Só conhece a luz quem já viveu na escuridão

Antes da bola rolar, no caminho para o jogo, já conversava com o babbo* sobre como seria um jogo difícil. Já estávamos conformados de que seria necessário um milagre dos grandes pra nós fazer passar. Porém, palmeirenses que somos, tínhamos dentro de nós aquela pequena chama de fé e esperança de que o Palmeiras novamente daria a volta por cima e chegaria na final da copa libertadores. Não por investimento, não pelo dinheiro gasto. Não pelas contratações e muito menos por uma obrigação. Mas sim, por um sonho.
Não daqueles que temos como criança e dizemos a nossos babbos que chegaremos aos dezoito anos de idade tendo uma Ferrari como o primeiro carro. Um sonho mais palpável. Mais possível. Sonho de chegar em algum lugar que sabemos que podemos chegar.


Desde 2016 tropeçamos nesse sonho que mais pareceu uma pedra. Eliminados na fase de grupos com uma campanha pífia, dois anos atrás e eliminados de maneira dolorosa pro fraquíssimo Barcelona de Guayaquil, no ano seguinte. Fechando a competição sob vaias da torcida. Vaias a um projeto que estava feito e que ainda não tinha dado nenhum resultado visível. Resultados que nos fizeram sangrar por dentro e formular mil possibilidades dentro de nossas cabeças sonhadoras sobre o porque ainda não era chegada a hora de um milagre acontecer e nos fazer ter de volta a América.


Com a melhor campanha da competição nesse ano e tendo um time muito mais sólido que o dos últimos anos, tendo vencido todos os jogos fora de casa até a semifinal, colocamos em nossas cabeças esperançosas que era chegada a hora. O sonho estava mais perto do que nunca, há dezessete anos não chegávamos tão longe! Infelizmente, mais uma queda. Em 6 minutos o Boca Juniors, através do "maledetto benedetto" decidiu uma classificação que poderia ser nossa, no jogo de ida, lá na maledetta bombonera.


O jogo de volta, como eu já dizia com o babbo, era mais complicado mesmo. Apesar de sabermos da nossa história de viradas pra lá de históricas. E mesmo sofrendo um gol que nos colocava como obrigação fazer quatro para seguirmos vivos na competição, ainda acreditávamos.
Por toda minha vida vou lembrar que neste dia, na fileira da frente, um tal de Seu Roberto virava para mim e fazia as contas para que acontecesse um “miracolo”**. “Até os 15 minutos do segundo tempo temos que fazer dois gols, garoto! E aí: Miracolo!”. Aconteceu. Luan e Gustavo Gómez conseguiram tomar parte na redenção divina que estava prestes a acontecer ali. Eu já começava a formular este texto, cujo título seria baseado nos dizeres do senhor que via o jogo na minha frente. “Miracolo! Miracolo!”.


Mas não adianta. Quando não é chegada a hora, devemos respeitar a vontade divina. A mesma vontade que faz com que um dos melhores jogadores da partida não tenha mais força vital o suficiente, por tanto se doar na partida, pra acompanhar o tal do Benedetto por mais alguns metros e impedir o segundo gol do Boca. A mesma vontade que impede que o craque de um metro e sessenta não consiga furar toda a defesa adversária, como está acostumado a fazer. A mesma vontade divina que não deixou que nós, palmeirenses, víssemos um “miracolo” acontecer nessa semifinal de libertadores.


Poderia acontecer o pior, acontece, aconteceu. Não posso dizer que não dói. É óbvio que machuca, que fere, que derruba mais uma pedra em cima de nossos sonhos. Mas no entanto, eu prefiro ver o copo que parece meio vazio, como um copo meio cheio. Muito mais cheio que vazio.


Podemos resumir pelo velho ditado: “só conhece a luz quem já viveu na escuridão”. E rapaz, nós vivemos anos e anos dentro de um abismo do qual não víamos sequer a possibilidade de sair. Um lugar tão profundo a ponto de não vermos mais a luz onde brilha a nossa natureza vencedora. E olha só onde estamos. Sob a luz natural da vitória e sob os holofotes da glória. Disputando todos os campeonatos em alto nível, como sempre sonhamos naqueles anos dolorosos.


Dos quatro campeonatos disputados, uma final, duas semifinais e uma liderança que se mantém com quatro pontos de distância para o segundo colocado, que vai logo atrás sentindo um pouco do cheiro do título.


Para quem viveu o Palmeiras naquele 2013 e naquele 2014 com a intensidade que vive o Palmeiras nos dias de hoje, é fácil levantar a bunda da arquibancada, no final do jogo, após uma dura eliminação numa semifinal de libertadores e aplaudir, cantar e sorrir por saber que só o fato de estarmos de novo, disputando o topo, já nos soa muito como um tal de “miracolo”.


A luta no Brasileirão continua! Avanti Palestra! Faltam sete jogos para o título!


Glossário:


*"Babbo", em italiano, é uma maneira carinhosa de dizer "pai";
**"Miracolo", em italiano, é o mesmo que "Milagre".


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Uma publicação compartilhada por Marcelo Brandão (@zmarcelojr) em