A semana em que Buenos Aires virou Perdizes

Eu nasci junto com a história de Palmeiras e Boca Juniors. Em 1994, em uma noite muito iluminada por parte do time brasileiro. O início do encontro seria marcado pelo inesquecível e doído - para eles - 6x1. Amadureci no futebol vendo a torcida xeneize fazer meus olhos ficarem pregados na televisão, sem desviar, cada vez que o time entrava em campo e o barulho ensurdecedor atravessava o aparelho pra chegar na sala de casa. Os rolos de papel voando enquanto o time entrava em campo, a sensação de enxergar a arquibancada vibrar e um número tão grande de torcedores alucinados que, só de imaginar, a experiência já se fazia curiosamente assustadora. 


Durante anos acreditei que o auge da minha vida na arquibancada seria presenciar o Palmeiras dentro daquele inferno azul e amarelo. E hoje faz exatamente uma semana que o inesperado aconteceu.


Luana Maluf
Luana Maluf


O anúncio dos grupos e a data do confronto se apresentaram como a desculpa perfeita para, depois de dezessete anos, ver o Palmeiras voltar ao estádio Alberto José Armando pela Libertadores. Um detalhe importante dessas viagens é que você nunca se sente sozinho, principalmente quando está sozinho. E o que a torcida fez na cidade foi inacreditável.


Fiquei hospedada no centro, entre a Casa Rosada e o Obelisco, localização boa para fazer tudo sem transporte - desde que você não se importe muito em gastar as suas pernas. Todas as esquinas em que virávamos, a camisa do Palmeiras se destacava em meio ao resto. Em todos os restaurantes, ruas, avenidas ou lojas em que você entrasse, teria um Palmeirense. Levamos uma parte de São Paulo, que já é nossa, e a instalamos na capital Argentina.


É incrível como nós, amantes do futebol, nos unimos com desconhecidos, facilmente, como se fôssemos amigos de infância que compartilham as mesmas lembranças. Porque, sim, compartilhamos e as completamos. Esse foi um pouco do azar do Boca Juniors: estávamos todos juntos, nos sentindo em casa.


O caminho pro jogo sempre causa aquele frio na barriga, mandam fechar as cortinas do ônibus como se a qualquer momento uma pedra fosse vir em direção da sua cara (acontece!). Mas a curiosidade de saber o que se passa do lado de fora, nos faz puxar o pano um pouquinho com o dedo para ficar espionando o que tá acontecendo. As ruas próximas ao estádio têm pouquíssima luz, se faz aquele silêncio que premedita uma situação de perigo e quase não se vê pessoas nas ruas.


Descemos onde a polícia garante a segurança e de lá caminhamos, passando por três revistas, até chegar nas infinitas escadas que te levam a arquibancada superior. É muita escada, mas no fim do jogo parecíamos flutuar sobre elas. 


Na arquibancada superior, íngrime, você tem que se inclinar para enxergar o gol que está logo abaixo. É alto, imponente e, sim, você perde alguns minutos admirando a torcida deles - sem imaginar que durante o jogo será capaz de silenciá-los. O estádio, que te engole, ficou pequeno quando o time do Palmeiras, desde os primeiros minutos, se dedicou a sufocar o dono da casa em busca do gol. 


Ficou claro também que aquele fervor que eu esperava e acompanhei anos à distancia, ficou lá trás. Assim como no Brasil e na Europa, a elitização do futebol chegou na Bombonera, que se faz respirar durante os 90 minutos apenas com a La Doce - que, fique claro, não é pouca coisa. Já é muito mais do que costumamos fazer por aqui. Nos poucos momentos em que o estádio inteiro se une (nos acréscimos, perdendo de 2x0, por exemplo), é ensurdecedor e admirável. 


Os detalhes daquele jogo pertencem, unicamente, a quem lá esteve, com suas próprias dificuldades e experiências. O que sei é que, em comum, todos nós, presentes na Bombonera ou não, vivemos um momento histórico. A implicância com os erros de Keno na primeira etapa, convertidos em um gol de cabeça libertador; a angústia das tentativas fracassadas de ninguém encobrir o goleiro adiantado, até que o vagabundo que queremos amar o fez. A audácia de Pavón em nos causar apreensão cada vez que avançava pela ponta do campo e ganhava as costas do Marcos Rocha e a inacreditável - e inesperada - maturidade de um Palmeiras cobrado na porta do hotel, respondendo na bola.


Se Tevez quis nos ouvir no Allianz, Lucas Lima só sentenciou o que já fazíamos na arquibancada visitante: pediu silêncio para que se escutasse o único barulho que existiu naquele estádio na noite de quarta-feira. O dos Palmeirenses, em campo e fora dele.

Entre frustrações, desespero e conquistas pessoais, o número de títulos de um clube se minimiza diante da grandiosidade dos momentos históricos possíveis de se viver sendo um torcedor. 


--


Junto com o vídeo da viagem, quero agradecer todos que me acompanharam na aventura inesquecível de tomar a Argentina e ser genuinamente feliz na Bombonera. Citaria os nomes, mas me sentiria injusta por esquecer alguém. 


Desfrutem, assim como eu fiz.