De quem é a culpa do fiasco da Ponte Preta?

Não é a primeira e muito provavelmente nem será a última vez que a Ponte Preta é rebaixada no Campeonato Brasileiro da Série A. Isso faz parte de clubes do tamanho da Ponte, sujeitos a uma divisão de cotas absurdamente injusta, mas também ciente de que seu poderio de investimento, em mídia e número de torcedores não pode ser comparado aos outros gigantes do futebol nacional.


Entender isso é fundamental para o começo da história. Erros podem acontecer e anos ruins também são normais.


Porém, de maneira alguma isso pode justificar especificamente esse rebaixamento de 2017. É simplesmente inaceitável o trabalho ridículo da diretoria executiva e do departamento de futebol da Alvinegra nesse ano. E mais do que escancarar a incompetência dos envolvidos, isso pune a mentalidade de quem dirige a Macaca há mais de 20 anos e não quer “largar o osso” de jeito nenhum. Toda revolta do torcedor é compreensível.


O grupo que se perpetua no poder, comandado pelo ex-presidente afastado e hoje “de honra” Sérgio Carnielli, tem um estilo de gestão bem peculiar. Ao mesmo passo que entendem ser os donos da verdade e não suportam críticas de imprensa e torcida, demonstram um enorme amadorismo na administração do clube. E isso, no futebol atual, é fatal.


O mais recente presidente escolhido por Carnielli é um velho conhecido de Sérgio. Trabalharam juntos nas empresas do mandatário antes de se juntarem na Macaca. Especialista em finanças, Vanderlei Pereira fez seu nome na Ponte dentro do departamento financeiro do clube, mas não é pontepretano. Aliás, não entende absolutamente nada de futebol em linhas gerais. Nisso, percebemos que o foco principal da diretoria atual é a planilha de receitas e despesas, e não o gramado.


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Presidente Vanderlei Pereira faz pronunciamento após o jogo. Não falou nada construtivo e não permitiu questionamentos


Ora, como pode o presidente de uma agremiação tão tradicional como a Ponte Preta não entender lhufas do esporte carro-chefe do clube? A ponto de passar vergonha em entrevistas, demonstrando total incapacidade de estar à frente do cargo que ocupa. E minha crítica aqui não vai ao estilão caipira "Jeca Tatu" de Vanderlei, desacostumado com as câmeras. Não. Ele não sabe o que falar sobre as quatro linhas, pois não entende sobre isso. Ponto. E isso é muito prejudicial. Passa desconfiança a todos os seus subordinados e principalmente ao torcedor.


Como dizem os aviadores, um avião não cai por apenas um motivo, e sim por uma conjunção de fatores. Em 2017, junte a isso um erro também na gestão financeira do clube. Quando mais precisava do empenho dos jogadores (ruins) que contrataram, já na reta final do campeonato, surgiu a informação - do repórter Pedro Orioli, da Rádio Central - de que os direitos de imagem dos atletas estavam em atraso.


Não há comando financeiro “expert” que resista a erros crassos na montagem de um elenco de futebol. Foram inúmeros equívocos. E, para isso, os responsabilizados estão no Departamento de Futebol, sobretudo Hélio Kazuo e Gustavo Bueno.


Gastos estapafúrdios torraram a maior receita da história da Alvinegra. Primeiro na contratação de atletas caros e que mal jogaram. Renato Cajá é o principal nome que me vem à cabeça. Emerson Sheik também ganha muito bem para estar pouco em campo - vou entrar nesse assunto mais adiante. Mas o que mais me intriga não são os medalhões.


Em uma temporada inteira, o departamento de futebol da Ponte não foi capaz de contratar sequer UM lateral-esquerdo decente. Perdeu Reinaldo para a Chape e começou o ano com Arthur. Péssimo, jogou final paulista e foi afastado no fim de semana seguinte. Contratou Fernandinho e João Lucas após o Paulistão, nenhum deu conta do recado. Danilo veio para atuar no meio campo e, no fim, sobrou para o limitado garoto Jeferson, improvisado, assumir a posição e ser rebaixado nela. O quanto não foi desperdiçado em dinheiro somente nessa posição? Depois que não me chorem orçamento apertado.


Não tiveram discernimento básico, que qualquer torcedor e amador tinha, de ver que muitas contratações de jogadores comprovadamente ruins eram furada. E a passagem relâmpago de Negueba? Maranhão, Claudinho e Léo Arthur? São inúmeros nomes.


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Vários jogadores ruins correndo para o vestiário com medo.jpg


Há quem defenda ambos, principalmente Gustavo, justificando que ele também traz bons nomes para a mesa da diretoria executiva. Só que a opção dos manda-chuvas é sempre pelo mais barato. E de novo a falta de profissionalismo esbarra na mentalidade provinciana e interiorana de medo e falta de ousadia. E agora? Quanto custa voltar da Série B para a elite? Ao menos R$ 30 milhões a menos na conta corrente.


Ser pontepretano, como Gustavo Bueno, também não é critério definidor de sucesso dentro de Moisés Lucarelli. Giovanni Dimarzio, vice-presidente, é macaco de arquibancada. No começo, ao assumir o cargo, foi esperança de muitos como uma mentalidade diferente lá dentro da Ponte. Depois, se mostrou, sobretudo emocionalmente, ineficiente para estar lá dentro e hoje praticamente sumiu.


Essa ausência de comando, como não poderia ser diferente, reflete dentro de campo como um espelho. Um time emocionalmente instável, “liderado” por falsos experientes.


Não foi Rodrigo o único responsável pelo rebaixamento, mas ele é uma imagem emblemática do fiasco de 2017. Saiu pela porta dos fundos em 2003 e voltou com desconfiança. Não só pelo futebol que já não tinha mais, especialmente na parte física por conta da idade, seja pelo destempero, que lhe é peculiar. O zagueiro ganhou de presente a braçadeira de capitão em diversas partidas - o famoso ‘capitão gancho’ - e foi assim ontem mais uma vez.


É muito emblemático que justo o capitão do time fosse responsável por mais uma expulsão infantil - a nona da Macaca na competição, líder isolada no quesito. Rodrigo entregou a partida de bandeja ao Vitória.


E nisso traço o paralelo para outra liderança furada e destemperada. Gilson Kleina fez trabalho ruim durante a primeira metade e um pedaço do segundo turno do Brasileirão, mas Eduardo Baptista fechou com chave de ouro e assinou seu nome no descenso com letras garrafais. O seu aproveitamento nessa segunda passagem fala por si só - 13 jogos: 8 derrotas, 2 empates e 3 vitórias. 28,2% de aproveitamento.


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Eduardo Baptista tem participação enorme no rebaixamento


Foi Eduardo quem bancou Rodrigo e destruiu a única coisa forte do time de Kleina. A dupla de zaga com Marllon e Luan Peres foi substituída por Rodrigo e Yago. Um como bomba-relógio e um estabanado que entregaram pontos com seus erros.


Baptista também não soube gerir bem uma desavença com Sheik. Por mais que eu tenha concordado com ele ao barrar o descompromissado atacante, talvez a melhor saída fosse pelo menos tentar contar com uma experiência de verdade nesse momento decisivo, além do futebol diferenciado de Emerson.


A virada sofrida neste domingo contra o Vitória é somente um capítulo, em que se pode puxar o fio que chegue até o fundo do iceberg onde mora a responsabilidade de um ano desastroso. Que começou aos trancos e barrancos com uma final estadual, perdida de forma vexaminosa no Majestoso, e termina com mais um filme doloroso na história da Ponte Preta.


A confusão generalizada depois do terceiro gol baiano também não é nada inédito e muito menos algo surpreendente para quem conhece a Macaca e sua torcida.


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Cenas como essa já eram esperadas em caso de rebaixamento. Sem novidades


Para completar o circo, um dia depois do rebaixamento acontece a eleição presidencial em Moisés Lucarelli, embora saiba-se que ela nada muda dentro do clube, já que os mandatários aparelharam o sistema de conselho para que não tenham sua soberania ameaçada. O que desanima ainda mais o torcedor sofrido que quer ver uma Ponte Preta grande, com menos desculpas e cenas de guerra de um rebaixamento e mais apostas de um futuro melhor. E não vê solução para isso em quem está lá há mais de 20 anos.