A bipolaridade da Ponte Preta que contagia e irrita seu torcedor

Ok. O mais otimista dos pontepretanos vai dizer que no começo do ano só existia a Ponte Preta ruim e absolutamente nada a ser louvado. Fato.


Porém, não há nada que irrite mais do que essa montanha-russa. Ligar a TV (já que estamos proibidos de irmos aos jogos) e não saber qual Macaca irá entrar em campo, a boa ou a ruim. Que pode também ser resumido em a que está interessada na partida e a que não. 


Prova disso é que levei dois dias para conseguir digerir a derrota de sábado, quando a Alvinegra perdeu, de virada, para o Atlético-GO: 3 a 1. Só agora me sinto preparado para tentar ser sensato nas palavras.


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Felippe Cardoso lamenta chance perdida no segundo tempo


Pois pior ainda do que variar entre um jogo e outro, foi variar dentro da mesma partida, como nesse caso. Foram dois tempos completamente distintos. A Ponte, inclusive, só perdeu o jogo por praticamente um quarto dela. A partir dos 20 minutos da etapa final. Quando mais precisava estar alerta.


Essa tem sido a tônica da Macaca na Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro de 2018. Faz excelente jogos e empolga, demonstrando que tem capacidade para ser candidata ao acesso e até ao título do certame. Foi assim no dérbi, contra o Flamengo no Maracanã e ante o - até então líder - Vila Nova, em Goiás. Tudo longe de Campinas. 


Depois tropeça, em casa, de maneira a desmoronar tudo o que construiu antes - no campo, na tabela de classificação e no ânimo de time e torcida -, causando desconfiança e, principalmente, extrema irritação nos seus torcedores. Ódio mesmo. 


Não tem essa de freguesia para o Atlético-GO. Todos os jogos foram em momentos diferentes, entre times diferentes e contextos completamente distintos. Cada jogo é um jogo. Mas para os alvinegros mais supersticiosos, foi justamente uma derrota em casa para o Dragão que virou a chave da seriedade na busca pelo acesso em 2014.  


O jogo


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Tiago Real tem deixado a desejar na principal lacuna do time: a criação


No sábado frio e chuvoso, a Macaca recebeu o time de Goiânia em Bragança Paulista. Já que a partida tinha os portões fechados, a diretoria resolveu fazer uma reforma no gramado do Majestoso, que por sua vez foi palco de uma fan-fest. 


De lá do telão, o pontepretano viu um primeiro tempo muito difícil. Truncado. De intensidade na marcação pelos dois lados. A Ponte se impôs, teve um número muito superior de posse de bola e era praticamente o único lado a tentar o ataque, embora não conseguisse levar tanto perigo aos visitantes por falta de qualidade nesse toque de bola permanente.  


Isso só mudou depois da metade do primeiro tempo, quando a Alvinegra realizou, enfim, que o chute de fora da área era a melhor alternativa. Júnior Santos levou muito perigo em jogada individual, defendida pelo goleiro rival. Poucos minutos depois, numa sobra de bola, Paulinho acertou chute de rara felicidade e encobriu o arqueiro para abrir o placar. Golaço. 


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Menos pior da Ponte em campo, Paulinho comemora golaço


Começando o segundo tempo em vantagem, a Ponte não mudou sua postura. O Atlético, por sua vez, era completamente outro. Saiu para jogar, passou a ter a bola, apesar de ainda continuar uma partida bem truncada. Era ao gosto da Macaca, que tinha o contra-ataque - seu ponto forte - na mão e o controle ainda das ações mais perigosas. 


Porém, faltou matar o jogo. Primeiro que não teve capacidade criativa - o grande problema, gravíssimo, do time hoje - para chegar mais fácil ao gol adversário. Mais uma vez as pontas estiveram inúteis. O André Luís do dérbi é um fantasma que assusta somente aos lá de baixo e Danilo está visivelmente defesado fisicamente. Parece uma tanajura, além de escolher tudo errado. 


E é nisso que entra minha maior crítica ao técnico Doriva. Ele já teve tempo de armar um ataque mais eficiente. Falta qualidade, mas vai dizer que os outros ataques do campeonato são tão melhores assim que o nosso em peças e nome?


E mesmo quando teve as poucas oportunidades, Júnior Santos e Tiago Real falharam. Pronto. Estava ali desenhado o caminho para a desgraça. Parece que o macaco tem o dom de sentir o que vai acontecer. Pois faltou que alguém avisasse a Doriva que o Atlético estava gostando demasiadamente da partida. Era hora de mudar o jogo, frear o ritmo, cadenciar, catimbar, se preocupar mais com a defesa. Quem sabe, talvez, se a torcida estivesse no estádio...


O segundo tempo, que estava aparentemente controlado, saiu dos trilhos e das mãos da Macaca. O ímpeto foi afrouxado. Não consegui descobrir ainda se foi estrelismo - tenho me incomodado com alguns atletas que acham que a camisa (essa azul, não, né? O escudo, mesmo) da Ponte vai vencer as partidas sozinha - ou se foi só a incapacidade física aliada à falta de técnica. Sei que com uma pitada maléfica de azar, como também houve nas outras derrotas até aqui no torneio, contra Paysandu e Londrina. 


Ora, Série B é pauleira, não tem como cair pedindo 'faltinha', dar 'dibrinho', não é lazer ou colônia de férias e os gols não passam no 'Fantástico' narrados pelo Tadeu Schmidt. Faltou concentração e seriedade. E do outro lado tinha um adversário que quis vencer a partida. Como tudo está nivelado - e por baixo -, quem quer ganhar tem mais de meio caminho andado. 


Em lançamento que a Ponte estava com a defesa completamente exposta - qual o motivo disso, ganhando o jogo? -, Reginaldo falhou na rebatida e a cobertura de Marciel não aconteceu. Aliás, Marciel nem aparece nas imagens do gol de empate do Atlético-GO. 


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Mais um erro defensivo grotesco é determinante em derrota da Ponte em casa


Foi um temporal de água fria para o time alvinegro, que sabe da dificuldade que tem em balançar a rede lá da frente e viu sua vantagem se esvair em tamanho vacilo. Aí entra a imaturidade do jovem elenco. Ivan - que culpa tem, Ivan? - tentou repor a bola com pressa e deu um lateral de presente para os goianos no campo de ataque. 


Após a cobrança, o jogador rubro-negro teve uma sorte incomum ao ver a bola travar na sola de Paulinho - ironicamente o melhor da Ponte em campo - e encobrir, de forma cruel e trágica, o goleiro pontepretano. Era a virada do Atlético-GO em menos de 5 minutos. 


Após o desastre, nem eu tinha emocional para continuar vendo o jogo, imagina o abatimento dos moleques em campo. Tudo queimava nos pés. Até dos mais experientes. Tiago e Danilo mais uma vez foram muito mal. As alterações de Doriva não surtiram efeito, Murilo, Felippe e Roberto nada puderam fazer na base do abafa e da pressa. 


Desmantelada na técnica, na cabeça e na tática, a pá de cal veio nos acréscimos, em mais um lance de azar e infelicidade da defesa. 


Eu ainda acredito que esse time da Ponte deve engrenar quando tiver mais entrosamento e principalmente cancha, entender o que significa e como se joga uma Série B. O espírito tem que ser o do dérbi o ano todo. É batalha. O clássico já passou e, a partir de agora, não foi nada mais do que uma vitória contra um time do meio da tabela.  


A torcida pode fazer falta. Acredito que esteja fazendo - e muita. Porém, não serve mais de desculpa. A punição está apenas na metade e foram nove pontos desperdiçados em casa. Se não aprender a jogar assim e não conseguir pontuar pelo menos sete, dos próximos nove em disputa no Majestoso - com qualidade na recuperação fora de casa -, pode dar adeus à Série A de 2019 e passar a olhar com cuidado para a parte debaixo da classificação.