Para se aplaudir em pé

Após a ultima rodada do brasileirão, no domingo, o Palmeiras viveu alguns dias conturbados: começaram-se as especulações sobre uma possível queda de Roger Machado do comando, as centenas de debates entre torcedores nas redes-sociais cobrando garra ao time e reclamando da apatia que haviam visto diante do maior rival no último jogo, os rumores de protestos contra o clube, o áudio do suposto jogador (que depois foi desmentido), os vídeos de torcedores organizados insatisfeitos e afins. Uma fórmula mais que perfeita para se começar uma crise daquelas.


Felizmente, isso veio por terra na última partida da primeira fase da Copa Libertadores, com uma atuação que soou quase que como um “pedido de perdão” de ambos os lados e firmou as “pazes” entre time, técnico e torcida. O Palmeiras venceu, com muita propriedade e utilizando quase toda sua equipe reserva, o Junior de Barranquilla-COL, que precisava de uma vitória para se classificar para o mata-mata da competição. Os únicos que vinham sendo titulares nas outras partidas eram Dudu e Borja.


O JOGO


Antes da bola rolar, um clima estranho pairava sobre o torcedor. Clima parecido com aquele que se faz presente após uma briga em um relacionamento, seja entre amigos ou namorados. Todos sem muito ânimo. Era um jogo de Libertadores, porém, o time jogaria já classificado, com a equipe reserva e a memória do último domingo ainda estava bem viva na cabeça de todos.
Bem viva, inclusive, entre os torcedores da principal organizada do Palestra, que entoaram dizeres não muito agradáveis ao técnico Roger Machado. Era quase um: “Roger, bobão, fora do meu verdão”, porém um pouco mais ofensivo, digamos.


O juiz apitou, a bola rolou e tudo o que tivemos nos primeiros 10 minutos de jogo foram dois erros de passe do garoto Émerson Santos, que estava começando sua primeira partida como titular. A torcida se incomodou, mas se conteve em relação aos xingamentos, creio que nos compadecemos, de forma inconsciente, da ideia de que o garoto poderia estar nervoso por sua estreia no time que iniciava uma partida.


A bola ia de um lado para o outro no campo de defesa, de Victor Luís até Mayke. Às vezes, Thiago Santos aparecia por ali para dar um toque na bola também, mas a equipe do Junior-COL estava muito retrancada. A do Palmeiras, parecia com um pouco de sono.


A primeira boa chance mesmo veio aos 28 minutos, quando Guerra entrou na área pelo lado direito e soltou a bola pra Miguel Borja chutar para longe, todo atrapalhado. Mal sabíamos que o artilheiro só estava calibrando o pé para o que viria a fazer no segundo tempo.


O primeiro tempo continuou frio, tudo o que foi possível ver era que Thiago Santos estava desarmando tudo no meio de campo, Victor Luís estava mostrando que nunca deveria ter ido para o banco de reservas, Prass estava fazendo algumas boas defesas e Guerra era o único que parecia se propor a fazer algo diferente, porém, estava muito sozinho no meio de campo. As linhas de meio e ataque estavam distantes. Dudu, Tchê Tchê e Willian mal encostaram na bola, salvo um chapéu que o atacante bigodudo tentou dentro da área antes de finalizar para longe e um lance em que o camisa 7 ficou cara a cara com o goleiro adversário e não conseguiu empurrar para as redes.


Fim do primeiro tempo, quase não ouvi o som do apito. O estádio todo vaiou a equipe verde que nada fizera até então. Alguns gritos de “Não é mole não, muito dinheiro para pouca obrigação” podiam ser ouvidos, eram poucos, mas podiam.


A equipe alviverde voltou para o segundo tempo da mesma forma que havia ido para o intervalo, em relação à escalação, apenas. Logo no primeiro minuto, Guerra já chegou pressionando o goleiro do Junior-COL com um carrinho bem firme, que levantou um pouco o animo da torcida. A equipe parecia muito mais ligada no jogo e a confirmação de que ela estava mesmo ligada, veio em uma sapatada de Tchê Tchê, do meio da rua, que desceu pegando fogo no travessão.


O time começou a pressionar. Alguns torcedores da gol sul, porém, ensaiaram alguns gritos e xingamentos ao artilheiro do verdão na temporada, Borja. O colombiano respondeu poucos segundos depois, quando marcou o primeiro gol da partida, depois de uma pequena confusão na área, aos 7 minutos, e saiu para comemorar olhando fixamente para o lado de onde vieram os xingamentos. A torcida explodiu como se nada tivesse acontecido nos últimos dias, muita comemoração. O clima de discussão de relacionamento havia ido pelos ares.


@ZMarceloJr/ @ClickParmera
@ZMarceloJr/ @ClickParmera

Miguel Borja não comemorou seus gols diante do Junior-COL


Siga o ClickParmera no instagram!


Um minuto depois, a arbitragem fez o favor de marcar um pênalti inexistente de Luan para o time adversário. Mas parecia que estava no script, tudo planejado. Aquela cobrança traria de volta um sentimento que não presenciávamos há algum tempo. Fernando Prass, depois de ter vivido um turbulento final de ano em 2017, onde conviveu com muitas críticas de que talvez fosse a hora de parar. “Por já não ser o que era antes”, e também com uma quase “não-renovação” de contrato, mostrou o porquê de ter status de ídolo entre os torcedores alviverdes. O santo defendeu a cobrança. Creio que os torcedores que estavam na gol norte presenciaram melhor, porém vi ali uma das cenas mais bonitas da história da nova arena palmeirense. Um goleiro, com a sua história, que vinha amargando o banco de reservas durante todo o ano. Vibrando, por vários minutos depois. Nitidamente emocionado, gritando aos céus e agradecendo pela oportunidade de novamente estar fazendo um grande jogo.


@ZMarceloJr/ @ClickParmera
@ZMarceloJr/ @ClickParmera

Fernando Prass vibrou muito e se emocionou após a defesa do pênalti


Aos 15 minutos, Willian fez uma boa jogada e deixou a bola limpinha para Miguel Borja tocar com uma categoria, digna de “nunca critiquei”, por cima do goleiro e marcar seu segundo gol na partida. Novamente, comemorou indo ao lado sul e olhando fixamente para os torcedores, sem nenhum gesto, apenas os abraços habituais nos companheiros de equipe.


A partir deste momento, tudo estava bem, o time trocava passes tranquilamente. A equipe toda, sem exceções, se portava bem, Dudu e Guerra pareciam se pressionar por um gol. Talvez para dar a famosa “espantada na zica”. A torcida cantava como se todas as reclamações dos dias anteriores houvessem sido anuladas. Que maravilha, começamos a nos lembrar que vínhamos a ser a melhor equipe da libertadores na primeira fase. Algo que não acontecia há muito tempo!


Aos 21 minutos, então, a equipe do Junior-COL balançou as redes. De maneira ilegal. Afinal, o gol estava impedido. Nada que desanimasse qualquer um vestido de verde ou branco no estádio, porque, poucos minutos depois, aos 24, Miguel Borja afundou o pé para marcar seu terceiro gol na partida e se sagrar o primeiro jogador da história do Allianz Parque a conseguir um hat-trick. Junto a isso, chegou a seis gols em seis jogos na Libertadores deste ano e também ultrapassou Lautaro Martinez, do Racing, assumindo a vice-liderança da competição.


QUE NOITE PARA OS CRÍTICOS, MEUS AMIGOS!


@ZMarceloJr/ @ClickParmera
@ZMarceloJr/ @ClickParmera

Miguel Borja fez seu segundo gol com uma categoria digna de "Nunca critiquei"


Siga o meu perfil pessoal no instagram!


Borja foi substituído pelo garoto Hyoran, na parte final do jogo. Saiu aplaudido de pé e ovacionado por todos os torcedores presentes na arena. Este foi um dia para Miguel jamais esquecer e para levar a bola do jogo pra casa.


No final da partida, Deyverson ainda entrou na vaga de Guerra, que também saiu muito aplaudido. Não seria nada estranho ver o venezuelano entre os titulares no próximo jogo, já que este vem colecionando boas atuações quando tem suas oportunidades.


Apitou o árbitro, fim de jogo. Palmeiras 3x1 Junior-COL. A melhor campanha da libertadores na primeira fase (16 pontos), com o melhor ataque (14) e a segunda melhor defesa (3). O Palmeiras decide todos os jogos do mata-mata, em casa, independente do adversário.


Torcedores, jogadores e o técnico lavaram a alma nesta noite de quarta-feira. O time jogou com a raça que gostaríamos de ver em todos os jogos e nós, torcedores, nos portamos, no segundo tempo, como deveríamos nos portar em todos os momentos. Foi um legítimo aperto de mãos entre as partes e um discurso de “levanta a cabeça e segue em frente”, para deixar no passado o que ocorreu poucos dias atrás.


O Palmeiras segue em frente e a próxima partida acontece no sábado (19), contra o Bahia, no Allianz Parque, às 21h00.