Os direitos de imagem e como isso atrapalha o mercado do Napoli

Costumeiramente nos últimos mercados, se vê a notícia de que alguma contratação do Napoli emperra por causa da negociação dos direitos de imagem com jogadores. É uma tradição que tem todo ano tal qual o recolhimento do imposto de renda e o especial do Roberto Carlos todo fim de ano.


A imagem dos jogadores é um dos fatores mais importantes na hora de um contrato, e a lei italiana reconhece o direito para que eles ganhem comercialmente na venda de seu próprio nome e de sua face, por exemplo, para qualquer tipo de venda. 


No mundo do futebol, consequentemente, esse direito é expresso da seguinte forma: para usar a material esportivo e o escudo, seus jogadores precisam da autorização do clube, que protege seus direitos de marca. Mas o jogador em si, pode usar gratuitamente a sua própria imagem "despida" da marca corporativa, para patrocínio ou publicidade.


Em âmbito europeu, muitas equipes utilizam os direitos de imagem das mais diversas maneiras. Por exemplo, a Juventus, prefere usar o método "cada caso é um caso", avaliando jogadores de maneiras diferentes. O PSG libera os direitos de imagem para cada jogador vender como quiser.


Um caso semelhante é o do Real Madrid, que aplica a famosa "cláusula Figo", que funciona da seguinte forma: os ganhos de direitos de imagem de cada jogador são repartidos em 50%. Metade para o jogador, e metade para o clube merengue.


Em vista que Cristiano Ronaldo chegou a ganhar em 2015 por volta de 23 milhões de euros em direitos de imagem, logo, mais do que os 17 milhões em salário anual que ganhava a aquela altura, cerca de 11,5 milhões iam para os cofres do Real Madrid. 


O Napoli age na contramão da maioria destes clubes. O clube azzurro usa um meio incomum no futebol, mas semelhante ao usado pelos pilotos de Fórmula 1, o meio artístico, especialmente no meio do cinema, área de atuação do presidente Aurelio De Laurentiis.


O clube napolitano detém 100% dos direitos de imagem de todos os seus contratados. O que significa que nenhum jogador pode negociar individualmente ou um patrocínio pessoal de marcas esportivas, ou um patrocínio de uma empresa de chocolates, por exemplo, sem o consentimento do clube. 


Isso procede da seguinte forma: nas negociações pela contratação, o jogador cede todos os seus direitos de imagem ao clube, em troca, muitas vezes, de um salário ainda maior, como promete o Napoli em contrapartida. Embora não haja uma garantia de que ele ganharia tanto quanto fazendo propagandas, por exemplo.


Muitas vezes, os azzurri têm sido acusados ​​de perder tempo para fechar as negociações, porque eles têm que explicar (muitas vezes em uma língua estrangeira) como os acordos são concluídos com relação ao pagamento de salários.


Na verdade, os compromissos dos jogadores são cobertos por uma parte com o acordo econômico entre o atleta e o Napoli, que deposita o contrato na Liga e os outros com os direitos de imagem vendidos pela Filmauro, empresa de cinema do presidente, e "dona" do clube.


Isso permite que o presidente Aurelio De Laurentiis, e consequentemente o Napoli, paguem menos impostos, uma vez que a alta tributação na Itália, um dos países de maior oneração da Europa, é feita pelos salários, e não necessariamente nos ganhos. 


Reprodução: Getty Images
Reprodução: Getty Images

A política de direitos de imagem napolitana é uma parte importante da era "aureliana" no Napoli


Por exemplo: se um jogador de futebol concordar com um salário de um milhão de euros por temporada, 700 mil euros serão pagos pelas apresentações esportivas, nas quais a incidência de impostos sobre o valore recebido são de 100%.


Enquanto isso, os outros 300 mil euros serão pagos com a compensação do contrato de exploração da imagem, que o jogador em questão estipula com a Filmauro, e em que a taxa de imposto é de entre 35 e 40%, um imposto consideravelmente menor. 


Na parte dos 700 mil euros, o Napoli paga outros 700 mil de impostos, motivo pelo qual estamos falando de pagamentos bruto e líquido. Nos restantes 300 mil euros, a De Laurentiis paga 135 mil euros em impostos e não outros 300 mil euros.


O problema é percebido quando o cineasta paga menos euros de imposto enquanto o jogador em questão paga mais, porque tem que justificar duas entradas de dinheiro, já que estipula dois contratos, um com o Napoli e outro com a Filmauro.


De Laurentiis, para remediar o problema, sempre propõe um salário bruto um pouco mais alto, a fim de "compensar" os jogadores pelos impostos extras que devem suportar. Tudo isso de acordo com a lei e sem nenhum problema gerado ao clube no aspecto fiscal. 


Se para os jogadores de pouca fama a resposta a um pedido para ceder todos os seus direitos de imagem e muitas vezes pagar os impostos do clube é simples (melhor o ovo da contratação hoje do que a galinha da imagem amanhã), para os jogadores mais cobiçados do mercado, a resposta é não.


Por várias vezes nos mercados recentes o Napoli perdeu contratações por isso. Vamos a alguns exemplos: Klaassen no último mercado, o saudoso Astori, Witsel, entre outros. Astori mesmo, em 2015, desistiu de ir para o Napoli e foi para a Fiorentina porque teria de abdicar de um contrato importante que tinha com a Puma, conseguido nos tempos de seleção italiana. 


Em toda essa história recente do "novo Napoli" pós-2004, somente três contratados no período tiveram permissões para ganhar com seus direitos de imagem: Rafa Benítez, Pepe Reina e Gonzalo Higuaín, que no ato de suas contratações, em 2013, tiveram permissão semelhante a cláusula Figo no Madrid, de 50%. 


Os ganhos financeiros ainda assim não são tão grandes. É uma questão que traz muito pouco ao Napoli de diferença, embora seja uma forma de pagar menos que o comum. Em termos de lucro, em 2014, por exemplo, o lucro era cerca de 2 milhões de euros com a política.


Naquele ano, jogadores como Hamsik e Higuaín participaram de campanhas publicitárias. Os dois, por exemplo, estiveram em uma campanha local para a Vodafone. O argentino esteve em campanhas com a Nike para a Copa do Mundo. Em 2015, uma queda vertiginosa nas receitas de direitos de imagem para 300 mil euros.


De Laurentiis já disse em outra oportunidade que "nunca virá um jogador sem me ceder os direitos de imagem". Contratos estipulados pelo Napoli costumam consistir em mais de 100 páginas, contendo dentro de si todas as peculiaridades necessárias para resolver qualquer controvérsia relacionada ao gerenciamento dos direitos de imagem.


Diante de contratos desse tipo, tanto a empresa quanto o próprio jogador precisam que cada linha seja completamente lida por seus advogados antes de assinar, transformando assim alguns minutos de operação em uma tarefa de várias horas, que por sua vez pode quebrar um acordo já acertado.


Mas um acordo recente pode facilitar as coisas e trilhar um caminho para o futuro: o novo patrocínio pessoal de Insigne, que já teve conversas de renovação em 2017 mais demoradas justamente por conta dos direitos de imagem. E as conversas acabaram sendo válidas.


Insigne, em maio de 2018, assinou com a Adidas para ser um dos "garotos-propaganda" da empresa das três listras alemã. A situação foi tão particular que foi citada no site oficial do Napoli e com direito a palavras do presidente napolitano.


De Laurentiis, em meio ao anúncio, chegou a declarar que "espera que a colaboração seja contínua", acenando para um possível acordo futuro com a Adidas para o material esportivo após o final do contrato com a Kappa (em 2020).


Quanto ao atacante napolitano, ele passará a ter contrato com a Adidas para receber material esportivo, em sua maioria, chuteiras, e outros produtos da marca. Este contrato dará também uma grande visibilidade a Insigne, que agora entra no grupo pertencente a Messi, Pogba, Roberto Firmino, Bale, Suárez, Ozil, entre outros.  


Veremos como as coisas se virão nos próximos contratos do Napoli, como o do novo técnico Ancelotti, e a evolução das "propagandas" com eles. Nos últimos meses, com o sucesso da equipe de Sarri, Hamsik (enquanto não decide se vai ou não vai), fez propaganda recente de chocolates, enquanto Mertens e Insigne fizeram propaganda de um site de hotéis. 


A política de direitos de imagem do Napoli é uma política controversa, em vista que os ganhos financeiros são variáveis, e isso pode espantar outros jogadores, de maneira em que não atrai nenhum (embora os casos em que se inibiu ao longo do período aureliano no Napoli foram poucas). A curto e médio prazo, o clube não mudará essa política. Mas e no futuro? É esperar para ver. 


Reprodução: Twitter (@ADeLaurentiis)
Reprodução: Twitter (@ADeLaurentiis)

Até o momento não se sabe se foi feito algum tipo de concessão a Ancelotti, a última "grande contratação". O futuro dirá quanto a esta parte...