A Ponte Preta não pode ser tratada como bode expiatório

Eu tive um sonho. Diferentemente daquele papinho de uma coisa que sequer existiu, usado somente para puxar assunto com o contatinho, essa semana eu realmente sonhei com isso. 

Sonhei que estava voltando de mais uma caravana que fiz atrás da Ponte Preta. Como já diria o poeta Paulino Neves, atrás dela em qualquer canto do planeta. A Ponte perdera, para variar. Mas a festa era a mesma, a amizade, a bebedeira na van, cantoria, zoação ao rival e a nós mesmos e, sobretudo, a maior das provas de amor incondicional pelo clube do coração. Na lembrança vaga desse meu sonho estavam amigos de infância, que fiz no estádio e que devo à Nega Véia. Sem ela, minha vida e meu círculo de amizades seriam completamente diferentes. 


Ao contrário dos times grandes, a Ponte Preta não tem uma torcida nacional. Sua força - brutal, aliás, que gente que não é daqui não tem a menor noção - é restrita à região de Campinas, salvo algumas exceções. Quando existem, trazem em algum ponto da vida sua ligação com a região metropolitana da cidade - uma das zonas mais desenvolvidas e fortes do Brasil -, algum parentesco, amizade ou apadrinhamento de um torcedor campineiro.


Portanto, quando joga de visitante, a torcida da Ponte presente no local é composta de alguns poucos campineiros que já moram ou se encontram por algum motivo no local e outros loucos que deixaram suas casas na RMC para percorrer quilômetros atrás da maior paixão. Não se importando com o resto.


E mais uma vez se diferenciando dos "clubes grandes" - e eu diria que de 90% dos times de futebol do país -, a torcida alvinegra campineira tem em seu DNA o dom de seguir o clube nos compromissos fora de casa, seja onde for, momento ou campeonato. "Ah, mas onde o Flamengo jogar, o setor visitante estará lotado". Concordo. Mas lotado de quem? De torcedores que ali moram, ali nasceram e que já são da região. O carioca, torcedor comum de Fla, Botafogo, Fluminense ou Vasco, não tem o hábito de sair do Rio de Janeiro para acompanhar seu time em outro estado. Assim como não o fazem torcedores do Palmeiras, São Paulo, Santos. Atlético-MG, Cruzeiro. Faço a resalva dos torcedores componentes de organizadas, vou chegar lá adiante, ou de partidas super importantes. Simplesmente não lhes é um hábito. 


Forjada na luta e no preconceito, hostilizada sempre por onde passou, a Macaca é assim conhecida por sua massa ter justamente sofrido de racismo por onde andava nos anos passados. Viajando em caravanas enormes de ônibus ou de trem pelo interior paulista, gente de tudo quanto é classe social, cor - sobretudo negros -, credo, profissão, que faziam de tudo para acompanhar a Ponte onde ela fosse. Um clube que quase nunca foi protagonista na história futebolistica, porém sempre notável na sua representatividade de garra. Principalmente de sua torcida fiel e loucamente apaixonada. Ainda antes do surgimento de organizadas, mas já adeptos de uma confusão - ou a sociedade brasileira é pacífica desde seus primódios? - foram logo apelidados de "macacada". Apelido que hoje tatuamos no peito com orgulho das nossas raízes. 


Atualmente em muito menor número nos deslocamentos, a torcida visitante da Ponte Preta que se vê nos confrontos fora de Campinas, aí sim como a maioria dos outros clubes brasileiros, é composta de duas peculiares categorias: o "povão" - duvido que promotor saiba dessa tão comum alcunha futebolística - e os organizados. Aqueles que são hoje tido como o maior problema das bancadas brasileiras e têm, sim, muitos defeitos que devem ser investigados, combatidos e punidos dentro da lei. Trabalho que simplesmente é negligenciado por todas as esferas da justiça brasileira, por pura preguiça e falta de interesse em de fato resolver o problema. 


Por isso, infelizmente, meu sonho pode não ser realizado este ano assim como costumo fazê-lo nas outras temporadas em que varei estradas e céus atrás da Macaca. O Ministério Público do Estado de São Paulo enviou, na última sexta-feira, ofício à Federação Paulista solicitando que todos os jogos da Ponte Preta em 2018 sejam realizados com torcida única. Todos os jogos! Um absurdo sem igual, digno de uma perseguição infundada. 


'O documento é assinado pelo promotor de Justiça do Juizado do Torcedor, Paulo Castilho, e endereçado a Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da FPF. O pedido é por “torcida única em todos os jogos da Ponte Preta, em todas as categorias, em todos os campeonatos, como mandante (não poderá receber a torcida do time visitante) ou visitante (não poderá contar com a presença de sua torcida), durante o ano de 2018”.'


Gazeta Press
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Ministério Público-SP e promotor Paulo Castilho travam perseguição inútil, que não irá resolver o problema da violência no futebol


Na minha vivência de Ponte, desde cedo, já conheci torcedores membros de organizada que eram bandidos. Que tem passagem pela polícia por diversos delitos. Também conheci e tenho amizade com organizados que nunca deram tapa na cara de ninguém e sequer sabem o que é passar perto de uma ficha de delegacia.


Ora, mas já tive o desprazer de conhecer e apertar a mão de infratores de terno, membros de federação e com cargo pomposo e importante. Tem ex-presidente da CBF em prisão domicilar em Nova Iorque, ex-presidente da CBF com mil e uma falcatruas e denúncias fora do país, ex-presidente da Federação Paulista e atual presidente da CBF que não pode pisar fora do Brasil. Para esses aí, tem promotor brasileiro que se importa em pegar no pé e investigar? Nunca vi. 


Esses mesmos engomadinhos, que nunca sequer devem ter frequentado um cimento quente de arquibancada, que não pesquisaram e não conhecem a história do clube que fazem questão de prejudicar com canetadas no conforto do ar-condicionado. 


Atrás da Ponte já fui ao Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, entre outros estados. Me mandei para a Argentina duas vezes em um mês, quase perco uma namorada por voar até o Paraguai ano passado. Apesar de que as partidas da Alvinegra mais distantes de Campinas que eu tenha visto sejam em Recife-PE ou Campina Grande-PB, não tenho certeza exata do que é mais longe. Nunca fiz parte de organizada e nunca me envolvi em confusão - apesar de confusões de estádio quase terem me envolvido, quem é da cancha, ao contrário de quem é do escritório, sabe se virar. E eu estou sendo prejudicado por você, promotor Paulo Castilho.


Aí eu te pergunto: o que eu tenho a ver com isso?


E se alguém tiver culpa dos atos de violência em que se envolve, o que a Ponte Preta, como instituição, tem a ver com isso?


Gazeta Press
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Instituição e torcida da Ponte Preta não são culpadas pela violência no futebol - e na sociedade - brasileira


A decisão arbitrária com caráter de complô, perseguição e inútil - já que isso de maneira alguma impede que aconteçam brigas ou atos de violência relacionadas ao futebol em outros lugares da cidade ou até mesmo no entorno dos estádios - está sendo avaliada pelo departamento jurídico da Ponte Preta, e já vale para a partida de estreia no Campeonato Paulista de 2018, nesta quarta-feira, contra o Corinthians, no Pacaembu. 


A medida cita ainda preocupação especial com o dérbi campineiro pela Série B de 2018, já confirmado como jogo de torcida única em ambos os turnos.


De acordo com o MP-SP, a decisão foi motivada pela invasão de campo no Moisés Lucarelli, após o terceiro gol do Vitória, resultado que rebaixou a Ponte Preta no Brasileirão do ano passado. Curioso que na ocasião ante o time baiano, a torcida adversária não sofreu represálias e quem invadiu o campo continua solto e duvido que sequer foram indiciados ou punidos pela justiça.

Vale salientar que, em 2017, não existiu nenhum jogo em Moisés Lucarelli onde houvesse conflito dentro do estádio envolvendo torcedores visitantes. Com a Ponte Preta como visitante, também não me recordo de nenhum incidente dentro das praças esportivas. Sendo que a Macaca participou, inclusive, de quartas, semi e finais do Campeonato Paulista, respectivamente contra Santos, Palmeiras e Corinthians. Somando um total de zero confusões entre torcidas dentro das arquibancadas.

Já fora dela, é um problema crônico que essa medida não irá resolver, caro promotor.  

Reprodução Gmail
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Promotor, em resposta ao e-mail de um colega, mostra desconhecimento dos fatos

O promotor citou ainda uma confusão entre um grupo muito pequeno de torcedores em Franca, na partida entre Ponte Preta x Botafogo-SP, pela segunda fase da Copa São Paulo, agora em janeiro. E aí entra mais um ponto curioso na história e na decisão de Paulo Castilho.


Sobre essa confusão - onde torcedores do São Paulo se enfrentaram nas estradas do Estado antes de partida, que seria realizada também este ano pela Copa São Paulo -, a promotoria do estado preferiu punir apenas a torcida organizada Independente, do Tricolor Paulista. Ué. Aí já conseguimos entender tudo. Falta coragem ao Ministério Público em punir o clube da capital com o mesmo rigor? Certamente. Imagine você a repercussão. 


Já passou da hora da Ponte Preta crescer, bicar a porta da Federação Paulista de Futebol e romper relações com a instituição. O que que ela nos deu até hoje? Onde ela já nos ajudou? Muito pelo contrário. É só prejudicial e com dois pesos e duas medidas sempre. 


Eu também tive um sonho de mais igualdade e menos injustiça entre os clubes de futebol. A Ponte, desde sua fundação, foi precursora desses ideais. Inclusive com a primeira democracia racial do Brasil, tendo negros no quadro de sócios e no campo desde sua fundação. Será que um dia vai poder se ver livre dessa perseguição de preconceito tão prejudicial à instituição?


Sonho com poder acompanhar meu time fora de casa sem receio da recepção violenta da torcida adversária - ora, os outros também são violentos conosco - e ação brutal gratuita da polícia militar.


Numa das sociedades mais violentas do mundo, com índices de guerra no que diz respeito à segurança pública, será que o problema é mesmo a torcida da Ponte Preta? E que a decisão de nos tirar dos estádios vai resolver e colocar o Brasil e o futebol brasileiro nos trilhos da paz?