Ancelotti no Napoli é a tentativa de agradar gregos e troianos

Evidentemente, não interessava a nenhum torcedor napolitano que Maurizio Sarri deixasse o clube. Para muitos, como eu, qualquer técnico que viesse já seria um downgrade enorme. Sarri, por coisas do futebol, infelizmente não ganhou títulos conosco, mas se tornou, por seu trabalho, um dos melhores técnicos da Europa hoje.


Falaremos sobre isso depois em outro post, quando confirmada a saída do mister para outro clube, uma vez que agora temos a situação particular, que apesar do tweet do presidente agradecendo o trabalho maravilhoso destes três anos, temos a peculiaridade de estar em contrato com dois técnicos (!!!). 


Para um pós-Sarri, se especulavam alguns técnicos. Se falou bastante em Marco Giampaolo, da Sampdoria, que teria ideias táticas semelhantes a de Sarri, mas que não agrada a maior parte da torcida. Haviam até hipóteses distantes de Unai Emery e Antonio Conte.


Os nomes que mais empolgavam, mas também pareciam distantes, eram os de Paulo Fonseca, do Shakhtar, e Leonardo Jardim, do Monaco. Mas muita gente sonhava com Ancelotti. Para muitos, era uma referência de grande sucesso, e até hoje é, ainda que tenha saído meio queimado do Bayern.


Mas por um momento parecia que a renovação ocorreria. Chegaram a haver encontros entre Sarri e De Laurentiis que sinalizavam um possível caminho. Mas as conversas de domingo, tanto da parte do presidente, que dizia que dependia do treinador, quanto do técnico, que dizia que entendia a necessidade da agilidade do mandatário, abriram as portas da saída.


Sarri esperou até o último minuto pela oferta do Chelsea. De Laurentiis e o Napoli cansaram de esperar. E o presidente ressuscitou uma velha conversa que tinha. Simplesmente sacou os contatos de Carlo Ancelotti. Já se falava nos últimos dias, revelado por alguns jornalistas, como Carlo Alvino e Sean Pelucchi (do site milanista Oracolo Rossonero), que a ideia do tricampeão europeu era crescente.


Como revelado por Alvino, a ideia Ancelotti nasceu devido a jantares do técnico com o presidente De Laurentiis em agosto. O treinador havia aceitado a hipótese de voltar a Itália para ser o comandante napolitano, mas tudo dependia da prioridade: a permanência de Sarri. Como não foi concretizada a hipótese, tudo se voltou para o ex-técnico de Bayern, Chelsea, PSG e Real Madrid.


De uma hora para outra, desde o fim do jogo de domingo e a terça-feira, o que antes era visto como improvável, passou a ter ares cada vez maiores de certeza quando o técnico foi visto chegando a casa de De Laurentiis, em Roma, para discutir o contrato com o Napoli. 


E a medida em que as horas da reunião foram passando, a certeza foi aumentando e a euforia foi crescendo. Logo começaram a explodir até mesmo especulações de novas transferências em um mercado que estava parado. E tudo cresceu quando o staff foi se reunir a sede da Filmauro, também em Roma, para definir a contratação.


A medida que o anúncio foi tomando forma, a expectativa era crescente. E quando foi feita a confirmação de Ancelotti no Napoli, era uma festa que alguns pareciam até esquecer que um ídolo do banco teve sua saída confirmada duas horas antes no mesmo Twitter do presidente De Laurentiis. 


É fácil explicar o motivo da euforia por Ancelotti por parte dos torcedores napolitanos. Primeiro, o mais óbvio, que contratar um tricampeão europeu, um técnico de experiência internacional e com experiências marcantes no PSG, Real Madrid e Chelsea, e mesmo uma não tão marcante no Bayern, deu em título, com um dos raros a ser campeões de liga em quatro países diferentes.


Posteriormente, todos tem a ideia de que Ancelotti de cara poderia resolver um problema dos últimos tempos do Napoli: o mercado de transferências, baseado na experiência do primeiro ano de Benítez, que acabou montando a espinha dorsal do time atual. 


Ancelotti tem experiência e contatos o suficiente para chegar e atrair jogadores ao seu projeto no Napoli. Tem olho clínico para perceber alguns outros jogadores e, assim, melhorar o mercado e a equipe, o que já é um caminho com a sua simples presença na casamata nos próximos meses. E já se fala em notícias que as contratações foram delegadas a ele ao lado do presidente.


E isso acaba confirmando e enterrando um pouco outra hipótese: a ideologia "papponista" que se tem contra o presidente De Laurentiis. Dentre as suas principais ideias, está o fato de que o presidente não investe no time, e que "não tem interesse que o Napoli ganhe". O que se torna meio contraditório quando se contrata alguém de calibre como Ancelotti. 


Reprodução: Twitter (@ADeLaurentiis)
Reprodução: Twitter (@ADeLaurentiis)

Ancelotti e De Laurentiis à moda 007


Com a chegada de Ancelotti, é preciso ter em conta também um pouco de sua filosofia de jogo. Inevitavelmente se fala em uma ideia mais pragmática do que Sarri, mas já provou diversas vezes ser um técnico "camaleônico", sabendo mudar de acordo com sua equipe.


Treinado por Sacchi nos tempos de Milan, a quem disse ter aprendido muito, tem uma escola um pouco mais pragmática, que se assemelha a de Capello. Ficou famoso pelo esquema "árvore de natal" nos tempos rossoneri, com seu 4-3-2-1, consagrado no que foi testado por ele para fazer Rui Costa jogar.


No Bayern, seu último clube, mostrou seu estilo adaptável, não vivendo apenas do seu esquema tradicional. Nos seus 60 jogos comandando o clube bávaro, só usou a sua tática da "árvore de natal" em duas oportunidades, e usando 27 vezes o 4-3-3. Em todo o resto, usou o 4-2-3-1, o esquema mais usado nos tempos de Benítez, e o "esquema de emergência" de Sarri.


Por outro lado, uma coisa pode ditar o ritmo de seu trabalho: a continuidade da comissão técnica de Sarri. Especialmente do auxiliar-técnico Francesco Calzona e o colaborador Simone Bonomi, que eram praticamente os "teóricos da tática" do agora ex-comandante napolitano, e que devem continuar, agora como membros da comissão de Ancelotti.


De diferente, o fato de que Ancelotti traz além do seu filho Davide (este em função indefinida), um observador, um scouting, um nutricionista (seu genro Mino Fulco) e seu preparador físico, Francesco Mauri, que tem ideias dentre as quais citou em ótima e interessante entrevista ao site de Gianluca Di Marzio que "treinamentos breves e intensos são o futuro". 


Tem uma fama de domador de campeões, o que muitos atribuem essa razão ao sucesso dele nos tempos de Madrid. Ele já declarou, porém, em uma entrevista, que os "verdadeiros campeões não precisam ser domados", citando Cristiano Ronaldo e Ibrahimovic, que "são os mais sérios e mais profissionais".


Ancelotti retorna a Itália após nove anos de idas e vindas pela Europa dizendo que "humanamente não mudou, mas se sente um cosmopolita", especialmente após viver temporadas em Londres, Paris e Madrid, se tornando mais internacional e menos preocupado.


Sobre a linguagem tática e as estatísticas, já desprezou-as no passado, dizendo que de relevante só havia um fato: os gols feitos e sofridos. Posteriormente, tratou as estatísticas como "um apoio precioso se você não exagerar, para cobrir a falta de conhecimento e contato com o campo".


Quanto as invenções táticas, já declarou em outra entrevista que "não existe nada de novo no futebol, não se inventa nada. O que se pede é de trazer sua experiência, diversidade e filosofia, e todo técnico tem a sua, e assim, compartilhá-la com os colaboradores", completou.


Ele lembra dos tempos de Reggiana, quando começou a carreira, que tinha a ideia de que "se os treinos fizessem mal aos joelhos, diziam que tinha trabalhado bem, depois se descobriu que não é verdade". Passou a ter a ideia de que o jogo mudou, e é menos especializado, com todos podendo ocupar vários papéis, mais do que antes.


Um outro fator positivo é que, na comunicação, a sua experiência é diferente da de Sarri. Sua relação com os jornalistas costuma ser maravilhosa. Encontros pós-partida, entrevistas coletivas tendem a ser mais pacificadoras, menos polêmicas e talvez até menos sinceras que as de Sarri, o que pode gerar um pouco mais de paz no ambiente.


Há alguns fatores negativos nele. Pairam dúvidas sobre seu pragmatismo em vista de um time que foi ofensivo nas últimas temporadas, mesmo com Benítez, onde na temporada ruim, já era um dos quatro do mundo que mais finalizava, atrás do Barça de MSN, do próprio Madrid do BBC e do Bayern de Guardiola. Resta saber o quão camaleônico será.


Existe a sua fama de "league delivery" pelas ligas "ganhas" entregues ao longo da carreira. Parece bizarro ver que um técnico como ele em tantos anos na Serie A, acabou somente por vencer um Scudetto, que no Milan não foi ganho sob diversas circunstâncias, no Parma bateu na trave, e na Juventus uma entregada tão inexplicável em 1999-00 que seria uma das maiores do futebol italiano. 


Algumas histórias do passado com problemas de relacionamento no elenco, outros erros de avaliação, dentre os seus mais famosos, Henry e Roberto Baggio, e ainda as atuais, em vista que muito de sua demissão do Bayern têm disso em relação aos problemas com os jogadores (apostaria que parte da saída de Sarri possa ter a ver com isso).  


Em meio a tudo isso, os prós e contras do treinador, chegamos a praticamente um momento de depressão eufórica. Nesse momento, há um clima praticamente unânime de divisão de sentimentos, entre sentir ao mesmo tempo uma tristeza pela saída de Sarri com uma felicidade imensa de ter Ancelotti. 


É inevitável que fiquemos tristes pela saída de Sarri, é um cara identificado com o Napoli e com Nápoles, mas, antes de tudo, Ancelotti é um daqueles que por si só movimenta o mundo do futebol, um campeão. Não a toa a iminência do seu anúncio gerou uma queda no servidor do site napolitano, por exemplo. 


Temos prós e contras nessa jogada, mas, definitivamente, uma coisa não pode ser dita, que nesse caso não há falta de ambição. Para quem era constantemente criticado por causa disso, isso mostra muito uma virada de página e até mesmo um salto de patamar, acompanhada talvez de uma mudança de mentalidade.


Ancelotti, acima de tudo, é uma tentativa do Napoli de, em uma contratação, conseguir empolgar, e, assim, agradar aos "gregos", amantes da beleza como a do futebol bem praticado, e aos "troianos", mais críticos, mais amantes de um futebol pragmático. E pela reação da torcida já se viu que a tentativa foi bem sucedida.


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Ancelotti: um nome que agrada tanto a gregos quanto aos troianos de Nápoles