Continuidade técnica e tática será a maior vitória do Palmeiras

Gazeta Press
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CONSTRUÇÃO DE BASE


Hoje, indiscutivelmente, temos que olhar para o time do Renato Gaúcho e reverenciar o paciente trabalho que vem sido feito nos últimos cinco anos (não dá para ignorar a participação de Roger Machado). É interessante que os caminhos de duas das maiores forças do cenário nacional sejam tão passíveis de comparação. Palmeiras está nas mãos do técnico que iniciou a revolução na forma de jogar de um clube gaúcho acostumado a ser visto como um time marcador, brigador, defensivo e forte, para, então, a bonita equipe que brinca de jogar bola. Grêmio apresenta o melhor futebol do país, com sobra, nas mãos de um ex-subestimado treinador.


Em Minas, Mano Menezes está em seu terceiro ano de Cruzeiro, com dois títulos na mala e apresentações acima da média - quando aposta em um time mais ofensivo, abrindo mão da retranca (que pouco tem a ver com a proposta do jogo do Cruzeiro ao longo de sua história). Seu eficiente trabalho segue blindado e com certa garantia de longevidade nos campeonatos. Também aparece como favorito aos títulos.


As trajetórias dos três clubes não por coincidência se cruzaram nos últimos dois anos: Palmeiras foi eliminado na Copa do Brasil por ambos - que terminaram campeões em diferentes edições. Significa que os times mais competitivos do Brasil estão sempre na busca pelo mesmo espaço. A diferença é que “faltava algo” para o Palmeiras que não parece mais faltar: a construção de uma base sólida de jogo, repetindo o mesmo time.


Importante: são times competitivos construídos sem loucuras por parte da diretoria, sem preocupação com dívidas impagáveis e uma administração de investimento muito sensata e, em alguns casos, com oportunidades de retorno.


TER UM MÉTODO DE JOGO


Poucas coisas são tão importantes dentro de uma equipe como a construção de um método de jogo - a forma como o time joga e passa a ser reconhecido por isso. Dificilmente vemos times brasileiros com características próprias durante um longo período, porque nenhum trabalho dura tempo o suficiente para que a teoria passa a se tornar uma mentalidade permanente. Os times europeus, em sua maioria, seguem tradições e são reconhecidos pela sua cultura dentro de campo. É dessa forma que julgamos quais jogadores se encaixariam em quais times, pelo simples fato de as características dos jogadores serem compatíveis ou não com a concepção de futebol do clube. Ou seja, dentro de um modelo pronto existe a procura por peças específicas. 


Devido à constante impaciência dos torcedores para um trabalho a médio e longo prazo e a falta de "peito" das diretorias em segurar um treinador, estamos (mal) acostumados a ver times sendo reconstruídos com ideais diferentes, no entra-e-sai de treinadores, e aí não existe grupo de jogador que consiga ser flexível próximo a um mutante para acompanhar exigências distintas de postura técnica e posicionamento, em períodos curtos de tempo. Infeliz o ciclo que nos colocou frente a um futebol pouco plástico, nada vistoso e incapaz de nos prender diante de televisão apenas por prazer. É aqui que perdemos para os espetáculos vendidos pela organização dos campeonatos europeus.


Até aqui, o time alviverde foi um teste de alquimia na mão de cinco técnicos em um intervalo de menos de três anos: um Palmeiras irregular, mas sempre capaz de chegar longe nas competições pela qualidade individual de seus jogadores - o que pouco compensa quando se enfrenta um coletivo entrosado e dedicado.


Foi na irregularidade dos rivais que o Corinthians se destacou com seu coletivo pouco talentoso, porém pragmático, capaz de resolver os jogos em poucas jogadas - mesmo que sofrendo durante todo o jogo. O azar é que eles se tornaram reféns de um time titular que não estará para sempre imune às lesões. Mas foi a insistência na base de jogo, com alta preocupação defensiva, e a confiança em manter o técnico no cargo que garantiu a continuidade do trabalho e entendimento do elenco sobre o que se esperava em campo. O resultado apareceu.


Era o caminho que a equipe do Palmeiras precisava encontrar: persistência no que se acredita como postura dentro de campo, utilizando as melhores características de seus jogadores e testando, em diversas situações e adversidades, opções e variações táticas de acordo com o adversário - sem perder a essência do jogo que deve ser proposto. Toque de bola rápido, ocupação do meio campo, apoio dos laterais na criação de jogadas, combate a saída de bola adversária, intensidade durante os noventa minutos e domínio de espaço, sem a bola, para ter o controle do jogo. Ou seja, o be-a-bá do futebol moderno para um time que tem muitas expectativas e ambições.


PACIÊNCIA


Se olêmica queda no Paulistão para o Corinthians ensaiou um possível desentendimento entre torcida e time, ficou mais do que provado que paciência e racionalidade são os maiores aliados para o alto desempenho e entrega do time. Passado o baque, nosso futebol já se mostra muito superior ao do rival que levou a taça, tanto no desempenho visual quanto nos resultados.


Palmeiras tem tudo o que é necessário para, em alguns anos, estabelecer uma distância considerável de outros clubes brasileiros: receita de jogos altíssima, investimento de patrocinador, trabalho contínuo, diretoria dedicada em pensar o bem do clube, jogadores qualificados satisfeitos em estarem vestindo a camisa e torcida presente em todos os estádios (não à toa somos tão bons como visitantes). A execução do planejamento para o sucesso do clube está sendo aparentemente administrada com inteligência. Temos que reconhecer que são poucos os times brasileiros com tamanho profissionalismo.


É a primeira vez em que um treinador do Palmeiras parece conseguir fazer valer a referência positiva ao grande elenco - “grande” aqui no sentido de quantidade mesmo. As trocas, extremamente necessárias diante da exigência do calendário, têm se mostrado completamente capazes de substituir os titulares à altura.


Os reservas não se sentem perdidos em campo, mantêm a intensidade, se encaixam no jogo e no posicionamento proposto pelo técnico. Além disso, as oportunidades para que talentos mostrem seu potencial já se apresentam diante dos nossos olhos. Hyoran, o garoto que esperou pacientemente a sua vez, costuma ser uma feliz surpresa para o jogo cadenciado que queremos ver.


Roger administra bem o elenco e todos entendem a importância de estarem em sua melhor forma para substituir o companheiro. Poucos se enxergam como “reservas”, já que lutar pela ponta de todos os campeonatos vai exigir grande rotatividade (até o momento bem positiva).


Me preocupa um pouco a pausa para a Copa que, inevitavelmente, quebra a sequência positiva do trabalho que vem sendo apresentado. Mas acredito no comprometimento de um elenco que quer muito ser campeão. Também pode ser um bom período para o treinador melhorar ainda mais a estratégia em cima de suas ideias, com repetição, tempo e treinamentos. Sem a preocupação do calendário. 


Não existe segredo para títulos, além da continuidade de um trabalho bem-feito.