A quem interessam as críticas contra o VAR na Itália?

Desde o início da temporada, a Serie A vive uma experiência pioneira na história do Campeonato Italiano. Desde o seu primeiro jogo de 2017-18, vem sendo utilizado o VAR (Video Assistant Referee). A partir da sua estreia, em Juventus e Cagliari, é utilizado em todos os jogos do campeonato para confirmar marcações dos árbitros, apontar e corrigir erros.


Mas há um fator problemático no VAR. Como tudo que é operado por humanos nesse mundo, é passível de erros. Desde as primeiras rodadas tivemos algumas polêmicas de arbitragem - algumas resolvidas, equipes que tiveram muito a reclamar, como a Lazio, que saiu prejudicada em algumas rodadas, como no Derby com a Roma e na derrota em casa para o Torino.


O fato é que nas últimas rodadas, os erros e discussões aumentaram exponencialmente. Mesmo depois de reunião entre árbitros e técnicos da Serie A para uma avaliação do VAR após meia temporada, que ajudou a tirar dúvidas e rever vídeos de erros e acertos, em que a grande maioria, inclusive os não contentes com o sistema, como Simone Inzaghi, saíram satisfeitos, tudo parece ter piorado.


Na última rodada, uma coleção de decisões duvidosas. Um gol da Atalanta que demorou a se assinalar, um gol do Crotone inexplicavelmente anulado por impedimento, um pênalti duvidoso para o Napoli, duas expulsões questionáveis do Chievo contra a Juventus, uma delas em um lance em que o time da casa pediu pênalti, e a mais polêmica de todos, a mão na bola no gol de Cutrone pro Milan contra a Lazio. Todos ignorados. 


O fato é que temos um grande problema no uso do sistema: ele fica a critério do árbitro utilizar ou não, o que é mais ou menos fazer com que ele tire sua própria autoridade ao escolher utilizar. Uma escolha de arrogância que é costumeiramente feita pelos árbitros.


Por conta disso, alguns árbitros não se utilizam do mesmo. Há muitos que não costumam sequer consultar o VAR em suas decisões. E houveram dois árbitros até aqui, que não utilizaram o sistema durante o campeonato todo: Giampaolo Calvarese e Massimiliano Irrati.


Não é nenhuma coincidência o fato de que uma das arbitragens mais polêmicas do campeonato, entre Cagliari e Juventus, tenha sido dele, quando ignorou uma falta em Pavoletti na origem da jogada do gol bianconero, e um braço aberto de Bernardeschi na área que teria gerado um pênalti pro time sardo e a expulsão do jogador italiano.


Alguns setores da imprensa italiana aproveitam as críticas pra malhar o VAR. Muitos comentaristas despejam lixo ao falar contra o sistema, como por exemplo, o ex-figurante de elenco de Juventus, Napoli e Udinese, Massimo Mauro, que já havia feito uma coluna no La Repubblica sobre isso, e cravou em comentário na Sky Sport:



"O experimento Var falhou o suficiente, vamos fechá-lo e voltamos para onde estávamos antes, era muito melhor. E então, digo isso: ele interrompe as emoções. Eu gosto do erro de Milão, faz parte do futebol" - Massimo Mauro, ex-jogador e comentarista da Sky Sport



A pergunta que fica é a seguinte: a quem interessa ficar com críticas absurdas ao VAR e ignorando as arbitragens? O fato é que muita gente de algumas torcidas, e da imprensa, se tem a impressão de que o árbitro de vídeo é um elemento a parte, como se fosse uma realidade alternativa, algo como Matrix.


Parece óbvio, mas o VAR é um instrumento de auxílio. Ele não irá acabar com os erros, mas poderá ajudar a eliminar a maioria deles. Mas no futebol temos um problema que é diferenciado em relação a outros esportes: a interpretação das faltas.  


A prova da interpretação diferenciada é essa mesma polêmica da rodada do fim de semana. Usaremos dois lances semelhantes: O lance da expulsão de Bastien, no jogo entre Chievo e Juventus, e o do pênalti de Masina em Callejón. Ambos foram puxadas pelo ombro. As duas diferenças? Uma fora da área, e na outra, o espanhol valorizou um bocado. 


Mas ambos faltas temerárias, passíveis de cartão amarelo. O fato é que nesse aspecto, temos aquela questão de faltas que se dão fora da área, mas que não se costumam dar dentro da área. E exatamente nesse critério, embora este seja semelhante, no sábado, houve poucos questionamentos a expulsão, e no domingo, uma enxurrada de críticas ao lance do pênalti.


Para esses aspectos, mesmo que haja VAR, pode haver dúvida, e aí erros talvez poderiam ser mais discutíveis. Mas para muitos lances uma simples consulta já bastaria. Não é o que acontece em muitos jogos, em que as consultas são ignoradas. Como com Bernardeschi em Cagliari ou Cutrone em San Siro. Basta aos árbitros


Como dito no Corriere dello Sport, e replicado no texto do parceiro rossonero Rodrigo Moraes, o VAR para alguns árbitros é como dar um smartphone para uma pessoa de idade avançada que não tem interesse algum em tecnologia. Os árbitros ainda não entenderam o tamanho da ferramente que têm em mãos, e o quanto ela pode ser benéfica para todos quando usada da forma correta.


Não é coincidência o fato de que, analisadas as arbitragens do turno do campeonato, os árbitros mais jovens, são os que cometeram menos erros e estavam no topo dessa classificação, feita pelo mesmo Corriere dello Sport, de lances questionáveis:


Reprodução: Corriere dello Sport
Reprodução: Corriere dello Sport

Classificação dos árbitros e os erros e acertos de decisões capitais no primeiro turno da Serie A


Há um bom grupo de incontentes: o presidente da Lazio e da Liga, Claudio Lotito, enquanto dava uns sopapos com o juventino Marotta e não fechava as cotas de TV para o próximo período da Serie A, disse antes da votação para a presidência da FIGC que "se não fosse o VAR, a Lazio poderia estar brigando pelo título".


Podemos pensar em uma melhor utilização do VAR para as próximas temporadas. Aqui vai uma sugestão: como na NFL, poderíamos ter três pedidos para revisão de jogadas que cada técnico poderia usar como bem entender para questionar marcações da arbitragem. Só haveria apenas o problema de poderem usar pra catimba e esfriar o jogo, mas isso seria "a ver".


O medo é que usem as experiências e lances mal sucedidos do VAR para que parem de utilizá-lo nas próximas edições. Baseado no clamor de alguns grupos contra o VAR, esse poderia ser o futuro. E esse é o medo, com ideias pairando nas mentes conspiratórias (confesso que até na minha), que os próprios árbitros sabotem a utilização do sistema para manter seu poder. 


Embora existam essas conspirações, Marcello Nicchi, o presidente da AIA, a associação dos árbitros da Itália, defendeu a utilização do VAR, mesmo após a rodada desastrosa. Defendeu que o árbitro de vídeo funciona, e que "os erros existem, e existirão sempre, mas o VAR, repito, funciona", e completou que "o VAR não será tocado".


A pergunta que se faz é: a quem interessam as críticas contra o VAR na Itália? São feitas para melhorar o jogo ou a arbitragem, ou para manter o status quo que antes existia? A quem interessa manter uma aparência não muito favorável e não transparente, que pode trazer resultados falsos ao futebol, em nome de falsas polêmicas?


Não à toa, muitos dos que vão por esse caminho se munem da má-fé e desonestidade intelectual para tentar ficar bem com essa ou aquela torcida. Mas a realidade está ao lado do VAR. Não pode ser coincidência que houve índice de acerto em 98,9% dos lances capitais até aqui.


Se os erros podem ser evitados, qual o sentido de brigar contra quem pode evitá-los? Essa é a pergunta que é obrigatória a se fazer pra quem chia tanto contra o VAR. Não é uma disputa do bem contra o mal, mas se há correções de erros em 1/4 dos jogos da Serie A, algo está sendo feito. 


É muito curioso que algumas pessoas que sempre se calaram diante de erros sem VAR, agora chiem tanto por aí. Mas é muito melhor a vida com o VAR, com muito menos erros do que antes, do que a vida sem ele. E assim caminhará melhor o futebol, com menos erros interferindo, enquanto as discussões, estas sempre permanecerão. 


Site oficial: AIA.it
Site oficial: AIA.it

Árbitro de vídeo: a grande polêmica desta Serie A