Não está morta a Ponte Preta que luta

Em meu último parágrafo no post passado - após o empate no Couto Pereira, ante o Coritiba - frisei que a Ponte Preta, no momento delicado em que vive, precisava de tudo o que pudesse ajudá-la a sair dessa lama, sobretudo, de quem estivesse disposto a ajudar.


E escolhi começar repetindo essa frase, pois absolutamente nada pode simbolizar mais a vitória de ontem do que a superação e a disposição de Danilo Barcelos. O nome do jogo e grande responsável por recolocar a Macaca na disputa do campeonato. Com o triunfo por 2 a 1, contra o Atlético Paranaense, no Majestoso, a Alvinegra voltou a sonhar com a salvação. Será mesmo possível?


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Danilo comemora primeiro gol no jogo: de falta


Se realmente terá essa capacidade, só as próximas rodadas dirão. Mas ficou muito claro o caminho a ser percorrido e que Eduardo Baptista, em meio aos seus erros de escalação de peças na zaga e quase desespero ante um péssimo retrospecto na segunda passagem pelo comando da Ponte, acertou em cheio ao blindar os 11 iniciais e praticamente fechar o grupo com quem quer contar até o final do campeonato. Esperamos que a estratégia - teoricamente de campo, embora muito envolvida com o emocional e motivacional - se mostre a correta e resulte na manutenção da Macaca na Série A para 2018.


Gripado, com problema nas duas amígdalas e dores no pé, Barcelos não tinha nenhuma condição de jogo. Isso é o que disseram Lucca, melhor amigo do meia no grupo de jogadores, e o próprio treinador Eduardo Baptista, ao final do jogo. Mesmo assim, Danilo foi para a cancha. Precisou de três injeções para suportar as dores e conseguir entrar em campo. E iluminado seja o que traçou esse destino ao camisa 7.


A vida muitas das vezes é extremamente injusta. O que dizer do futebol? O mais injusto dos esportes. Mas, em ambos os casos, também existem ocasiões em que os merecedores são recompensados. E como um prêmio pelo seu honroso esforço, no momento em que a Ponte Preta sofria para se encaixar num jogo difícil, quando o adversário era melhor na partida e onde só uma vitória daria respiro na tabela, a bola parada era a oportunidade perfeita.


Nunca critiquei Danilo por sua habilidade ou competência com a bola no pé esquerdo. Ele foi uma das recomendações de contratações que demos aqui ao início da temporada e valorizo no blog, desde sua chegada, a qualidade com que bate na bola. Isso já estava provado nos pênaltis perfeitamente cobrados e em assistências que havia dado em escanteios. Restava uma falta. Não resta mais.


A distância era muito curta para a entrada da área e, por isso, ficaria difícil tentar encobrir a barreira, especialidade de Lucca. Rodrigo poderia soltar um canudo, mas nada garantiria que a bola não subisse demais. Danilo soube aliar o jeito com a força, soltou a surda, estufou a rede lateral do goleiro campeão olímpico pelo Brasil, Weverton, e correu para a galera. Muito festejado pelos colegas e chorando muito, com as mãos no rosto, pôde-se imaginar o que passava pela cabeça do autor do gol. Nas arquibancadas, explosão e alívio.


O segundo tempo foi melhor para a Macaca. Com as rédeas do jogo, era questão de tempo ampliar. E foi na criatividade de Léo Gamalho. O centroavante saiu de dentro da área para armar a jogada pelo flanco direito, achou Nino Paraíba na ultrapassagem e o lateral cruzou na medida para ele, Danilo, o merecedor, o iluminado, fazer seu segundo gol. Dessa vez de cabeça.


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Danilo testa para o gol e conta com desvio para ampliar


Como era a Ponte Preta em campo, ainda estava por vir aquela dose caprichada de sofrimento já habitual. Em desatenção da zaga, um cruzamento cortou toda a área defensiva alvinegra até chegar aos pés de Sidcley. O lateral atleticano acertou o voleio, porém contou com a sorte e um quique estranho da bola no gramado para matar o goleiro Aranha. Não culpo o arqueiro pontepretano, já que o movimento da bola depois de atingir o ‘morrinho artilheiro’ foi muito esquisito. Alguns torcedores pegaram no pé do camisa 1 e ele reclamou na saída para o vestiário.


Antes do apito final, a tortura: o Furacão alçou inúmeras bolas dentro da área campineira e quase todas levaram perigo. A pior delas, nos pés de Douglas Coutinho, Aranha calou os críticos com mais um milagre para salvar e garantir os três pontos para a Nega Veia. Coroando a atitude e dedicação de quem entrou no gramado, de quem fez bom jogo contra o Coxa e, principalmente, se sacrificou, de alguma maneira, pela camisa da Ponte Preta, demonstrando interesse pelo objetivo e pela história da agremiação. Adjetivos, hoje, ilustrados pela face de Danilo Barcelos.


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Aranha garante resultado, mas precisa parar de culpar a torcida nos microfones


Recapitulando rapidamente: ao sair do Couto Pereira, na entrevista coletiva, Baptista enalteceu o espírito dos atletas que foram melhores do que o Coritiba na partida e mereceram voltar da capital paranaense com a vitória e mais dois pontos na bagagem. Para ele, a grande marca e lição daquele empate foi saber quem está focado e disposto a se esforçar e se sacrificar na árdua batalha contra o rebaixamento. É claro que entrar em campo e honrar seus compromissos deveria ser a premissa de todos e nada mais que a obrigação dos atletas contratados e que recebem salário - muitas vezes polpudos - de qualquer clube. Na vida real, não é bem assim que funciona.


Dono do maior salário do elenco alvinegro, Emerson Sheik chegou como contratação de peso. Ajudou muito a Macaca, principalmente no primeiro semestre, mas se viu desmotivado ao ter de lutar, dividindo gramado com um punhado de cabeças de bagre, na parte de baixo da tabela, contra o descenso.


Em meio às notícias circulando na mídia sobre atrasos para os treinos e migués para não viajar nos jogos fora de casa, a fala de Eduardo no Couto pareceu ter mira no atacante veterano, que oficialmente não viajou para Curitiba por “desconforto muscular”.


A crise, em qualquer clube de futebol, escancara defeitos. Esse, de Emerson, todos já sabiam que era de seu feitio. E enquanto quis jogar aqui, teve bom desempenho, inegavelmente fez por merecer a confiança depositada, já que de seu futebol ninguém pode falar um A sequer. Desinteressado, como estava nas últimas partidas, não existia outro caminho senão causar desconfiança e repulsa no torcedor pontepretano.


Novamente, de acordo com a versão oficial, um “desconforto muscular” tirou Sheik do confronto de ontem e, assim, com a blindagem e tática de dar moral à equipe adotada pelo treineiro alvinegro, resultando em merecedora vitória, talvez seja difícil contar com a presença de Sheik novamente com a camisa da Ponte Preta.


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Diferença de comemoração de Eduardo Baptista com o cabisbaixo Fernando Bob é notável


Na coletiva de ontem, no Majestoso, Baptista despistou sobre o atacante, entretanto tornou a valorizar quem se dedica. Em paralelo, por exemplo, com o volante Wendel, um dos líderes do grupo, praticamente o braço direito de Eduardo dentro da Ponte desde o ano passado, que foi para o sacrifício na rodada passada, pulando a transição de uma lesão, e, ontem, estava à beira do gramado apoiando e dando instruções à equipe junto ao comandante.


Se há uma chance, agora viva, de a Veterana se salvar do rebaixamento, ela é assim: com mais Danilos e Wendels e menos Sheiks. Se o time armado por essa diretoria é ruim e incomoda tanto o atacante, que jogue quem tem vontade. Quem está interessado e focado.