O raio-x da discriminação contra o napolitano na Itália

Não só ultimamente como historicamente tem sido comum no futebol italiano as famosas "curvas" sendo fechadas por insultos racistas não só contra jogadores como especialmente em jogos contra o Napoli e equipes do sul e da Sicília. Mas por que motivo se invocam tanto cânticos pedindo nova erupção do Vesúvio ou tantos coros ofendendo os napolitanos? As respostas são históricas e tem razões de feridas sociais na Itália.


Inicialmente a olho nu, podemos comparar a situação italiana entre norte e sul, como os nossos "norte e sul". A diferença é que o norte italiano é bem desenvolvido, industrializado, enquanto no sul, há um meio nem tão desenvolvido e mais agrário. Esse fato auxiliou para que ao longo das décadas, especialmente durante os anos 60 e 70, houvesse uma grande migração de habitantes do sul para o norte italiano.


Mas a rixa entre nortistas e sulistas, ou entre setentoriais e meridionais, teve ápice em 1860, com as guerras que culminaram na unificação italiana, e com ela, a invasão ao Reino das Duas Sicílias, onde se localizavam cidades como Nápoles, Catania, Palermo, entre outras, por meio das tropas lideradas por Giuseppe Garibaldi. E em 1861, 1 milhão de mortos depois, veio a unificação com o Reino do Piemonte, (onde se localiza Turim) e assim formando o estado italiano, que em breve se fortaleceria com as anexações do Vêneto (onde se localizam cidades como Verona e Veneza) e da região de Roma.


Porém, o preconceito vem há muito tempo, e é principalmente identificável com um termo que, para os sulistas, muitas vezes é pior do que xingar sua mãe. O famigerado termo "terrone". Há diversas variantes sobre a origem do termo. Uma delas seria a de que um habitante do sul, ao ver uma banheira, desconhecendo sua função, resolveu colocar terra e cultivar uma horta, ao invés de usá-la para se lavar. Daí, quando o habitante do norte viu isto, o chamou de "terrone", um ignorante.


Há outra versão, que existe desde por volta de 1600, quando os camponeses do sul migravam para o norte em busca de trabalho e terra, e foram apelidados de terrone (de 'teróne', derivação de terra). Mas a base é a mesma, do preconceito contra o "ignorante" habitante meridional, que acabou se propagando pelos grandes centros urbanos das regiões setentoriais italianas. Por outro lado, os habitantes do sul chegam a chamar os do norte de "polentone", o que poderia ser uma pessoa preguiçosa, de movimentos lentos, ou do termo literal, aquele que come polenta, uma comida considerada de baixo nível e de sabor ruim pelos sulistas. Ainda que polenta tenha sido prato essencial em épocas de crises, pois era barata e qualquer um poderia preparar, além de muito apreciada pelo pessoal do norte. Mas "polentone" não é algo que ofende os italianos do norte como "terrone" ofende os do sul.


Devido a baixa industrialização no sul, houve a migração dos sulistas para o norte em busca de trabalho. Só para se ter uma ideia, entre 1871-1911, nos primeiros anos pós-unificação italiana, em estudo do Banco da Itália, o índice de industrialização de Nápoles, por exemplo, era quase três vezes menor que o de Veneza, era quatro vezes menor que o de Milão, onze vezes menor que o de Turim, e até doze vezes menor que o da capital Roma.


Estas são apenas algumas das bases do preconceito. As outras são por exemplo, o índice de desemprego na região, que faz os nortistas por várias vezes chamarem napolitanos de "vagabundos", e que "não gostam de trabalhar". O índice de preconceito contra os sulistas, especialmente os napolitanos, é gerado em frases como:


- "Os meridionais sempre acusam os outros de suas desgraças"
- "Não confiaria nunca um euro em um meridional".
- "Os meridionais se lavam pouco e, portanto, são sempre escuros e fedidos".
- "Os meridionais são todos aproveitadores."
- "Meridionais só sabem chorar, porque são preguiçosos e indolentes"
- "Os meridionais não pagam impostos e vivem sobre os ombros dos outros italianos".
- "Os meridionais são quase todos da Máfia e da Camorra"
- "Meridionais gesticulam e falam muito mal".
- "Cuidado com a Máfia, eles podem levar sua carteira".
 


Em resumo: para uma parte dos setentoriais do norte italiano, no mundo deles, o meridional do sul, especialmente o napolitano, são parte de uma sub-raça, que é vista como a escória da Itália, que não gosta de trabalhar, que são envolvidos com a máfia e são ladrões e criminosos, que não "fala direito", e que preferem beber e comer pizza a trabalhar e fazer da Itália um "grande país".


É interessante ressaltar que na questão dos roubos, que muita gente na Itália condena o sul por isso, no norte nos últimos anos os índices de roubo tem sido maiores do que no sul, ainda que no sul os índices de homicídio sejam maiores do que no norte, como mostra esta matéria de 2014 do L'Espresso (em italiano).


Quanto a "não falar direito", há o fator da língua diferente que se utiliza por muitas vezes em Nápoles e no sul além do italiano: a língua napolitana, uma língua romântica falada em Nápoles, algumas partes do sul e em algumas outras regiões da Itália, e que tem diferenças do italiano tradicional, como mostrado neste exemplo do artigo sobre a língua na Wikipédia.


Mas o que o futebol tem a ver com estas diferenças? O que o Napoli tem a ver com estas diferenças? Tudo.


O racismo com os napolitanos existe bastante nos estádios italianos desde a nossa fundação, em 1926. E exceto quando enfrentamos o Genoa ou o Catania, é "normal" você ouvir nas arquibancadas: "Vesuvio, lavali col fuoco". Em tradução isso seria "Vesúvio, lave-os com fogo", em um claro pedido para que o Vesúvio destrua a região novamente, como aconteceu em 79 d.c, e que destruiu a então cidade de Pompéia.

Reprodução: Twitter
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"O amigo do meu inimigo é meu inimigo" - Frase da torcida da Juventus sobre a amizade da torcida do Borussia Dortmund com a do Napoli.


Acabam sendo "normais" esses cânticos discriminatórios até quando algumas equipes enfrentam Genoa e Catania, torcidas "amigas" do Napoli, ou até em jogos contra times de torcidas amigas estrangeiras, como recentemente o Borussia Dortmund e o Celtic. Os escoceses, aliás, fizeram um "manifesto" quando vieram jogar contra a Inter na Europa League e nele disseram que se solidarizam contra o preconceito que o torcedor napolitano sofre, já que estes sofrem preconceito por suas raízes irlandesas. E na partida contra a Inter, enquanto alguns nerazzurri cantavam a evocação do vulcão, os escoceses respondiam com "Come on Naples".


Evocação do vulcão que além de outros hits como "Napoli colera" e "noi non siamo napoletani", que são citados nestes vídeos e notícias a seguir dos coros discriminatórios, e em alguns casos, com atos raciais, deles (que nos jogos contra nós acontecem mais do que os cânticos de apoio aos times deles, aliás), é um dos hits preferidos de grandes torcidas rivais como as de Juventus, Roma, Milan, Lazio, a própria InterHellas Verona, Bologna, entre outros times do norte da Itália. 


Reprodução: Twitter
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"Será um prazer quando o Vesúvio fizer o seu dever". - Faixa da torcida do Bologna

Estes preconceitos já tiveram fatos históricos, como os dos últimos confrontos contra Bologna (este antes de ser rebaixado pra Serie B) e Cesena, em que os cânticos chegaram até a interromper homenagens a dois grandes cantores falecidos: Lucio Dalla, que apesar de torcedor do próprio Bologna, simpatizava com o Napoli, e Pino Daniele, napolitano e torcedor do Napoli. Contra o Hellas Verona, na estreia de Maradona na Serie A, em 1984, a torcida rival imitava sons de macaco a cada vez que D10S tocava na bola. Sem falar no clima hostil de todo clássico contra eles, já que a Curva Sud gialloblù é uma das maiores representações de torcidas que utilizam temas de extrema-direita da Itália, além dos Irriducibili da Curva Nord da Lazio e os da Curva Nord da Inter, que ambos, assim como seus "gemelli" de Verona, também costumam fazer coros discriminatórios.

Milannews.it
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Organização de cânticos anti-napolitanos por parte da torcida do Milan


Mas sempre ressaltando as dos outros rivais como Juventus, Roma e Milan, tidos muitas vezes como "bonzinhos", perto de seus outros rivais. O Milan já teve sua Curva Sud fechada, assim como sua rival Inter, pelos coros discriminatórios contra os napolitanos. Em 2013, as Curvas Sud rossonera e Nord nerazzurra já chegaram a se posicionar juntas contra as punições de fechamentos de suas áreas por racismo. Esta era a época de duas modalidades de racismo: o racismo aos napolitanos e a Mario Balotelli. E a Curva Sud juventina foi punida pelos dois. No assalto a mão armada jogo contra o Napoli naquele ano de 2013, além das canções tradicionais, tivemos uma bandeira (que ilustra o post) de discriminação contra os napolitanos, com aquela velha história do Vesúvio. O locutor do Juventus Stadium na ocasião pediu para que os cânticos fossem prontamente cessados, e foi vaiado pela torcida na ocasião. Na época, a Juve jogou uma partida com a Curva Sud fechada, e outra somente com crianças no local. Além disso, os juventinos volta e meia levam faixas discriminatórias.


Outra rival que tem torcida por vezes pratica estes atos de discriminação é a Roma, ex-torcida amiga do Napoli que ainda tem o agravante de fazer uma das rivalidades mais violentas do futebol italiano conosco, rivalidade que fez Daniele de Santis matar Ciro Esposito antes da final da Coppa Italia, final na qual a Roma nem estava envolvida de alguma forma, já que o Napoli enfrentaria a Fiorentina. Daniele de Santis, após ter sido identificado, logo teve seu passado revirado e descobriu-se que este era membro de grupos fascistas. A Roma, aliás, no campeonato de 2013-14 teve a Curva Sud fechada também por cânticos racistas, além dos contra Balotelli quando enfrentara o Milan, houveram os contra o Napoli.


Por causa deste preconceito histórico social, político e esportivo, durante a Copa do Mundo de 1990, em que Itália e Argentina se enfrentariam na semifinal no estádio San Paolo, em Nápoles, Maradona pediu para que os napolitanos torcessem pela Argentina. Por que motivo? Ele ressaltava que os napolitanos eram tratados como estrangeiros pelo resto da Itália. E disse uma de suas frases clássicas: "Durante trezentos e sessenta e quatro dias do ano, vocês são considerados pelo resto do país como estrangeiros e, hoje, têm de fazer o que eles querem, torcendo pela seleção italiana. Eu, por outro lado, sou napolitano durante os trezentos e sessenta e cinco dias do ano".


Porém, os principais problemas não são esses, mas que tanto a política italiana quanto a política da FIGC lavam as mãos para isso. Na política italiana, temos a esfera da Lega Nord, partido que, entre suas defesas, defende a restrição aos imigrantes na Itália, e, pelo nome, mostra que não gosta muito do Sul da Itália, e que além disso, defende a criação da Padania, que de início seria uma comunidade administrativa autônoma, como na Espanha com a Catalunha, por exemplo, para em seguida, se separar do resto da Itália.


Na federação recentemente tivemos a ascensão de Carlo Tavecchio ao poder. Tavecchio, aquele que reclamava de muitos Opti Pobbà no futebol italiano, lembram? Além dele, também há Claudio Lotito, presidente da Lazio, e braço-direito de Tavecchio, que o defendeu dizendo que "Tavecchio adotou três crianças". E outros grandes nomes, como Arrigo Sacchi, que se mostrou xenófobo e racista ao dizer que um dos problemas da base italiana é que "existem muitos negros e estrangeiros no futebol italiano". O problema é que a gestão Tavecchio (apoiada por Aurelio de Laurentiis, nosso presidente) parece tão conivente com isso tudo, que em uma de suas primeiras ações após a sua eleição foi de mudar a regra das discriminações territoriais, nas quais, em resumo: pode continuar cantando "Vesuvio lavali col fuoco" que não corre risco da Curva ser fechada, já que os casos serão julgados a parte.


Mas por que o texto fala do preconceito contra os napolitanos no título e no texto fala dos sulistas em geral? É que o problema principal é que o Napoli, a cidade de Nápoles e os napolitanos, por vezes são os principais representantes do sul do país, e sendo de lá, automaticamente são a culpa por eventuais fracassos e tragédias italianas em qualquer área, e são culpados por toda e qualquer tragédia, de todo o lado ruim do que já foi citado neste texto. Especialmente contra os napolitanos em relação ao resto do sul porque hoje em dia não há coros contra a máfia siciliana, ou com a Ndrangheta, da Calábria, ou com os terremotos em algumas áreas do país. Mas o lado ruim no país é somente de Nápoles e dos napolitanos.


Enquanto o preconceito continuar, ser napolitano ou sulista para uns ser o sinônimo de tudo o que há de mau na Itália, a sociedade italiana não será melhor, e especialmente o futebol italiano também não, já que o futebol muitas vezes é um retrato da sociedade. Porém, há de ter uma punição correta quanto a prática da discriminação territorial no futebol italiano. Somente uma política de tolerância zero com qualquer tipo de racismo irá evitar estes tipos de casos. Uma punição firme, que não seja a típica de uma federação com um presidente que praticou atos racistas. Uma punição que seja digna da grandeza do futebol italiano.


Observação importantíssima: nem todo torcedor rival é preconceituoso, é bom ressaltar isto, mas que estes grupos de torcedores rivais citados aqui são, não há como negar. Mas claro, as Curvas Sud de Milan, Juventus e Roma não respondem pela torcida inteira. Muito menos as Curvas Nord de Verona, Lazio e Inter, por exemplo. Mas o problema é maior, e é presente dentro e fora das quatro linhas. Nas arquibancadas e nas ruas italianas.


Mas a melhor resposta napolitana contra qualquer tipo de discriminação nas arquibancadas, sempre foi e sempre serão duas coisas:


A festa, o canto e o amor pelo Napoli:


E claro, gols dentro de campo (no vídeo, como calar um ato de discriminação racial):