Mina: o jovem quase irresponsável que o palmeirense aprendeu a amar

 
*Com a colaboração de Rodrigo Rebelo


Em maio de 2016, o Palmeiras iniciava uma nova fase que terminaria com o eneacampeonato brasileiro. Na chegada de Cuca, o setor do campo que mais exibia desconfiança era a parte defensiva. Vitor Hugo gozava da merecida titularidade que o garantiria o cargo de zagueiro-artilheiro no fim do ano, mas quem jogaria ao seu lado era a principal dúvida. A visão do tormento se traduzia em um banco com Roger Carvalho e Leandro Almeida - daqueles jogadores que passam tão despercebidos por um time que a gente até esquece que um dia fizeram parte.


Edu Dracena, apesar da experiência, não seria a escolha principal de Cuca, e Thiago Martins, mesmo com apresentações seguras, não tinha total confiança da comissão técnica, pela idade.


Gazeta Press
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Com o cenário exposto, o pedido inicial foi por um bom zagueiro. Chegou, então, o nosso menino dançante, incansável, capaz de defender, sair jogando como um bom volante para abrir o jogo e ainda finalizar como um centroavante melhor do que alguns que vestiram a nossa camisa nos últimos anos. Quando corria em campo, a impressão era de que ele atravessaria os 105 metros em três passadas de perna [esta é a minha visão romântica].


Mina é divertido, carismático, um pouco atrapalhado com seu tamanho, ok, mas facilmente se encontrava na própria confusão. Um kamikaze no ataque, sem se lembrar de guardar posição - o que taticamente, algumas vezes, é bem prejudicial a organização coletiva. Forçava alguns passes desnecessários que resultavam em contra-ataques adversários. As poucas vezes em que perdia no bote era deixado para trás, mas na maior parte do tempo foi cirúrgico na defesa e um coringa para a parte ofensiva que, sinceramente, não tinha uma metodologia muito definida na segunda aparição de Cuca. Suas qualidades, dentro de um futebol menos técnico, escondiam suas deficiências joviais.


Cesar Greco/Ag Palmeiras/Reprodução
Cesar Greco/Ag Palmeiras/Reprodução


A venda foi um ótimo negócio para o Palmeiras (inegável), um clube é feito de transações, mas o vejo como um jogador muito mais necessário para a defesa palmeirense do que a catalã. Entendo que o seu estilo de jogo funciona melhor no futebol brasileiro, visto que o ritmo aqui é bem abaixo do que qualquer dez minutos “mais ou menos” de um jogo europeu. Perder a bola no Brasil é mais seguro. Os contra-ataques se armam em uma velocidade bem menor e nossos craques não são tão fatais quanto os responsáveis pelo meio campo das ligas de fora.


Yerry é o jovem quase irresponsável que adoramos amar, mesmo ainda não sabendo muito bem o momento certo de tomar a decisão de subir desenfreadamente para o ataque. Diferentemente de Gerard Piqué, que cumpre o ímpeto ofensivo com maturidade, noção tática e percepção de jogo para colocar em prática o elemento surpresa defensivo no ataque.


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O contraponto é a idade. Ainda que jovem, o zagueiro se dedica a tentar resolver o jogo quando todos não querem mais. Levando em consideração que está indo para um país em que existe uma maior preocupação tática do que a America do Sul, é uma oportunidade de ser moldado e evoluir (mesmo que Ernesto Valverde não seja o melhor nome para o trabalho).


A falta de zagueiros de origem no elenco barcelonista talvez jogue a favor do nosso menino: Samuel Umiti, que vinha sendo titular ao lado de Piqué, sofreu uma lesão na coxa direita e está fora de combate. Além dele e do capitão culé, o outro da posição é Thomas Vermaelen, que sempre foi frequentador assíduo do departamento médico. O argentino Javier Mascherano, que está acostumado a jogar na função mas é volante de origem, parece estar de saída do clube.


Com a negociação, voltamos ao mesmo ponto de desconfiança defensiva de dois anos atrás: sete jogadores para a posição e o que mais exibe confiança, também é aquele que, provavelmente, não conseguirá manter o ritmo de titular por toda uma temporada.


Miguel Schincariol/ Gazeta Press
Miguel Schincariol/ Gazeta Press


A construção de um bom time começa de trás para frente: uma equipe ganha total liberdade para se jogar no ataque quando confia plenamente em sua defesa.


Vejo uma quase pressa em encontrar uma dupla que realmente se firme para trabalhar bem ao lado de laterais com características menos defensivas. Mina vai fazer falta.


A primeira vez em que jogador pisou no gramado do Allianz, tirou o tênis e optou por andar descalço, disse que era em respeito ao lugar, por considerar que era um templo sagrado. Em uma citação religiosa, completou, explicando, que “Deus” disse que “em todo terreno que tu pisarás, tu conquistarás”. Se esse era o objetivo, ele conquistou.


Caso queira sair descalço, que fique à vontade, porque é assim que a gente anda quando se sente em casa - que continuará sendo dele.


Tudo o que sei é que ele teria um papel muito mais importante aqui do que executar o mesmo trabalho que Vitor Hugo faz na Itália: esquentar banco.


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