Até que ponto a Champions League distorce o futebol mundial?

A Copa dos Campeões da Europa existe desde a temporada 1955-56, quando pela primeira vez a UEFA reuniu os clubes campeões nacionais de seus países associados para disputar quem seria o melhor time do continente, baseado na ideia do Campeonato Sul-Americano de Campeões realizado em 1948.


Passaram-se vários anos, até que em 1992, em meio a reunião de clubes interessados para que se jogassem mais, e que se evitasse que confrontos como o entre Napoli e Real Madrid, de 1987-88, acontecesse tão cedo que clubes tão rentáveis ficassem fora tão cedo.


E assim se criou a fase de grupos da Champions League, com menos mata-matas, mas ainda fortificando a Copa da UEFA (ou Europa League, como preferirem), e a saudosa Recopa (ou Copa dos Campeões de Copas, como preferirem).


Mas a coisa foi mudando a níveis atuais a partir de 1995, com a Lei Bosman, que permitiu com que europeus tivessem livre visto de trabalho também no futebol. E a partir de 1997-98, isso se acentuou quando pela primeira vez, a Champions League admitiu clubes que não eram campeões nacionais ou continentais, como Bayer Leverkusen, Newcastle, Parma e o Barcelona naquela temporada.


Inevitavelmente, o novo modelo da Champions League foi aos poucos fazendo os clubes mais ricos. Para se ter uma noção, na lista abaixo, segundo o site italiano Panorama, que analisou os comunicados da UEFA, estão os clubes que mais ganharam dinheiro na competição em toda a história até a edição passada:


- Real Madrid (Espanha) €689,5 milhões


- Bayern de Munique (Alemanha) €673,4 mi


- Barcelona (Espanha) €636,2 mi


- Juventus (Itália) €605,2 mi


- Manchester United (Inglaterra) €568,1 mi


- Arsenal (Inglaterra) €558,3 mi


- Chelsea (Inglaterra) €530,2 mi


- Milan (Itália) €412,1 mi


- Lyon (França) €362,7 mi


- PSG (França) €335 mi


- Roma (Itália) €306,2 mi


- Borussia Dortmund (Alemanha) €294,5 mi


- Inter (Itália) €281,8 mi


- Manchester City (Inglaterra) €274,6 mi


- Bayer Leverkusen (Alemanha) €268,7 mi


- Atlético Madrid (Espanha) €267,5 mi


- Porto (Portugal) €262,9 mi


- Olympiacos (Grécia) €253,5 mi


- Liverpool (Inglaterra) €232,8 mi


- Valencia (Espanha) €228,1 mi


- PSV (Holanda) €220 mi


Nesses ganhos, e especialmente com a presença cada vez mais constante de PSG e Manchester City, que têm menos participações na competição do que, por exemplo, Lyon e Liverpool. Mas os franceses da capital ganham apenas pouco menos que os rivais, e os de Manchester ganham mais que os reds de Liverpool.


Para se ter uma noção disso tudo, o PSG arrecadou 85% deste valor total (por volta de 285 milhões dos 335 totais) desde a chegada do grupo catari QSI (Qatar Sports Investment), ao clube parisiense, em 2011. Uma mudança total de patamar no time da capital francesa, que desde então, não sai das duas primeiras posições da Ligue 1.


Tudo isso se deve ao grande "market pool" que a UEFA propõe aos participantes da Champions League. Ele pode mudar finanças dos clubes, e a medida em que os contratos se tornam mais bilionários, interfere mais. Aqui estão os valores da premiação desta temporada:


- Primeira pré-eliminatória: €220.000
- Segunda pré-eliminatória: €320.000
- Terceira pré-eliminatória dos perdedores: €420.000
- Perdedoras do play-off: €3.000.000
- Vencedores do play-off: €2.000.000
- Fase de grupos: €12.700.000
- Vitória na fase de grupo: €1.500.000
- Empate na fase de grupo: €500.000
- Classificados às Oitavas de final: €6.000.000
- Classificados às Quartas de final: €6.500.000
- Classificados às Semifinais: €7.500.000
- Vice-campeão: €11.000.000
- Campeão: €15.500.000


Além disso, há o dinheiro das cotas de televisão da própria Liga dos Campeões, que normalmente é dividido de acordo com os clubes por país, com a maioria dada ao campeão nacional, depois ao segundo, e assim respectivamente. Esses eram o "market pool" da fase de grupos dessa edição, e funcionam da seguinte forma:


Distribuídos no total de €507 milhões, os valores são definidos de acordo com os mercados de TV de cada país participante da Liga dos Campeões. Mas diferente da premiação fixa para cada equipe, estas cifras possuem regras específicas:


- Se o Basel ganhar a Champions League, por exemplo, ainda assim, ganhará menos que qualquer clube das grandes ligas, pelo fato de que as fatias maiores do bolo estão para estes. E essa sentença é válida para clubes ucranianos, russos, que ganham muito menos dinheiro que os maiores mercados de televisão.


- Toda liga tem seu mercado específico de "market pool". Por exemplo, na Itália, o valor total é de €110 milhões. 55 milhões são divididos igualmente, e 55 milhões divididos de acordo com a posição no campeonato. Entre os clubes italianos na temporada 2017-18, os valores começaram com a Juve, campeã italiana tendo 50%, a vice Roma tendo 35%, e o terceiro colocado Napoli com 15%.


- Uma derrota de um compatriota, ao contrário do que o coeficiente pode pregar, é boa para seu clube. A medida em que se vai avançando, além da premiação que a UEFA dá, a porcentagem do market pool pode aumentar. Aqui, em italiano, está uma boa matéria do site Calcio & Finanza que explica um pouco da questão, sobre o quanto a Juve ganharia com a eliminação do Napoli em 2016-17, além de simulações hipotéticas.


Reprodução: UEFA
Reprodução: UEFA

Como exemplo da distribuição de valores, a distribuição de valores da temporada 2014-15 da UEFA Champions League


Isso gera talvez o ponto principal dessa questão: o dinheiro da Champions League interfere na competitividade de muitas ligas. É uma situação praticamente afirmativa por conta de diversos fatores. Ainda que muitos atribuam o fato a Lei Bosman e a liberdade após o final dos contratos, o fator do dinheiro da Liga é primordial.


Nos últimos vinte anos, hegemonias tem sido frequentes na Europa. Seja nas grandes ligas, como em França e Itália, onde vivemos duas hegemonias diferentes no período, na Alemanha, e na Espanha. A única exceção entre as grandes ligas, parece a Inglaterra, que tem uma imunidade maior a essa questão devido as altas cotas de televisão para a Premier League local.


Mas o efeito maior é causado em outras ligas. Isso foi citado recentemente em uma ótima reportagem do New York Times, que o dinheiro da Champions League teria feito perder o fator surpresa na maioria das ligas domésticas da Europa.


Podemos citar uma a uma. Somente essa temporada duas hegemonias de oito títulos consecutivos foram quebradas, na Grécia com o título do AEK, acabando com o domínio do Olympiacos, e na Suíça com o título do Young Boys após 32 anos sem conquistar o campeonato, e quebrando a hegemonia do Basel.


Na Bielorrússia, o BATE Borisov conseguiu uma hegemonia de 12 títulos consecutivos. Os búlgaros do Ludogorets e os escoceses do Celtic (em meio a longa recuperação do rival Rangers) acabaram de atingir seus heptacampeonatos locais.


Isso se deve a um certo ciclo: os clubes ganham uma vez, participam da Champions League, ganham dinheiro, conseguem pagar contratações e salários fora da realidade local, que não podem ser igualados por outros clubes com menos cacife.


Que o diga que, nos últimos 5 anos, o Olympiacos recebeu por volta de €125 milhões. Segundo o Transfermarkt, o valor de mercado de seu elenco gira em torno de €65 milhões, o que tem vantagem sobre o segundo maior elenco, o PAOK, de €44 mi, e quase o dobro do terceiro, com os €34 mi do AEK. Do maior rival, o Panathinaikos, que é o quarto maior, a diferença é de €41 milhões entre os dois.


Nesse período, na Suíça, o Basel lucrou por volta de €56 milhões. Os bielorrussos do BATE Borisov em suas três participações na fase de grupos da Champions lucraram por volta de €41 milhões, e o Dínamo de Zagreb, por €45 milhões.


É inevitável que o prêmio da Champions League interfira na finança dos clubes. Por exemplo, usando a realidade italiana, a Juventus foi quem mais lucrou na competição de 2016-17, com um lucro por volta de €109 milhões. O Napoli, na mesma temporada teve um faturamento estimado em €308 milhões, ainda assim, aumentados devido ao valor de venda de Higuaín.


Comparando então com as temporadas anteriores, em que o Napoli teve faturamentos de €143 milhões em 14-15 e €158 milhões em 15-16, temporadas em que o clube não disputou a Champions League, se torna quase uma sentença: pra pelo menos brigar pelo título nas grandes ligas, você tem que disputar a Liga dos Campeões.


Até pelo fato de que a Europa League tem prêmios muito distantes da realidade bilionária da Champions League. Não a toa, existe a frase clássica do presidente napolitano De Laurentiis, que dizia: "Champions League dá lucro, Europa League dá despesa".


Some-se isso a questões de cotas de TV dos campeonatos locais, onde podemos ter, por exemplo, diferenças de 40 milhões entre um clube que briga por título e outro, como na Itália. Ou até de 47 milhões, como na Espanha. Valores que podem pagar um Douglas Costa, ou mesmo um Paulinho, e nesse segundo caso ainda sobra dinheiro.


Nessas questões se percebe a importância do dinheiro da Liga dos Campeões para muitos clubes. É daí que sai, por exemplo, uma parte importante do faturamento de muitos clubes. É o que faz jogadores serem contratados, embora esse fato cria muitos abismos entre si.


Existe outra questão que ajuda a distorcer tudo isso: O Fair Play Financeiro estabelecido pela UEFA. Adotado e apoiado pelas grandes equipes europeias em meados de 2011, era a esperança para frear o avanço de clubes multimilionários como o Chelsea e o Manchester City (posteriormente o PSG).


Mas o tiro saiu pela culatra. Clubes que antes apoiavam a ideia, como o Milan, passaram a se complicar com o Fair Play Financeiro, enquanto os outros estão nadando de braçada. Não é a toa que clubes pressionam a UEFA para tentar realizar uma mudança nas regras do modelo.


Entre essas mudanças de regras, estão por exemplo, a diferença entre compras e vendas, que pode chegar ao máximo em €100 milhões, em vista o mercado passado do PSG, que gastou ao todo 420 milhões de euros em contratações na última janela de verão.


Além disso, uma das futuras regras seria limitar os plantéis efetivos em um número de 25 jogadores, o que afetaria plantéis como os de Chelsea e Manchester City, com mais de 60 jogadores com contrato profissional, mas também afetaria clubes como a Juventus, que tem o maior plantel profissional do mundo.


E qual o efeito disso tudo no futebol mundial? Sem dúvida um grande efeito, uma vez que muitas dessas equipes com elencos gigantes, como os ingleses, a Juventus, entre outros, vem buscar suas peças na América do Sul, no Norte, na África ou na Ásia.


Por conta disso, muitas dessas equipes de alto porte financeiro das grandes ligas vão buscar jogadores jovens em outros continentes já para as categorias de base. Ou cada vez mais cedo, uma vez que nos dias atuais, é cada vez mais raro alguém considerado com prospectiva que tenha ultrapassado a faixa de 25 anos sem ser vendido para a Europa.


Não é nenhuma coincidência que, por exemplo, os jogadores mais especulados para uma transferência para a Europa nesse momento no Campeonato Brasileiro, são os jovens com no máximo 23 anos. Os que se destacam mais, tem valores inflados nas transferências, como Vinícius Júnior, que de repente teve uma transferência de €40 milhões ao Real Madrid sem ter jogado pelo profissional do Flamengo.


Os que ainda não foram descobertos pelos clubes de maior porte financeiro, são descobertos por outras equipes europeias que procuram apostas. A regra é: quem tem menos, aposta mais. E isso é válido para equipes com menos dinheiro em âmbito local ou continental.


E é nessa máxima, que o Shakhtar Donetsk, várias vezes campeão ucraniano e participante de Champions no período recente, vem caçar talentos no Brasil. Não por coincidência, na última convocação de Tite de março, seis dos convocados jogam ou jogaram no Shakhtar, que mantém as apostas em brasileiros, e levará no segundo semestre o jovem Marquinhos Cipriano, que nem chegou a jogar no profissional do São Paulo.


E em outras ligas de menor porte, por várias vezes os clubes hegemônicos que disputam a Champions League, contratam os melhores jovens do país, revendem e fazem mais dinheiro, aumentando o ciclo vencedor e financeiro, o que é feito, por exemplo, pelo BATE Borisov em Belarus e pelo Dinamo de Zagreb na Croácia.


Todas essas questões tornam as coisas fora da realidade não apenas pelos títulos e hegemonias conquistados. Estatisticamente tornaram situações possíveis, um pouco mais fora da realidade. Ser campeão, está estatisticamente mais difícil de alcançar.


Segundo informações da 21st Club para o New York Times, os campeões de quatro das grandes ligas (PL, La Liga, Serie A e Bundesliga), tiveram um grande aumento da média de pontos por jogo nos últimos anos, e isso inevitavelmente influiu no campeonato.


Por exemplo, entre 2005 e 2008, o campeão alemão fazia em média de 2,13 pontos por partida. Nas últimas três temporadas, o soberano Bayern fez por volta de 2,49 pontos por partida. A média de ambos é semelhante para os campeões espanhóis, ingleses e italianos dos períodos analisados.  


As coisas tendem a mudar a partir da próxima temporada. Mas temos um grande problema: tendem a mudar a favor dos clubes já endinheirados. Principalmente após a adição de um elemento que já é presente nas cotas de TV da Serie A italiana: um ranking histórico de clubes, que vai de acordo das participações e títulos da Champions, aos, em menor escala, das outras copas da UEFA.


Serão distribuídos ao todo, 528 milhões de euros através deste ranking. Embora tenham limite de até 32 milhões por clube, são uma boa diferença. E enquanto isso, o abismo entre Champions e Europa League aumenta: Agora a distância entre a distribuição para os clubes entre uma competição e outra, aumentou em 400 milhões, com a UCL distribuindo €1,9 bilhão, e a UEL, "apenas" €500 milhões.


Ao todo, 1 bilhão e 400 milhões de euros de diferença. Dentro dessa questão, cada vez mais se classificar para a Champions League se torna uma situação obrigatória para sobrevivência em lutas por títulos dentro do próprio país, uma vez que estar nela é a garantia de dinheiro, sobrevivência, manutenção e contratação de jogadores. 


O fato é que chegamos a um ponto onde atualmente, a Champions League vira uma obsessão irreal pra Real Madrid, Barcelona, Bayern e Juventus, onde temporadas em que se faz um doblete, no caso dos três últimos, viram um grande "nada".


Para se ter uma noção do domínio destes, além das ligas locais, a última semifinal de Champions League sem nenhum destes foi em 2006-07. A última final sem nenhum destes foi em 2007-08, na final inglesa entre Manchester United e Chelsea.


Todas as finais nesta década da Champions League tiveram Barcelona, Bayern ou Real Madrid. Não será diferente nesta edição com a final confirmada entre os madridistas e o Liverpool. A única das ligas europeias com certa imprevisibilidade virou a Europa League.


Ainda assim, a Europa League, desde que adotou o atual nome, em 2009-10, só teve um dos campeões fora das grandes ligas, o Porto em 2010-11, ainda assim, em final portuguesa com o Braga. Fora estes, de finalistas "outsiders" temos o Benfica, o Ajax (quem diria que um dia o trataríamos como outsiders) e o Dnipro, que decaiu desde então. 


Tudo isso, somado aos domínios nacionais presentes na maior parte das ligas europeias nos últimos anos, e aos efeitos dominó em outros campeonatos com movimentação financeira e de jogadores, podem dar uma noção de como o dinheiro da Champions League pode ter influído em todas essas questões.


O fato é que são naturais as eras de domínio no esporte. Vivemos no passado também no futebol, como temos no basquete, seja na Euroliga ou na NBA com a "era LeBron James" (uma vez que este com seus times já fez sete finais seguidas), ou outros períodos de domínio, como os de Jordan no Chicago Bulls, entre outros.


Como temos há anos a era de domínio do "Big Four" no tênis, como tivemos em esportes a motor como a Fórmula 1, como em vários outros esportes e ligas por aí mundo afora. Nada mais natural que tenhamos esse domínio no futebol, especialmente quando temos um período onde Messi e Cristiano Ronaldo pulverizam quase todos os recordes individuais do esporte.


Mas até que ponto pode se questionar se essa era de domínio é gerada pela qualidade dos jogadores ou pelas finanças, especialmente as provenientes da Champions League? É um domínio real ou um domínio artificial? Sabemos realmente o quão grandes são os abismos que se formam dentro da própria Liga? São questões que devem ser discutidas amplamente pelo mundo.


Site oficial: SSC Napoli
Site oficial: SSC Napoli

O hino da Champions, o momento tão esperado, que distorce todo o resto do ano?