Eu só conseguia gritar "acabou!": dezoito anos do maior Palmeiras x Corinthians da História

Acabou!


Essas três sílabas eram a única coisa que eu conseguia verbalizar naquela noite, 18 anos atrás. Na TV, Galvão Bueno gritava “Marcos pegou! Marcos pegou!”, mas eu não ouvia. Como também não vi o peixinho do nosso arqueiro na direção da bandeira de escanteio do Morumbi. Porque a Vila Pompeia explodia em gritos e fogos. E eu, na janela do meu quarto, apenas conseguia verbalizar, gritando, duas, dez, vinte vezes: “Acabou! Acabou!”.


Mais do que de orgulho, a sensação era de alívio. Revalidávamos a eliminação deles por nós em 1999. Chancelávamos nossa própria conquista de um ano antes. Carimbávamos o Mundial deles. E mostrávamos que nossa derrota para o United, no dezembro anterior, não nos matara, mas sim, nos fortalecera.


Acervo Gazeta Press
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Marcos corre para comemorar a defesa no pênalti de Marcelinho


À derrota no primeiro jogo, assisti in loco. De detalhes, não me lembro muito. O nervosismo não me deixou gravar muita coisa no disco rígido, meio amolecido pelas cervejas do “esquenta". Lembro-me, porém, do gol de Vampeta, no finzinho do jogo, quando já ia me movimentando para sair do estádio: 4 a 3.


Foi por medo de confronto que não fui à decisão. Não meu. Meus pais me pediram para que não fosse. O meu pai palmeirense e minha mãe corintiana. Ambos preocupados com uma derrota do próprio time, temendo por quebra-quebra, qualquer que fosse o resultado.


Assisti ao jogo inteiro em pé. O Morumbi se mudou para o meu quarto, onde fiquei sozinho. Ninguém em sã consciência conseguia ver o Palmeiras ao meu lado naquela época. Eu cantava sem parar. Eu discutia com a TV. Eu gritava “ladrão” para os jogadores, pedia bola invertida e andava para lá e para cá mais do que o nosso técnico no estádio.


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O Palmeiras sai na frente com Euller, que jogou demais naquela noite, e domina um jogo muito franco, em que ninguém pôde nem quis defender mais do que atacar. Luizão empata quatro minutos depois. E vira, no começo do segundo tempo, aos 6 minutos. Alex empata, aos 14 minutos. E, a 19 minutos do fim, nasce um herói eterno.


Alex, que fez naquele dia a segunda melhor partida de sua vida pelo Palestra (a primeira foi contra o River, na semi do ano anterior, em São Paulo), bateu a falta meio baixa, na área. Ninguém corta. A bola quica um pouco à frente da pequena área. Adilson deixa passar, Dida não vai nela. Mas Galeano, ah, Galeano, esse não desistia nunca.


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Galeano, Argel e Luis Claudio comemoram o terceiro gol do Palmeiras no jogo


Quem acompanhava o Palmeiras naquela época sabe bem do apreço do treinador pelo volante raçudo e de técnica pouco refinada. Comprou briga com quem quer que tenha cruzado seu caminho para fazer valer a importância daquele paranaense criado em Osasco e nas nossas categorias de base. Era com ele que Felipão falava o jogo inteiro. Quase sempre para repreendê-lo: “Galeano, tá errado!”, bradava o bigodudo, umas 40 vezes por jogo.
Galeano nunca esteve tão certo como naquela noite.


A bola vem baixa, na altura da cintura quase colada à trave. O goleiro alvinegro não se mexe. Mas Galeano a persegue, olhos atentos, faca nos dentes.


O volante então se abaixa. Não é possível, ele está livre! Não é possível, Galeano vai revirar o jogo! E, entre todas as surpresas e desconfianças do mundo, ele, de joelhos, com o peito, vence Dida. E é com o goleiro, involuntariamente, que o camisa 25 comemora primeiro, abraçado e enroscado, o gol que coloca o Palmeiras em vantagem no jogo. O gol mais importante do Dérbi mais importante da História.


Os 20 minutos subsequentes foram apenas um preâmbulo para a inevitável apoteose. Sim, aquele jogo merecia ir para os pênaltis. Aquela epopeia merecia um final catártico.


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Os nove primeiros tiros, muito bem executados, não deixam chances para os dois goleiros, que até acertam alguns cantos. Era como se todos soubéssemos que aquele jogo já tinha um roteiro traçado. E Marcelinho Carioca se dirige para fazer a cobrança.


Seria clichê demais se Marcelinho errasse, penso eu. Não é possível, eu tentava me convencer. Mas e se?


No rádio, José Silvério preconiza: “pro palmeirense, se Marcelinho perder, teria um gosto todo especial, porque é dele que a torcida quer arrancar o sangue”, diz ele antes de anunciar e dar uma das maiores “secadas” de todos os tempos:


“Toma distância, Marcelinho, pra cobrança. Ele bate muito bem. Autorizado. Foi pra bola, bateu…”


No meu Morumbi particular, eu abro os braços, junto com o Marcão. No meu estádio, eu pulo e quase bato a cabeça no lustre enquanto o Santo pula para seu lado direito e espalma o chute.


Corro pra janela e só consigo gritar “acabou!”. E, enquanto faço isso, uma parte consciente do meu cérebro de 19 anos se indaga: será esse o jogo de que falaremos daqui a dez, 20 anos? Será esse o maior Dérbi da História?”.


Dezoito anos depois, eu ainda não vi nada maior.


Grêmio


O Palmeiras segue precisando se provar A vitória contra o São Paulo, no último sábado, de nada terá valido se o o time jogar um futebol ruim e sair derrotado jogando mal. 


Faço questão de ressaltar o "jogando mal", porque a derrota hoje é algo bem natural, caso venha. O time do Grêmio é muito bom. Mais do que o resultado, o Palmeiras deve buscar consistência em Porto Alegre. 


Fernando Dantas/ Gazeta Press
Fernando Dantas/ Gazeta Press

Hyoran comemora golaço contra o Sport no Allianz Parque. Boas chances de titularidade para ele hoje


Mas, se já quiser reverter a perda de pontos contra o Sport em casa, Verdão, tá liberado ganhar dos gaúchos hoje, estejam à vontade.  


E, Roger, por favor, hoje, sem Keno e Borja, é dia de Hyoran titular, não invente.