Taticamente o time até funcionava em certos pontos, como a pressão alta. Mas estranhamente tocava pouco a bola, com pouca movimentação e muito chuveirinho na área. Um time sem alma, longe da sua tradicional de toque de bola, movimentação e dinamismo na criação de jogadas. Embora as substituições tenham sido bem feitas, nenhuma fez grande diferença em relação a isso, e Ounas outra vez entrou tarde demais no jogo, talvez pela circunstância da fadiga de Insigne. Precisa também trabalhar melhor o elenco com relação a isso. Nota: 5,0


Site oficial: SSC Napoli
Site oficial: SSC Napoli

Koulibaly, tentando lutar contra Chiellini em um dos 476 cruzamentos que o Napoli fez na área durante o jogo