Por que a Ponte de 2018 joga melhor fora de casa?

O Paulistão de oscilações continua na Ponte Preta. Depois de bater no Corinthians, em pleno Pacaembu, e perder duas seguidas em casa, a Macaquinha voltou a conquistar três pontos no campeonato ao vencer o São Bento, em Sorocaba. O time, que era uma das sensações do torneio até então, estava invicto e ainda não havia sido vazado. Gol da vitória por 1 a 0 foi de autoria do volante Marciel.


O resultado, acima de tudo, mostra como a Ponte é melhor e bem armada num esquema onde não tem a necessidade de propor o jogo. A famosa máxima do “saber sofrer” serviu ontem mais uma vez, onde time da casa teve mais oportunidades de chegar ao gol do que a Alvinegra, assim como na partida de estreia.


Nas duas vezes que jogou em casa, a Macaca não sofreu tanta ameaça dos rivais. Pelo contrário, teve mais chances, sobretudo contra o Linense. Talvez esse ímpeto que traz o Moisés Lucarelli, de ter de jogar para cima, prejudique o esquema e o equilíbrio de uma equipe ainda muito jovem e inexperiente.


A falta de concentração foi latente contra o Santos. Diferentemente do que aconteceu contra o Elefante - tomar um gol em lance fortuito do adversário e não reagir, mesmo com tantas oportunidades criadas -, ter saído na frente logo cedo, contra o Peixe, era teoricamente um trunfo para saber jogar no erro do time do litoral.


Porém, junto com a falta de concentração, vieram os erros na compactação defensiva da equipe, o que eu achei o grande erro da Ponte no jogo contra o Santos. Isso resultou em alguns contra-ataques do alvinegro praiano, que tinha muito espaço pelas laterais. Assim nasceram os dois gols da virada santista.


Saber manter o que está fazendo fora de casa é importante, um dos motivos do rebaixamento no ano passado foi justamente ter um péssimo desempenho jogando fora. Embora, na minha visão, a equipe não deva mudar sua postura dentro de casa e querer jogar defensivamente também no Majestoso, já que isso “tem dado certo” longe de Campinas.


O segredo, então, é estudar e aprender como ser mais equilibrado para voltar a ser forte em seus domínios. Tanto dentro de campo, sabendo criar e atacar, mas recompondo melhor o sistema defensivo quando sem a bola, como o psicológico de lidar com o que acontece fora dele, nas arquibancadas.


O torcedor não vai estar ao lado da Ponte como costumeiramente está marcado na história do clube. São tempos difíceis para o macaco, que está de saco cheio de decepções e até a goela com a diretoria atual. Os jogadores precisam se desligar disso e ter a convicção de que, teoricamente, não têm nada a ver com essa crise. Jogar leve e sobretudo concentrados, como fazem fora de casa, com o ímpeto da camisa branca e a magia do Majestoso, é o segredo para voltar a vencer em casa.


O jogo


Reprodução
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Marciel comemora seu primeiro gol com a camisa da Ponte Preta


O primeiro tempo foi horroroso. Apesar de começar movimentado, logo as duas equipes perceberam que não aguentariam aquele ritmo por muito tempo, debaixo do castigante sol do interior paulista.


O Bentão quis assustar e mostrar certa superioridade, que tinha no campeonato, logo nos primeiros minutos, mas não aproveitou as poucas chances criadas. No decorrer da etapa inicial, foi a Ponte quem tomou as rédeas e passou a controlar a posse de bola e o meio campo, porém, sem criar alternativas que levassem perigo ao time da casa.


No segundo tempo, com a temperatura um pouco mais amena e apropriada à prática do futebol, foi menos doloroso assistir ao jogo em si. Novamente era o time da casa quem tentava mais e chegava mais à área da Macaca. Com tentativas de chute de média distância e vários cruzamentos buscando o ataque nas bolas aéreas, o goleiro Ivan foi se destacando.


Não foi brilhante como na partida do Pacaembu, mas a cancha anda fazendo bem ao garoto. Com a confirmação de que Aranha não faz mais parte dos planos do clube, é um conforto saber que Ivan está cada vez mais preparado. Foi extremamente seguro nas bolas alçadas na área e muito bem posicionado para defender todas as finalizações que o São Bento acertou no gol.


Normal que vá ter baixos assim como toda a equipe, sofreu dois gols defensáveis contra o Santos, mas confiança vem com o tempo e Ivan parece estar disposto e ser capaz de conquistar seu espaço.


A zaga à sua frente também foi bem. Depois de também falhar contra o Santos, Luan Peres fez ótima partida ao lado do, mais uma vez seguro, capitão hipster Renan Fonseca. Vale salientar uma certa decepção que tenho com Emerson na lateral, ainda demonstrando muito nervosismo, principalmente com a bola no pé, e algumas falhas no posicionamento defensivo. Embora, do outro lado, Orinho fez jogo razoável e já provou ser capaz de ganhar a vaga de Jeferson, graças a Deus.


Foi trazendo Jeferson para a equipe, no lugar do atacante Felipe Saraiva, na metade da etapa final, que Eduardo assumiu sua vontade de defender apenas um ponto em Sorocaba. Talvez não confiasse na capacidade de criação da equipe, meio sumida no segundo tempo, e ainda menos na situação física dos atletas. Deu “sorte”.


Logo após a alteração, em escanteio, Sylvinho caprichou no cruzamento no primeiro pau e encontrou Marciel muito bem posicionado à frente da zaga. O volante deu a famosa casquinha para encobrir o goleiro e abrir o placar. Não me ficou claro se houve ou não um toque do zagueiro do Bentão, contribuindo para que a bola fosse indefensável.


Sylvinho, antes disso, tinha sido um destaque da Ponte no primeiro tempo, com jogadas agudas. Ainda longe de sua condição física ideal, assumiu o posto de detentor das cobranças de bola parada da Macaca e agora ganha moral para continuar nessa responsabilidade.


Marciel novamente foi um dos melhores em campo. É muito inteligente com a bola no pé, tem altura para disputar cruzamentos na área e ótimo posicionamento defensivo também. Talvez quem mais empolgue o torcedor nesse início de temporada.


No meio campo, Tiago Real esteve muito regular, como sempre. A tendência é que também seja titular durante toda a temporada e está sendo interessante acompanhar sua evolução na nova função dada por Eduardo a ele, mais recuado. Léo Artur foi melhor do que costuma ser, embora não tenha capacidade de ser 10 da Ponte. Espero, em breve, ver Daniel tomar sua posição.


No ataque, a cada jogo acompanho a evolução de Felippe Cardoso. É impressionante a qualidade que tem no pivô e em prender a bola. Ainda falta muito para se tornar o 9 que a Ponte precisa, principalmente gols, que devem vir naturalmente no campeonato. A estreia de Gabriel Vasconcelos foi muito curta para ver algo mais, mas já coloca uma sombra ao sumido Felipe Saraiva, devendo desde o brilho de estreia no Pacaembu.


Torcida longe


Uma pena que ainda não sejamos capazes e permitidos pela proibição injusta e infundada do Ministério Público de São Paulo de acompanhar essas partidas fora de casa.


Gostaria novamente de cobrar algum posicionamento da diretoria da Ponte Preta sobre essa imposição. Até agora, parece que nada foi feito e, pior, até que a direção está feliz e satisfeita em ter seu torcedor cada vez mais distante do time.