A desonestidade de Carlos Eugênio Simon mudou a minha vida


No dia 8 de novembro de 2009, mais ou menos às 16h30, Carlos Eugênio Simon mudou para sempre a minha vida.


Por uns dois minutos, eu perdi completamente o controle. Gritei com a televisão inúmeras vezes, discuti com Cleber Machado, que narrava o jogo. Revoltei-me juntamente com Diego Souza. Chorei de raiva com a expressão de lamentação do Obina, pelo gol ilegitimamente anulado, e com os gestos do Muricy Ramalho. Perdi a voz. Suava exageradamente pela testa e sentia taquicardia. Quando a vista ficou escura, decidi me sentar. E senti um clique.


Olhei incrédulo para a TV por alguns minutos mais e me levantei. Fui até um dos quartos do apartamento em que morava na Vila Olímpia e fiz o comunicado à minha esposa na época: “A partir de hoje, eu não vou mais deixar o futebol mandar na minha vida”.


Gaspar Nóbrega/ Gazeta Press
Gaspar Nóbrega/ Gazeta Press

Obina comemora gol pelo Palmeiras, em 2009, no Palestra Itália


Ela, que me conhecia há sete anos, sabia o papel central que o futebol e, principalmente, o Palmeiras representavam em tudo que eu fazia. Eu tinha uma tatuagem com o primeiro escudo do Palestra Itália no braço, feita em 2006. Eu vivia para ir aos jogos, assistí-los pela TV, ouvi-los no rádio ou lê-los nos “ao vivo” de portais. Era difícil crer naquela resolução. Mas ela, respeitosamente, indagou por quê.


Eu estava verdadeiramente calmo, sentia-me anestesiado.


“Não posso permitir que algo sobre o qual eu não tenho qualquer controle seja tão central na minha vida. Não há nada que eu possa fazer aqui, da sala de casa, para reverter o que está acontecendo no Maracanã agora”, disse a ela, sem explicar o que Simon havia feito. Ela não quis saber o que tinha acontecido, mas sorriu, disse que aquilo era bom e voltou a assistir a alguma coisa na TV. Provavelmente à versão gringa do “Esquadrão da Moda”.


E minha vida nunca mais foi a mesma. Naquele dia, dez anos após ter entrado na Faculdade Cásper Líbero com o intuito de me tornar jornalista esportivo, eu recomeçava o caminho que abandonara anos antes, ao começar a estagiar em uma multinacional e pegar gosto pela remuneração de assessor de imprensa. Na época, eu já estava em uma agência. Meses depois, eu me demiti. Um semestre depois, entrei no Diário de S. Paulo e me tornei repórter.


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Simon confessa sua desonestidade. E, ao anular intencionalmente um gol legítimo de Obina para corrigir um escanteio, segundo ele, mal marcado, naquela tarde, no Maracanã, matou também uma parte importante da minha personalidade: a irracionalidade futebolística. E uma parte do amor pelo clube, não há como se negar. O Palmeiras, como todo palmeirense sabe, começou ali a perder aquele Brasileiro. E o Fluminense deu mais um passo para se livrar do rebaixamento.



Jamais deixei de amar o Palmeiras, que fique muito claro. Nem me tornei um monge. Mas perdi aquela dose extra de irracionalidade que a maioria dos torcedores cultiva. Para me tornar capaz de analisar lances com frieza e poder ter como profissão fazer reportagens sobre futebol, ganhar dinheiro honestamente, inclusive na cobertura de outros clubes. Cobrir o Santos, por exemplo, é delicioso. Mesmo o São Paulo, no dia-a-dia de CT, tem seu lado agradável.


Ainda sofro, é claro. Ainda ganho ou perco o dia por causa de uma derrota. O dia. Não mais o mês, a semana, o ano, a vida. Já não chuto portas ou quebro o dedo da mão por conta de socos em paredes. Já não fico com a vista turva.


Em 2012, por exemplo, quando Carlos Eugênio Simon afirmou que Obina havia lhe confessado ter feito falta no lance, fui um dos primeiros a chamar o então assessor do Palmeiras Fabio Finelli para que perguntasse ao atacante, de volta ao clube, se era verdade. Obina negou, é claro, e o Palmeiras emitiu uma nota oficial. Com a qual eu vibraria, três anos antes. Mas que apenas tratei com rigor jornalístico e publiquei no jornal, no pé de alguma matéria.


Por outro lado, a felicidade por um grande momento também tornou-se mais efêmera. Se também não sofro tanto com os maus momentos, é verdade que o prazer pelos momentos bons arrefeceu-se. O Palmeiras melhora meu dia quando vence bem. Mas não mais o mês, a semana. A vida.


Desde 2015, quando deixei a cobertura diária do futebol, permito-me um pouco mais de entrega emocional. Mas nunca, nunca mais gostei de futebol como até o dia 8 de novembro de 2009. Por culpa de Carlos Eugênio Simon, um desonesto confesso.


* * *


Dia 19 de junho de 2014. Estou na fila do bandejão da Arena Corinthians, em Itaquera. Em algumas horas, Uruguai e Inglaterra vão se enfrentar pela fase de grupos da Copa do Mundo, naquele que viria a ser o maior jogo de futebol a que assisti in loco na vida. Talvez, o ponto mais alto da minha carreira como jornalista esportivo, empatado com a cobertura do Super Bowl 50, em 2016.


À minha frente, um senhor um pouco mais alto do que eu fala com um sotaque gaúcho com um colega e aguarda sua vez de pagar o absurdamente caro e ruim almoço vendido pela FIFA. Gel no cabelo, camisa azul da emissora de TV em que trabalha, Carlos Eugênio Simon está à minha frente, a centímetros de distância.


Eu rio de nervoso e saio da fila, que está grande, e vou para o seu final. Eu posso ter me tornado repórter, perdido um pouco da irracionalidade, ficado “quase” isento nos momentos em que estou trabalhando. Mas há coisas que falam mais alto. Há perdões que não se consegue conceder. Há pessoas de quem não quero estar próximo.


Simon mudou minha vida, mas nem tanto.


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